O POVO BRASILEIRO EM “CLARA DOS ANJOS” – Eduardo Selga

Lima Barreto e Machado de Assis foram escritores cariocas contemporâneos entre si, não obstante aquele ser 42 anos mais novo, e de todas as características que os distanciam, talvez o universo ficcional retratado por cada um deles seja o mais marcante. Enquanto o Bruxo do Cosme Velho, fiel à sua classe social (não a de origem, mas a que galgou no decorrer do tempo), se concentra em personagens afeitos a ela, como comendadores, juízes, advogados e funcionários públicos de certa graduação, Barreto segue o caminho oposto, consoante sua origem social. Por isso temos alcoólatras, vagabundos, poetas populares, loucos, funcionários públicos de poucos degraus.

A opção de Lima Barreto, em pleno em séc. XIX início do XX foi um atrevimento, pois o subúrbio carioca, que por efeito de metonímia é a periferia brasileira, passa a existir no cânone literário. Não nos personagens e trama, somente: em Lima Barreto a linguagem desempolada ganha espaço, se bem que muitas vezes com o emprego das aspas, como que a justificar a oralidade distante da carrancuda e um tanto alienígena norma-padrão, a esclarecer que ele, Lima, sabe a grafia correta do vocábulo, mas avisa ao leitor que o termo está escrito conforme a fala popular.

Considerando que Lima Barreto poderia não fazer uso das aspas, percebe-se que o recurso funciona como uma salvaguarda para ele, escritor e jornalista oriundo das classes sociais baixas. Afinal, não custaria nada ao pensamento reacionário brasileiro de então e de sempre considerar aquele escritor negro um analfabeto. Inclusive, muito da crítica negativa contra ele é preconceito social e racial porcamente disfarçado. Ademais, só muito recentemente a grafia representando o léxico popular, sem o biombo das aspas, passou a ser enxergado como recurso estético perfeitamente válido.

Quem lê de Lima Barreto Triste fim de Policarpo Quaresma (1911 em folhetins e 1915 em livro) e se dedica a Clara dos Anjos (1948, postumamente), romance objeto desta análise, percebe uma diferença de qualidade literária. Enquanto as possibilidades do quixotesco Quaresma foram amplamente exploradas, bem como de outros personagens naquele romance, a exemplo de Ricardo Coração dos Outros, em Clara alguns ficam pelo caminho sob semelhante aspecto. Nesse sentido, parece a primeira versão de uma obra que poderia render mais, como as três personagens que compõem a família Dos Anjos (Joaquim, a esposa Dona Engrácia e a filha Clara).

Por habitarem um universo de alienação social, eventualmente intercalado por um exercício artístico pouco sofisticado quanto aos seus procedimentos, a modinha, os três personagens mereciam ser mais bem explorados, quero crer. Por exemplo: Joaquim dos Anjos é um artista do senso comum, um músico das harmonias simples, conforme seu temperamento amorfo e sem ambições, e isso bem poderia render mais, afinal, quem disse que o simples é necessariamente pobre?

Clara, em cujo nome jaz a ideologia de branqueamento, em parte responsável por não nos reconhecermos nos espelhos que a vida social produz, é uma adolescente pobre e negra. A educação caseira faz com que as raízes étnicas da personagem sejam obliteradas em favor de um mundo ideal, projetado pela classe média branca. Por causa desse mundo de faz de conta, Clara, assim como as mulheres seduzidas por essa narrativa, acredita em fervorosas declarações de amor, sonha o modesto sonho de ser rainha em seu castelo doméstico e suburbano. Ou seja, ela é posta na posição de princesa à espera do príncipe encantado, sem cogitar o risco de ser beijada por um sapo-boi ou ter sua alegria sugada por um simpaticíssimo vampiro disfarçado de gente.

