VOLTA, QUE DEU MERDA – Madame Cat

Sou um pouco ansiosa, então já sofro por antecipação, procurando argumentos válidos para explicar à minha neta, no auge de seus sábios nove meses de existência, o motivo de a minha geração estar entregando um planeta tão fodido ao seu pai. Ela que, futuramente, terá de arcar com a fatura de nossa incompetência ambiental.

Ao encarar aquele pequeno ser arredondado, desdentado e quase careca, com meu aplicativo “avó” recém-instalado traduzo imediatamente a mensagem “Dádádáoinnnahahahaontummmm” como “Olha só, vó, eu sei o que você não fez nos verões passados. E não adianta me dar mordedor colorido que eu não caio nessa. Só por que estou babando e grunhindo não ameniza sua culpa”.

Tenho a esperança de que meus erros sejam frutos de excesso de liberdade concedida, e não de sua negação, já que o saldo é positivo. Meu filho é um homem que luta pelas causas sociais e procura fazer a parte dele por um mundo melhor.

Logo a minha geração 80, tão liberta, curiosa e criativa. Mas também uma geração que entendia como “desastre ambiental” encontrar língua negra na praia atrapalhando a curtição do verão e latas enferrujadas de maconha boiando no mar. Fumaça, de carro e de cigarro, era o preço da civilização; monóxido de carbono e camada de ozônio deviam ser entes esquisitos da tabela periódica. Esse negócio de encobrir rompimento de barragem de resíduos tóxicos, queimada de floresta para favorecer latifúndios, vazamento criminoso de petróleo na costa nordestina era totalmente inimaginável ocorrer no Brasil futuro. Ter um governo ignorante, conservador e covarde, diante das tragédias sociais e ambientais, nem nas piores previsões. Estávamos recém-saídos da ditadura militar e engatinhando na democracia e na globalização do conhecimento. Rumo à consciência de que nosso ambiente, a ser preservado, não é só a praia que frequentamos e sim o planeta inteiro, como um ser vivo único, um bem coletivo. Mas algo deu errado no caminho e não voltamos à estaca zero e sim ao negativo, quase uma dívida impagável. Não vejo outra forma da engrenagem humana voltar ao eixo da evolução sem um boot básico. F12 bem dado, daqueles de tirar do ar geral. Esta é minha esperança. Mas muito cuidado ao reinicializar o sistema. Não cometamos os mesmos erros do passado e do presente, pois não sei até quando a máquina vai aguentar tantos reinícios.

(Legenda foto que ilustra a crônica: Leonardo Malafaia fotografa menino  na praia de Itapuama, Região Metropolitana do Recife, outubro de 2019)

Um comentário em “VOLTA, QUE DEU MERDA – Madame Cat

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  1. Sou da mesma geração e tenho a mesma visão do Brasil que observo como um rascunho muito mal revisado, muito longe do projeto que se sonha como um país do futuro. O futuro chegou bem antes do que supúnhamos e nos levou todo o presente, rasgando papéis importantes e sujando qualquer fantasia com lama e piche. E o passado, vai mesmo nos condenar? Espero que nossos netos tenham força, sorte e firmeza para decidir e exigir providências sensatas, aquelas que já foram tão urgentes e nunca foram tomadas ou sequer consideradas. E que por enquanto, procuremos lidar com a culpa que nos invade quando um olhar infantil nos questiona sobre “o que não fizemos no verão passado”.
    Parabéns pelo texto,Madame Cat.

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