ANTIGAMENTE. QUANDO ÉRAMOS MAIS MODERNOS… Paula Giannini

“Antigamente éramos mais modernos”. A frase mereceu risos do amigo de infância, gargalhada pela estranha constatação de estarmos, hoje, em algum ponto de uma paradoxal viagem no tempo, na qual rumamos para os inexoráveis cabelos brancos e rugas — nosso futuro — enquanto, por outro lado, o resto do mundo parece ter voltado a viver no passado.

Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento.

O futuro chegou.

Será?

Sim. Avançamos no tempo com as tecnologias de vídeo-chamadas imaginadas em 2001 uma odisseia no espaço em forma de calls pelo celular, com os robôs-aspiradores-de-pó dos Jetsons (os nossos, sem o carisma do desenho, claro), ou com os outdoor digitais de Blade runner, muitas vezes proibidos em prol da higiene visual das grandes cidades.

E não. Pois que, se por um lado, assistimos ao incrível fenômeno da era digital, por outro, tristemente, testemunhamos uma espécie de distorção, dicotomia clara e triste da sensibilidade, da inteligência emocional e, o que é pior, de nossa capacidade de entendimento daquela que deveria ser a premissa primeira do homem livre de qualquer tempo: a liberdade de pensamento.

“Primeiro eles proíbem os livros, depois, proíbem os escritores, em seguida os leitores, e…” (Regina Ruth Rincon Caires)

Em nossos dias, vemos policiais recolhendo livros na Bienal. Em outro desses dias, um amigo me conta que todos os livros de Paulo Freire foram retirados da biblioteca da faculdade particular onde estuda… Penso no quanto se perde, quando se priva um estudante do confronto com um determinado ponto de vista. Ora, é preciso ter acesso ao conteúdo para se poder posicionar contra ou a favor de uma opinião qualquer.

Em nossos dias, um estranho movimento de retrocesso (para dizer o mínimo) parece se instalar aos poucos…

Em minha época — quem diz isso mostra a idade que tem — tudo parecia bem mais contemporaneamente livre. Em nossa época — e olha que essa época, também paradoxalmente, estava quase colada aos tempos de regime militar — assistíamos nos palcos a espetáculos como Oh, Calcutá, onde atores completamente nus soavam como naturalmente vestidos; o ousadíssimo e emblemático Macunaíma, de Antunes Filho; Hair, e O bicho homem como é que será?, infanto-juvenil com o bicho-homem pelado, já que os outros bichos, os da floresta, haviam roubado suas roupas e o autor queria mostrar como este mesmo bicho-humano era frágil diante das forças da natureza. Confesso, exagerei, fui eu quem, aos 16, montei esse espetáculo. Um parêntese, porém, deve ser aberto aqui. Na época, ainda havia a figura do temível sensor, que assistia ao ensaio e liberava ou não a peça, e…  Bom… Até o sensor liberou a nudez do bicho-homem para crianças. Procurei aqui meu certificado de liberação, ainda o tenho, mas, não encontrei para ilustrar o artigo.

Penso, logo existo.

Quando se proíbe um conteúdo cultural se está proibindo a reflexão, o pensamento sobre este, o que, por consequência, seria, segundo a máxima de René Descartes, a proibição da própria condição de nossa existência como humanos. Pensar.

A Neve ou Fora de Controle

Contrapondo-se a esse retrocesso, esta semana fui assistir à A neve ou fora de controle, de René Piazentin. Em sua visão retrofuturista, o autor, contemporâneo, encena em 2019 uma peça escrita em 1996 sobre o golpe de 1964, reencontrada em seus guardados em 2015.

Três tempos distintos separam o momento da criação daquele da encenação, ou melhor, do ponto em si, o tema. Dessa forma, assim como na metalinguagem proposta no espetáculo, há, para o espectador, o estranhamento de assistir à história que já passou (o golpe de 64), de um ponto no futuro onde tudo parece de algum modo querer se repetir, só que escrito pelo encenador, em um outro tempo, um passado recente, no qual o artista parece antever o que viria adiante. (Espero que não) (Afinal, A neve ou fora de controle trata-se de ficção) (Ou não?).

A terceira e última peça da edição 2019 da Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do Centro Cultural São Paulo, cuja temporada termina no dia 15 de setembro (mas volta em breve em novas temporadas), fala de um Brasil distópico que, enquanto se prepara para a Copa do Mundo, tem os sinais de celular rastreados e um atentado no Maracanã tira a vida de trezentas pessoas. Em meio a tudo isso, neva incessantemente no Rio de Janeiro e figuras grotescas tramam um golpe de Estado. E é justamente o toque surreal da cena, que nos remete a passagens tão familiares dos dias insanos nos quais vivemos hoje. Mas, espera! A ação não se passa em 1964?

Sim.

E não.

Em Neve vemos a história pregressa como quem olha em um espelho atual em um circo de horrores.

Mas, afinal, não é para isso mesmo que serve a arte? O teatro? Para nos enxergarmos a nós mesmos, a nossa sociedade, em um espelho cheio de dúvidas e questionamentos?

Sim.

Claro que sim.

Penso logo existo.

Penso…

Só para não deixar dúvidas, em tempo de fake news, e retrocessos, e confusões semânticas, e proibições de conteúdos, e entendimentos rasos, é sempre bom lembrar, a frase do filósofo francês René Descartes: Se eu duvido de tudo, o meu pensamento existe e, se ele existe, eu também existo.

Indico Neve, ou fora de controle – de René Piazentin.

Cia dos Imaginários

Para seguir:  https://www.facebook.com/ciaimaginarios/

Vamos ao teatro!  

2 comentários em “ANTIGAMENTE. QUANDO ÉRAMOS MAIS MODERNOS… Paula Giannini

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  1. Boa noite, Paula! Lendo o artigo e pensando sobre como avançamos um passo rumo ao futuro tecnológico, mas retrocedemos dois no que tange ao mais básico, sempre me vem à mente a música O Tempo Não Para. “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades…”. O Brasil, pegando essa linha surreal da peça, quase sempre parece uma caricatura de si mesmo. Vivemos a pornochanchada, as apresentadoras de programas infantis que usavam biquinis, o É o Tchan, a banheira do Gugu, os testes de fidelidade e (também) de paternidade. Sobrevivemos e adoramos, como nação, às maiores baixarias. E hoje, observando as notícias, parece que retrocedemos 100 anos e nos tornamos mais caretas que antes. Realmente, antigamente éramos mais modernos.

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  2. Paula, entendo que o povo brasileiro nunca correspondeu ao seu estereótipo. Este era uma maquiagem de civilidade, que não apenas ocultava, como também impedia as manifestações mais abjetas da barbárie, mormente em relação a uma classe social bem específica. Ainda assim, aqui e ali víamos nossa ferocidade aflorando. Não que não fôssemos também verdadeiramente suaves, valorosos etc, mas era muito mais uma característica pessoal do que eu-coletivo. Recentemente, uma pequena parcela cansou-se da máscara e assumiu com orgulho a barbárie, com o silêncio cúmplice dos “bons de coração”, arrebentando o tecido social. Daqui por diante, Paula, o conceito de “brasileiro” será outro, e talvez seja positivo para que finalmente nos conheçamos enquanto povo, finalmente reconheçamos o monstro que habita os mares profundos de nossos espelhos. A partir dai, talvez, possamos nos consertar.

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