DE FEIRAS E TEATROS LATINO-AMERICANOS – Paula Giannini

Erêndira estava banhando a avó quando começou o vento de sua

desgraça. A enorme mansão de argamassa lunar,

perdida na solidão do deserto, estremeceu até os fundamentos com a primeira investida.

Mas Erêndira e a avó estavam tão acostumadas aos riscos daquela

natureza desatinada, e mal notaram a intensidade do vento no

banheiro, adornado de pavões-reais repetidos e mosaicos pueris de

termas romanas.”

Este é primeiro parágrafo do conto, no lugar onde os cabritos se suicidavam

de desolação quando soprava o vento da desgraça”.

(Gabriel García Márquez)

Há alguns anos estive em Buenos Aires. Destino imperdível, é impossível não lembrar dos Portenhos e suas mesalunas, alfajores, tangos e livrarias, sem aquele gosto de quero mais. Muito mais. Naquela ocasião, algo no entanto, foi para mim uma espécie de divisor de águas, um daqueles eventos únicos, reveladores e transformadores, que fazem com que a vida da gente, a partir daquele instante, seja vista através de um filtro diferente.

O teatro.

Bem, se pareço exagerar utilizando-me do termo “vida”, é porque, sim, teatro é vida.

Fomos ao teatro, eu e o Amauri Ernani. Não sabemos viajar, seja a trabalho, seja a lazer, sem irmos a teatros e supermercados. O primeiro, por gosto de ambos; o segundo, gosto que adquiri com ele, me faz lembrar meu avô paterno, que dizia ser a feira de uma cidade o verdadeiro espelho de seus cidadãos, com seus cheiros e sabores.

Mas, deixando as feiras de lado, o sabor que me foi revelado naquele dia foi algo que parece vir das veias, algo que está no sangue, algo que pulsa.

A latinidade.

Latinidade intrínseca em um povo que, sim é latino, porém mais que isso, que se admite latino, e que veste suas cores em sua arte, sem medo de ser feliz (ou brega). Sem medo de se olhar no espelho. Em cena, não em um, mas em vários espetáculos a que assistimos, entre eles Medianeiras — que anos depois tornou-se filme —, essa pimenta povoava as cenas de modo orgânico e natural, dando à arte uma identidade que custamos a encontrar no Brasil.

O Brasil, que por obras do destino, ou dos planos de interesses da época da colonização, fala o português, e não o espanhol, figura na América do Sul, a meu ver, como uma espécie de ilha. A barreira da língua nos afasta da latinidade de um continente do qual fazemos parte, espelho distorcido onde apenas nós não nos enxergamos como somos: América Latina.

Outros destinos.

Em outra viagem, correndo por outras feiras e teatros, desta vez em território nacional — Belém do Pará — deparei-me novamente com esse estranhamento identitário. A Região Norte do Brasil tem esse sangue indígena (que aos poucos vai-se infelizmente dizimando), mesclado a latinidades que atravessam as fronteiras, ali, de algum modo menos marcadas. E quem já esteve em uma roda de Carimbó já sentiu isso de perto. Que aqui fique claro que nesta coluna falamos de arte, de teatro, de dramaturgia.

Erêndira.

Esta semana, em São Paulo, assistimos à A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada, no Centro Cultural Fiesp, texto adaptado por Augusto Boal, a partir do conto homônimo de Gabriel García Márquez.

Para quem não conhece o conto, a história traz a trama de Erêndira, explorada por sua avó, sofrendo todo o tipo de abuso a que uma mulher pode ser submetida, sobretudo o sexual. Seria uma história de libertação feminina, não fosse por um detalhe: observando a trama através da tal latinidade, e de todo o malabarismo fabular que a história traz, com suas críticas implícitas no realismo fantástico e até no risível, entende-se que a Erêdira de Gabo é, na verdade, uma mulher metafórica, que também é submetida aos abusos (à exaustão) desde tempos imemoriais.

A América Latina.

