O PRAZER E O SOFRIMENTO NA ARTE DE CLIVE BARKER – Fil Felix

Há um consenso que diz que o medo do desconhecido leva o ser humano a tomar atitudes drásticas, independente de sua natureza. Uma delas, por exemplo, e que também é uma frase clássica nos quadrinhos dos X-Men, é que “a humanidade sempre teme aqueles que ela desconhece”. E como praxe, o que ela teme ela agride. Uma ideia para tentar explicar a perseguição que a sociedade faz às minorias, nesse caso os mutantes.

Por outro lado, e também mais concreto, um dos maiores medos da sociedade é o sexo: do ensino ao fazer, quase tudo que permeia o sexo se torna tabu. Como costumo citar, Freud dizia que a humanidade é movida por desejos sexuais, nos deixando nesse paradoxo. Como podemos condenar, evitar ou esconder algo que faz parte da nossa vida e muitas vezes até mesmo define nossas ações no dia a dia? A resposta eu não sei, mas o trabalho e as opiniões do Clive Barker podem nos ajudar a refletir melhor sobre o assunto.

Pinhead, icônico personagem de Clive Barker.

Nascido em 1952, o inglês Clive Barker se tornou um artista multimídia ao longo de sua carreira, sendo escritor, artista plástico, roteirista e diretor de cinema. Especializado no horror fantástico, ganhou notoriedade com a coleção de contos Livros de Sangue publicados entre 1984 e 1985 e, mais tarde, ficou mundialmente conhecido ao dirigir e escrever Hellraiser – Renascido do Inferno, em 1987, apresentando ao público os Cenobitas, criaturas que vivem em outra dimensão e que se utilizam da dor e sofrimento para obtenção de prazer, possuindo deformações e modificações corporais, como agulhas perfurando a pele e vísceras expostas, além da indumentária de couro e acessórios de tortura. Tratam-se de criaturas sádicas que levam as pessoas ao inferno através do prazer pela dor.

A diversidade do traço de Clive Barker

A questão BDSM, que envolve o universo da dominação e sadomasoquismo, é algo bastante presente na obra de Barker que, citando o Mito da Caverna de Platão, também acredita que o ser humano possui medo do desconhecido. Mas para ele, esse medo auxilia e fortalece a imaginação e erotização das coisas que, como diz Freud, está no cerne da sociedade. A estética de seus trabalhos visuais é quase sempre grotesca, trazendo figuras disformes, nuas, símbolos fálicos, tortura, expressões de sofrimento, dor ou excitação. De alguma maneira, Clive Barker utiliza de suas criaturas para nos apresentar a um sistema totalmente diferente de sexualidade, algo que existe para além dessa realidade. Seja na caneta ou tinta a óleo, seus desenhos se inspiram muito no Surrealismo e no Expressionismo.

Crítico das religiões, certa vez comentou numa entrevista que o livro mais aterrorizante que leu foi a Bíblia; que não acredita em pastores como os únicos conhecedores do que está escrito ali, mas pelo contrário: cada qual precisa ler e interpretá-la à sua maneira. Castigos, tortura, morte, assassinatos e criaturas demoníacas fazem parte do livro sagrado, quase sempre esquecidos. Mas para o artista, onde muitos a leem de um jeito, ele a lê (e incorpora muitos de seus ensinamentos) à sua maneira. Mais um ponto interessante, retomando a pergunta inicial do artigo, para pensar como separamos tanto a questão do sexo com a moralidade, mas que está sempre cruzando caminhos ditos sagrados como as religiões.

“Apocalypse” e “Earth Martyr”, ambas de 2005.

Dessa forma, não é difícil encontrarmos sua versão para um Cavaleiro do Apocalipse, em meio a tantas outras criaturas demoníacas. Ou até mesmo a figura de um homem cercado de bambus fálicos representando a fertilidade, com direito a um halo ou disco dourado em sua cabeça e pênis, uma clara alusão à forma como as figuras santas eram representadas artisticamente no passado. Inclusive, o pênis, em particular, é algo muito utilizado em seu trabalho: num deles, que achei extremamente curioso, um homem faz sexo oral em si mesmo, dando o título de Ouroboros, referência ao símbolo da cobra mordendo a própria cauda.

A título de curiosidade, Barker também é abertamente gay. Apesar de sermos seres que fantasiam muito as coisas, seja porque a realidade por si só não é suficiente ou pelo medo do desconhecido, ainda temos diversas travas que nos impedem de externalizar muitas dessas fantasias. Em muitos casos, evitamos até mesmo pensar os limites do prazer com medo de pecar. Dirá verbalizar! Felizmente, artistas como o Clive Barker estão aqui para pagar esses pecados por nós, mostrando um universo de possibilidades por meio da fantasia.

“The Craftsman” de 1998, “Ouroborous” de 2001 e “The Candle Game” de 2005.

*Para quem achou a arte de Clive Barker um tanto… pesada, saiba que ele também já fez trabalhos infanto-juvenis. Entre eles o livro O ladrão da eternidade, que depois foi adaptado para quadrinhos por Kris Oprisko e ilustrado por Gabriel Hernandez. Confira minha resenha da HQ aqui.

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