A FADA DO TEATRO – Paula Giannini

“Olha que linda!” Ela vem com o sorriso e os braços abertos, um mais alto que o outro, para manter o equilíbrio. “Fui eu mesma quem plantei, de uma mudinha de nada… Olha que beleza”, ela fala apontando a planta imensa e realmente linda que ornamenta a entrada do Teatro Maria Della Costa, em São Paulo.

E me abraça.

Não sei o que fiz para merecer o amor desta fada octogenária, mas, por algum motivo, o mereço. Quando me vê, corre para contar as novidades. “Vocês vão voltar? Fala com o administrador… O Teatro vai mal. Não é só aqui, eu sei. Todos agora só pensam em celular… Por que levaram um ano para aparecer?”, dispara. “Este ano foi duro, Dona Maria…”, defendo-me, sabendo que não há desculpa para o lapso. “Vocês fazem muita falta”, ela continua, generosa, “o Casal PPM”, como chama nosso espetáculo, trocando o T pelo P (em seu tempo não havia isso de TPM) é que era sucesso… Volta… Monta uma comedia nova, vai ser o maior sucesso”, ela segue.

Não sei se há como dissociar a história do Teatro Maria Della Costa, da de Maria Bárbara de Jesus Costa, 84 anos (e vice e versa). Camareira da atriz que construiu e dá nome ao Teatro desde sua inauguração, Dona Maria é a fada zelosa que cuida do espaço como se fosse dela. Mais que isso, como se fosse seu próprio corpo. Sua própria alma. E é. “Eles falam para eu me aposentar, mas não posso, eu amo isso aqui e, cá entre nós, quando eu morrer, isso tudo acaba”, ela diz sem falsa modéstia, ciente do trabalho que, inacreditavelmente, realiza quase sozinha. Ela é a responsável por limpar, organizar, zelar pelo auditório entre as sessões de um teatro que é um colosso, com seus 390 lugares, dois banheiros sociais, 10 camarins, um fouer imenso, com café e uma floricultura (outra de suas magias, ela colocou para dentro o vendedor de flores da esquina). “O coitado teve as flores levadas pela Prefeitura duas vezes. Até apanhou…Ficou lindo, não foi?”, além de um saguão superior que daria mais três teatros, e um inferior com capacidade para mais de cem atores e seus burburinhos e figurinos em araras, enquanto aguardam a hora da entrar em cena. Ou Dona Maria é guerreira ou, algo de que suspeito muito, não é desse mundo, o universo quando a criou resolveu dar-lhe a energia de um Hércules. “Agora eu tenho uma menina que me ajuda… Mas, essas meninas de hoje não aguentam nada”. A menina, diga-se de passagem, é a Nice, outra fada invisível do Teatro, que já deve contar com seus 70 anos.

Lembro-me da primeira vez em que a vi. Na época, era ainda uma mocinha de 74 anos. E então, me dou conta de que lá se vão 10 anos desse amor ao qual não faço jus. Na época, estávamos estreando em São Paulo e o gigante Teatro Maria Della Costa era um belo desafio. Encher uma casa assim, não é fácil. Lembro de parar carregada de malas e cenários embaixo daquela escadaria linda e imensa que liga o hall de entrada ao palco, dois lances superpuxados. Lembro da reclamação de um de nossos jovens atores — “Carregar as malas aqui?!”. E foi nesse momento que, como que surgida de outra dimensão, Dona Maria, que, dizem, é onipresente e onisciente dentro do Colosso, apareceu já com as duas mãos agarrando uma mala em cada uma delas. E subiu a escadaria com seu passinho miúdo de passarinha, seu inconfundível andar de trabalhadora incansável, sempre disposta a fazer tudo pelo bom funcionamento de sua casa. E, como se consigo levasse duas caixas de ovos, subiu em um só fôlego. “Vocês não vêm?”.

Sua casa.