É aí que se encontra a maravilha (aqui não consigo deixar de usar o superlativo) da obra de Gabo. Erêndira-América, usurpada por sua Avó-Colonizadora de toda a sua dignidade, ainda assim é pacata, subserviente, grata e até almeja ser (ou ter) o que a avó é (o que a avó tem). Assim, nesta fábula em forma de conto, o grande colonizador, se farta do colonizado à exaustão, levando-lhe tudo, da infância aos “tesouros”.

Interessante notar que Erêndira tem sua libertação. Ela foge só e segue seu destino, sabe-se Deus qual, agora dona do próprio nariz , sabe-se Deus como.

No Teatro

No palco a tragicomédia é primorosa (outro superlativo merecidíssimo) e não há como saber o que há de melhor neste espetáculo memorável: Chico Carvalho no impagável papel de avó desalmada; Giovana Cordeiro em sua arrebatadora Erêndira; todo o elenco em interpretações dignas de sua excelência; a música de Chico César, que fica ecoando no espectador por dias após o espetáculo; o cenário de Márcio Medina, que em comunhão com a luz de Túlio Pezzoni transporta a plateia para “dentro” (quase literalmente) do sonho da avó; ou, obviamente, a direção de Marco Antonio Rodrigues, que amarra toda a festa.

Festa. Não há outra palavra. Erêndira — a peça — é uma orgíaca festa de libertação.

De volta à ilha.

De volta ao pensamento da ilha, e à necessidade de assumirmos nossa identidade brasileiro-latino-americana, penso no cenário em que vivemos e me pergunto: a quem servirá nossa autofagia? De certo modo, ao tentar encontrar o fio da meada de nossa própria história, nossa necessidade de imitar o verniz do que vem de fora (lembro que falo de arte), nossa passividade diante da usurpação, dos desmandos, e dos abusos que sofremos como povo desde que por aqui chegou nossa própria avó-colonizadora (e aqui, falo de vida), penso que, talvez, assim como todo abusado se confunde com o abusador em certo momento, nossos espelhos distorcidos nos façam crer que não somos Erêndira, mas a Avó. E não somos. Estamos mais para Erêndira, na emblemática cena em que, para não se entregar ao marido pelo terror que lhe empurram, volta para a avó de livre, espontânea e até aliviada vontade.

Indico fortemente o espetáculo!

A incrível e triste história de Cândida Erêndia e sua avó desalmada

Serviço:

“Treze atores compõem a trupe de saltimbancos que vai de peripécia em peripécia contando as mil e uma noites de Erêndira em seu percurso, que vai do deserto habitado pelo ‘vento da sua desgraça’ até os ‘entardeceres de nunca acabar’”.

“A Erêndira que sobe ao palco do Teatro do Sesi-SP é dessas personagens a quem não se presta muita atenção, mas que ocupa as ruas, esquinas e terrenos baldios o tempo todo. Importante salientar que pela letra do escritor, o olhar das pessoas é sempre magnificado e subvertido, vira poesia e anedota – carrega a gente junto”, como explica o diretor do espetáculo, Marco Antonio Rodrigues, que continua: “Gabriel tem esse jeito curioso de escrever poesia e romance – toda a sua imensa obra é uma fantástica reconstrução e ressignificação do amor: pela América Latina, pelo futuro, pela memória e claro pela destinatária, ou destinatário do nosso, do meu, do seu, afeto mais íntimo, mais caloroso”.

Temporada: de 5 de setembro a 8 de dezembro de 2019 (61 sessões).

Sessões extra: 30 de novembro, 1º, 7 e 8 de dezembro.

Horários: quinta a sábado, às 20h; domingo, às 19h.

Local: Teatro do Sesi-SP | Centro Cultural Fiesp (Av. Paulista, 1313 – em frente à estação Trianon-Masp do Metrô).

Classificação indicativa: 14 anos.

Duração: 120 minutos.

Agendamentos escolares e de grupos: ccfagendamentos@sesisp.org.br

Grátis.

Reserva antecipada de ingressos pelo site www.centroculturalfiesp.com.br ou remanescentes diretamente na bilheteria do teatro, distribuídos 15 minutos antes de cada sessão.

Vamos ao Teatro!!!

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