A mãe da protagonista, D. Engrácia, sem absolutamente ter consciência disso, é o principal instrumento do processo de “deseducação” da filha, pois ensina o que é ser ou não ser mulher a partir de ordens descabidas para Clara. Engrácia tem “[…] a superstição dos processos mecânicos […]” (p. 52), ou seja, acredita que a repetição ad aeternum da ordem, por mais vazia que seja, dita o bom caminho, ignorando completamente o fato de que os desejos sexuais da filha, porque reprimidos pela educação, necessariamente vão procurar seus meios de fluir. A natureza é assim.

Demonstra bem a inabilidade de D. Engrácia o fato de que, quando Clara cai na armadilha feita de lábia, violão e versos ruins, quem efetivamente faz o papel de mãe da protagonista é a vizinha D. Margarida, uma mulher centrada em si e nem um pouco ingênua, que leva as duas à casa da família de Cassi. Curiosamente, ela, bastante firme em suas atitudes e falas, é de ascendência teuto-eslava (p. 123), contrapondo-se às raízes da brasilidade, tão visíveis em Clara e em sua mãe. Por vias simbólicas, é uma depreciação do povo brasileiro, o que vez por outra ocorre ao longo do romance.

O vilão, Cassi Jones, não merece reparos, por ser o mais bem construído de todos os personagens centrais, ao meu juízo. Estão bem representadas sua ignomínia e insensibilidade para com o outro, sua aversão ao trabalho assalariado e cheio de horários a cumprir, visto como um ultraje por ele e, sobretudo, por sua mãezinha, criatura grandemente responsável pela pusilanimidade de Cassi por ter “presunções fidalgas” (p. 24) que a fazem acobertar os crimes do filho.

Falando em representação, é importante ressaltar a interferência do europeu colonizador na formação do povo brasileiro: Cassi é mostrado com pele branca, olhos claros e nariz afilado (ou seja, a estereotipia do fenótipo europeu), e sua mãe vive a glória de um fantasma: lá atrás, na linha dos antepassados, o avô dele teria sido um inglês que viveu no Brasil e “que prestou muitos serviços ao país” (p. 33). Considerando que Cassi Jones tira a virgindade e os sonhos de Clara, há uma analogia entre ele (Europa) e o Brasil (Clara). Mas há também outra analogia, avaliando o nome do personagem: ele é a destrutividade do imperialismo externo sobre o Brasil e da apropriação cultural, na medida em que, com feições de raça ariana, fantasia-se de violeiro romântico, como se ele de fato sentisse algum prazer em cantar modinhas. A máscara é isca para devorar suas presas, no caso a negra Clara, ou seja, o Brasil nativo.    

Então, para completar a analogia, onde os espelhinhos da história? É a conversa fiada dele, modinheiro manhoso; é seu vestuário, que mascara o fato de morar no subúrbio, emprestando-lhe uma dignidade que absolutamente ele não tem; é sua música mal executada, todavia performática, com sutis alusões sensuais.

A grande ferramenta do predador Cassi Jones, que vive a jogar na vala reputações femininas, é a modinha e seu violão monocórdio. Assim, a torpeza com fumaças heráldicas se utiliza da cultura popular para satisfazer-se e, com isso, angariar em seu meio social prestígio e repugnâncias entre deslumbradas e incautos. Ele representa negativamente a heterogeneidade social brasileira; ele é o pobre que, em função de ser branco, se considera superior ao seu vizinho pardo ou negro.

Dentre os personagens secundários, e mais uma vez voltando ao romance que é a grande obra de Lima Barreto, há um que a mim me sugere ser uma miscigenação de Ricardo Coração dos Outros, pela veia artística, com Policarpo Quaresma, por seu idealismo. Esse personagem, contudo, não é nacionalista, e sim voltado à poesia. Trata-se de Leonardo Flores, por vezes tonitruante e sempre fora da concretude do mundo. Seja, por exemplo, seu discurso diante de Menezes, um falido do ponto de vista econômico e moral que serve de fantoche nas mãos de Cassi, e por meio de quem este consegue seu intento junto à Clara: “Que beleza! Que beleza! Quero respirar, cheirar, observar todo o perfume desse divino crepúsculo… não fora a natureza, os céus, os  pássaros, as águas múrmuras, como poderíamos viver?” (p. 116).

