HOMENS COMO NÓS – Sandra Godinho

Ainda me encontrava em cima do viaduto dos suicidas quando a noite engoliu a luz em plena três horas da tarde. São Paulo se tornou um breu. Por um momento, achei a penumbra oportuna para velar meu dia vendado pela ignorância, vendado pelas palavras que chegam cansadas aos ouvidos, vendado por olhos que não fazem questão de ver e ouvidos que não fazem questão de ouvir. Não são todos os que se dispõem a gritar ou a ouvir, apenas poucos homens são embolados em Nós de Resistência. Mas mesmo os silêncios fazem barulho, mesmo os silêncios bordam versões de um momento que grudam ao corpo, cansados das mesmas ideologias e dos mesmos pensamentos antigos, das mesmas tábuas gastas pelo poder opressor que se faz ouvir nos escritórios da burocracia que o empresariado manipula ao bel-prazer na velha trilha de interesses. Era nisso que pensava quando me dei conta de que o ar trazia algo de diferente naquele dia que se tornou escuridão. E senti.

Senti o cheiro de cinzas me ardendo as narinas, o cheiro que me fez queimar por dentro, o cheiro que me fez queimar as pestanas com pena de uma floresta desfolhada. Senti ameaçado o futuro de gente que sobrevive a esses barulhos antigos e aos silêncios de quem cala quando deve gritar. Senti que devia fazer do meu verso o fio que se alinha ao universo em canto livre para ranger a livre expressão que viabiliza a humanidade no mundo. Denunciar, engajar, esclarecer, persuadir. Em casualidade ingênua, lembrei-me do ameaçado japiim fugindo do fogo, pássaro das matas amazônicas de plumagem preta e amarela, de bico amarelo claro, que se embravece em voo infinito, representando o mundo possível.

Não tendo canto próprio, é exímio imitador do canto de outros. Diz a lenda que no dia em que tentou arremedar o canto do tanguru-pará — que largou o que estava fazendo para acudi-lo — causou à ave uma indignação tão grande que acabou morto a bicadas. Virou alma penada pelos céus, cruzando distâncias com o deserto no peito, empunhando uma dor que ninguém sabia que existia, até que resolveu cantar para o deus dos índios e assim se abancou nos céus. Quando a grande epidemia alastrou-se pelas tribos, os indígenas pediram a Tupã que os levassem às alturas, onde não havia mal ou malefício, e Tupã lhes enviou o japiim para que eles esquecessem suas mágoas, enterrando de vez o desânimo e a tristeza. E o canto da pequena ave se fez acalanto, consolo e calmaria na terra, e a felicidade voltou a reinar absoluta entre os índios. Satisfeito, Tupã permitiu que o pássaro voltasse a habitar a terra como um presente divino. E assim foi.

Agora os ninhos dos japiins — geralmente em forma de uma bolsa pendurada em árvores baixas — estão ameaçados. Nós estamos ameaçados com a beligerância das vontades de quem percebe e pensa a floresta apenas com o sentido de explorar até o limite de suas cruezas, que leva junto fauna, flora e o próprio homem — do campo e da cidade. Pau-rosa, madeira, couro de jacaré, ouro, nióbio, animais silvestres. É preciso ser a floresta, é preciso sentir como a floresta, só assim para entender que não adianta providenciar energia para uma região carente dela, inundando a mesma área de Itaipu para gerar somente dez por cento da capacidade de Itaipu[1] porque o local é de planície, porque há fartura de luz solar a ser (re)aproveitada.

É preciso sentir a floresta que vê proteção no índio, que detém o conhecimento de plantas que podem ser pesquisadas como alternativa aos medicamentos que pagam royalties volumosos à indústria farmacêutica multinacional, medicamentos inacessíveis às populações desses beiradões de caminhos andantes que se estendem pelo interior, serpenteando por entre o tapete de verde derramado que nos faz sofrer tanto. É preciso sentir a floresta que preserva as fontes de água potável, que resguarda essa parte do mundo, que ameniza o clima, (re)equilibrando correntes em cadência de agonia. É preciso sentir a floresta que se mantém fértil com o adubo feito de restos do que já foi vivo. Não há, nos escritórios dos burocratas, quem entenda que o solo delas sempre foi carente de nutrientes? E as áreas férteis se restringem a poucas áreas e às várzeas? Áreas para agricultura? Desde quando?[2]

Aquela tarde negra me queimou, ardeu o ar, arrancou-me as raízes e me fez bater em retirada em busca do meu verso, em busca da minha voz para que ela não secasse feito a mariposa morta ao meu lado, sufocada pelo calor e cinzas. Voa, voa, japiim. Bata suas asas em busca de novos ninhos, em busca de homens que sintam seu sopro de angústia, em busca de homens como Nós.

Foi quando meu verso virou linha em nova pauta, a viabilizar o mundo.


[1] Referência à Usina Hidrelétrica de Balbina, construída de 1985 a 1989

[2] Referência ao livro “O pajé da beira da estrada”, escrito pelo militar Altino Berthier Brasil quando da construção da BR-174 (estrada que liga Manaus a Boa Vista) e sua experiência como proprietário de um lote de 500 hectares no Km 124 da referida estrada.

Um comentário em “HOMENS COMO NÓS – Sandra Godinho

Adicione o seu

  1. Boa noite, Sandra! Ótima visão abordando esse “eclipse” que tivemos recentemente. Estava trabalhando, quando vi o céu escurecer pelas janelas do prédio. No momento, pensei que era sinal de chuva, só depois descobri a verdade. Se já é triste saber que estamos destruindo o planeta aos poucos, esgotando-o até onde der, é mais triste ainda quando podemos ver e sentir as consequências disso tudo em tempo real. Nos falta visão, justamente essa levantada pelo texto, de enxergar que há uma infinidade de vida além da nossa própria, humana. Estamos contaminando os rios e mares, queimando as florestas e matando animais silvestres e milhares de outros na pecuária, os privando de sua vida natural. O dia virando noite em São Paulo, tida como a maior cidade do país, se tornou o símbolo desse ano para o que estamos fazendo e a cara de para onde vamos chegar.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

Crie um novo site no WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: