O “IRMÃO DO JOREL” E A IDENTIDADE NÃO RECONHECIDA – Lezir Ishigawa

Há algumas semanas, Irmão do Jorel, animação brasileira atualmente no ar pelo canal Cartoon Network, foi indicado ao Emmy International Kids de melhor animação infantil de 2019. A importância da notícia está no fato de ser um trabalho brasileiro, considerando que nossa animação ainda é pouco volumosa e, quando há no mercado um trabalho feito em episódios, disputa espaço no imaginário de uma infância e juventude muito avessas a manifestações estéticas que as lembrem de que tal ou qual desenho é uma produção brasileira. Faz parte do inconsciente coletivo que supõe a nacionalidade brasileira uma espécie de maldição. Ranço similar ao que sofre o cinema nacional. Nesse sentido, não surpreende haver em Irmão do Jorel algumas referências estéticas que, por assim dizer, “universalizam” o desenho, e não haver alusões inequívocas que o abrasileirem, como, por exemplo, acontece com Calango Lengo , animação sobre a qual escrevi neste espaço.

Na ambiência criada pelo autor, o capixaba Juliano Enrico, ninguém trata o protagonista pelo seu nome, desconhecido também do telespectador (e essa característica contribui para o efeito positivo da animação): o tratamento se dá pela circunstância de ser o irmão mais novo de um adolescente chamado Jorel, cuja grande qualidade é ser o bonitão, ao passo que o menino protagonista é extremamente criativo. Temos, então, o reflexo de um mundo no qual o intelecto vale pouco, e o físico é hipervalorizado. Por isso quem tem nome é o belo, não o imaginativo.

No entanto, o fato de o Irmão do Jorel ter sua identidade pessoal um tanto menosprezada nos ambientes familiar e escolar, estimula seu lado criativo. Ele não ter os predicados físicos do irmão faz com que a ferramenta disponível para demonstrar sua existência seja seu grande talento criador.

Sua timidez (natural ou provocada pela “desidentidade”) é responsável pela projeção feita por ele em cima de um personagem de cinema ao estilo norte-americano, Steve Magal, um sujeito atarracado, de rosto enorme, constantes óculos escuros e palito na boca. O comportamento do Irmão do Jorel diante do seu ídolo é de catarse e fanatismo (seus olhos brilham, sua voz muda). Os atos de violência e vaidade de Steve Magal parecem funcionar como afirmação da identidade do Irmão do Jorel, ou melhor, de como ele gostaria de ser reconhecido.

Outro contraponto ao protagonista é Lara, sua colega de escola. Se o personagem de cinema é o arquétipo do “macho alfa”, ela é autossuficiente e libertária em relação a padrões machistas, além de meio anárquica. Lara não se projeta em ninguém, o que de certa maneira intimida o Irmão do Jorel, mas, por outro lado, faz com que a admire. Não é o mesmo vínculo afetivo que possui quanto a Ana Catarina, uma menina loura e esnobe por quem nutre uma paixão infantil.

Interessante notar que a ferocidade de Magal é a grande referência masculina do protagonista — que está longe de ser uma pessoa violenta — não o pai ou os outros dois irmãos, Jorel e Nico; no campo feminino, é a Lara e as duas avós dele, uma em função do carinho (Juju) e outra por também ser fã de Magal (Gigi). Ou seja, uma menina e duas idosas, situação que se constitui em mais um caso de complementaridade da narrativa (o primeiro é Steve Magal e o Irmão do Jorel).

A família é um dos dois principais ambientes da animação, e ela apresenta um padrão diferente do considerado tradicional, pois as duas avós moram na mesma casa dos pais do Irmão do Jorel, e são opostas entre si. Dois universos distintos, mas que não entram em conflito. Enquanto a avó paterna, Juju, é uma senhora ingênua, amorosa e meio abstraída da realidade, muito ocupada com seus patos e abacates, a materna, Gigi é grosseira e sardônica. É nessa relação de complementos e oposições que a personalidade do menino se forma.

O pai, Sr. Edson, e a mãe, Dona Danuza, estão bem inseridos no comportamento politicamente correto, uma das marcas do contemporâneo: ele, um falso rebelde, é o conhecido engajado político: levanta bandeiras que, por nunca estarem em uma perspectiva coletiva, funcionam como publicidade dele para ele mesmo, num processo de autoengano, outra característica do mundo atual; ela, uma professora de balé “descolada” e adepta da “alimentação saudável”.

A vida social desses personagens é frequentemente atravessada pela Shostners & Shostners, uma empresa onipresente que, nesse sentido, lembra a usina nuclear da animação Os Simpsons, a Wesayo Corporation (gerida pelo carniceiro Sr. Richfield), de A família dinossauros, ou a Wayne Enterprises, cujo proprietário é ninguém menos que o Batman, em seu disfarce de Bruce Wayne, com uma diferença notável: aparentemente o “dono” é uma criança, William Shostners. Em se tratando de um universo ficcional, é possível, mas também não deve ser descartada a hipótese de ele ser uma fachada para o verdadeiro proprietário, que nunca aparece. Nesse sentido, é uma interessante alusão ao atual estado do capitalismo mundial, de oligopólios insuspeitados pelo público, ou seja, empresas que antes eram independentes e cujos proprietários sabia-se quem era, hoje pertencem a um grupo maior e sem rosto.

Quando analisamos em leque a grande quantidade de personagens, entre principais, secundários e eventuais, fica evidente a qualidade deles e a maneira habilidosa pela qual, apesar de diversos, eles se complementam, a exemplo do que deveria ser a regra geral na sociedade brasileira. Ademais, existe outro encaixe feito com maestria: a representação do real com a expressão do irreal, como é o caso dos três patos criados pela Juju, que falam e soltam raios pelos olhos. Um deles, inclusive, com o estranho nome de Gesonel, em alguns episódios se faz passar por seres humanos e outros bichos, e por isso é chamado de Mestre dos Disfarces.

Aguardemos 2020, dedos em cruz, quando ocorrerá a divulgação do resultado. Assim como o irmão do Jorel, a animação brasileira não tem sua identidade reconhecida, embora tenha rosto. Ao menos, não ainda. Uma consagradora vitória no Emmy International Kids não fará a lamentável administração da Ancine tratar adequadamente o setor, mas é um sopro, um lenitivo sobre a pele chicoteada.

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