E continua:

“A vida é tão banal, tão chata… Nós somos também natureza; mas do que nos vale isto? Há os burgueses e os regulamentos que nos abafam…” (p. 117).

Por ser um personagem secundário, o espaço que Barreto concedeu a Leonardo Flores parece adequado. Caso tomasse a decisão de ampliar o número de páginas ocupadas por ele e o espaço subjetivo de Flores, talvez ele roubasse a cena de outros personagens. De qualquer modo, sem dúvida, ele caberia inteiro noutra obra, protagonista, se o autor tivesse tido mais tempo de vida, pois Flores é ao mesmo tempo o ridículo existente no estereótipo o poeta romântico — ou parnasiano — e a valoração do poeta popular.

No primeiro sentido, Lima Barreto não utiliza apenas esse personagem: a certa altura ele brinca com Casimiro de Abreu, poeta da segunda geração do Romantismo, chamando-o de “gaturamo fluminense” (p. 36), em contraposição a “sabiá de São João da Barra”, epíteto do escritor.

Enquanto desenvolve os caminhos que levam Clara dos Anjos à desgraça por meio das urdiduras de Cassi Jones, o tom empregado por Lima Barreto às vezes é o cronístico, nas ocasiões em que o narrador se ocupa do Rio de Janeiro e das relações sociais, como neste extrato: “Há casas, casinhas, casebres, barracões, choças, por toda a parte onde se possa fincar quatro estacas de pau e uni-las por paredes duvidosas. Todo o material para essas construções serve: são latas de fósforos distendidas, telhas velhas, folhas de zinco, e, para as nervuras das paredes de taipa, o bambu, que não é barato” (p. 71).

O Rio de Janeiro de Clara dos Anjos ainda é a cidade sendo construída, encaminhando-se à grandiosidade de megalópole, mais ainda com vários pontos bucólicos. Aos pobres, o subúrbio; às classes rica e remediada, o centro da cidade, onde, não por acaso, Cassi não gosta de frequentar, pois é território onde ele não reina, é só mais um. A cidade faz com que ele se veja como um suburbano bem arrumado, o ignorantão que de fato é. Por esse motivo, Cassi nutre pela cidade um enorme despeito. Claro: se na periferia ele é a ave de rapina diante de presas relativamente fáceis, na cidade a situação se altera a ponto de sentir-se desguarnecido.

A sequência final é o embate entre, de um lado, Clara, Engrácia e Margarida (e é importante observar: apenas mulheres no “time”); do outro, Dona Salustiana, mãe de Cassi, que na ocasião já fugira da cidade. Os outros elementos da família do cafajeste, seu pai e suas duas irmãs, não defendem explicitamente o crime, mas não se esforçam em reparar o erro. Por exemplo, Azevedo, o envergonhado progenitor, diante de uma Clara de joelhos e em desespero, diz “Minha filha, eu não te posso fazer nada”, “Cria teu filho e me procura se…”. E é involuntariamente cínico quando diz “Minha filha, tem dó de mim, deste pobre velho, deste amargurado pai […]” (p. 123).

Finda a leitura, resta, além da tristeza de ler uma situação bastante notória do cotidiano brasileiro, a percepção do grande estrago que pode causar o pensamento estereotipado, sem profundidade, que acredita em aparências e em ideias pré-concebidas acerca do que seja mulher, homem e amor. E nesse sentido, a presença das modinhas, comuns na família de Clara, piora a situação, segundo o narrador. São canções que tratam de um amor “[…] que tudo pode, para ele não há obstáculos de raça, de fortuna, de condição […]” (p. 53) e, por via de consequência, reforça o imaginário útil às camadas socialmente dominantes. Mais uma vez, a narrativa menoscaba o povo brasileiro e sua cultura.

Nesse sentido, a última frase do romance, dita por Clara, pode ganhar uma dimensão maior do que apenas referência direta à condição da mulher negra e pobre: “Nós não somos nada nesta vida”. Nós, brasileiros?

Referência

BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. São Paulo: Ática, 1988

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