É assim que ela enxerga o teatro que também carrega seu nome. Ela tem história. Memórias das gentes invisíveis que o público não vê, mas sem as quais o espetáculo não acontece. “Antigamente, no tempo em que o teatro era da Maria (a outra), as sessões eram de terça a domingo. A gente só parava na segunda. E a estrela descansava aqui”, exibe o divã da artista, cuidado como relíquia em seu antigo camarim, museu trancado e só ocupado por aqueles em quem a guardiã confia. “Vocês podem usar, está aqui bonitinho, aguardando por vocês. O Camarim do Casal PPM é campeão, um capricho. Só perde mesmo para o do Paulo Autran”, ela é realmente generosa conosco (será que diz isso a todos?) e já vai engatando em mais preciosidades. “O camarim dele dava gosto de ver, arrumado, cheiroso…” E conta mais. “Só que perfumado mesmo, era o outro Paulo, o Goulart. Perfumoso e lindo, virava a cabeça de todas. A Nicete devia morrer de ciúmes…”, ela ri.  Ela sabe tudo. Conhece cada recanto, cada passagem secreta, sabe de quem é cada peça de roupa ou cenário esquecida na correria do monta e desmonta dos espetáculos.

Ela sabe tudo.

Dona Maria é história viva.

Ela estava lá, na montagem de Anjo negro, de Nelson RodriguesA moratória, de Jorge AndradeGimba, de Guarnieri, e na primeira montagem de Brecht no Brasil, A alma boa de Se-Tsuan, em 1958. Conheceu o modo de trabalhar dos grandes, Gianni Ratto, Raul Cortez, Sandro Polloni, Sérgio Britto, Fernanda Montenegro, Eugênio Kusnet, Wanda Kosmo e Manoel Carlos, em espetáculos que chegavam a contar com 40 atores em cena. “Lembro do dia que a Elis Regina cancelou o show, foi uma confusão, tinha filas aqui na porta”, recorda-se. Se os grandes, todos estes para quem foi tão importante naquela estrutura cênica, se lembrarão dela? Não sei. Talvez sim, quem sabe a guardem como eu em seus corações.

O prédio foi projetado por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, mas Dona Maria é quem deveria ser declarada patrimônio cultural. Monumentos não existem sem os seres humanos, sobretudo os raros como ela. Ela e o seu Zé, outro patrimônio de quem falarei em oportuno. Ela conhece a alma do Maria Della Costa, porque faz parte dele desde seu surgimento. Era ainda uma mocinha. Cresceu, amadureceu, casou, teve filhos e netos… O local, que um dia foi considerado a grande casa do teatro contemporâneo brasileiro, também passou por mudanças, amadureceu, envelheceu… “Eu operei, agora, acho que posso voltar a usar saias curtas…”, arremata mostrando as pernas de uma menina de 40 anos.

Maria Bárbara de Jesus Costa é um fenômeno.

Mais de 60 anos se passaram… O gigante se tornou obsoleto. As memórias se apagando como quase tudo que faz parte do mundo da cultura, em um país que pouco valor dá ao que é essencial… Tempo desses, em uma lista dos teatros paulistanos, o Maria Della Costa foi classificado como mediano. “Tem um grande sagão, café, e poltronas sem conforto, porém que permitem que o público enxergue e ouça tudo”, foi o veredicto. “Eles não sabem de nada”.

Não sabem.

Só quem pisou no palco do Maria como artista ou camareira, só quem conheceu de perto a força do colosso sabe que ali “o público pode escutar uma agulha caindo no fundo do palco, a acústica é perfeita”, ou que este é um dos poucos locais onde se pode contar com um verdadeiro urdimento para maquinar cenários que sobem, descem, se escondem e aparecem.

Eles não sabem de nada.

Mas a fada negra e maravilhosa do Teatro Maria Della Costa sabe.

Dona Maria ensina. Ela traz consigo a lição de que se deve colocar paixão em tudo o que se faz, ainda que às vezes isso lhe custe toda a sua vida. E merece todo o meu amor, admiração e respeito. Só o meu, não. O meu, o do Amauri Ernani e o de toda a Palco Cia de Teatro.

Ela é a verdadeira diva do teatro paulistano.

O Teatro se chama Maria Della Costa, mas deveria se chamar Teatro Maria Bárbara de Jesus Costa.

E vamos ao Teatro!

(*) A foto que ilustra esta crônica é do José Paulo, do grupo Ria, outra trupe de artistas que tiveram o privilégio de compartilhar o amor com Dona Maria.

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