“RIO-PARIS-RIO”: A BUSCA PELO EQUILÍBRIO ENTRE OPOSTOS – Eduardo Selga

A tessitura do romance Rio-Paris-Rio (Rocco, 2016), escrito por Luciana Hidalgo, mostra, em seu núcleo fundamental, o drama de uma juventude exilada de seu país de origem, um viver sem conseguir integra-se plenamente à outra sociedade que, civilizadamente, suporta os exilados. São, fundamentalmente, três brasileiros na França, mas as nacionalidades envolvidas poderiam ser quaisquer outras, desde que mantida a relação país periférico – país “civilizado”, pois o essencial estaria presente: a ideia de hierarquia entre as sociedades em um mundo que considera parte da Europa como o berço da civilização, os Estados Unidos um exemplo de democracia aos moldes burgueses e o Japão o lugar de toda a tecnologia de ponta. O resto do mundo é só o restolho.

Por serem brasileiros dois dos protagonistas, Maria e Arthur, eles ganham uma dimensão especial ao leitor quando este percebe que o tempo ficcional da trama é a representação de um tempo real, que cronologicamente pertence ao passado, mas que insiste em volver, meia-volta, remodelado com ares trágicos: o tempo da Ditadura Militar tupiniquim.

Nenhum dos dois é filho da periferia brasileira, porquanto os pobres afetados pela Ditadura não tinham condições de exilar-se noutro país: ela é neta de um general que defende com ardor o regime, e esse galho de sua árvore genealógica ajuda a fazer dela uma personagem que oscila politicamente quanto ao grau de indignação. Seu avô, se do ponto de vista ideológico é condenável, aos olhos de Maria a pessoa dele é encantadora, e uma dimensão afeta a outra. Não à toa, numa das muitas conversas com Arthur, à pergunta de o que ela mais detesta no Brasil, ela diz: “Os militares ditadores”, e logo a seguir, diante da pergunta de o que mais lhe faz falta, Maria assevera: “O meu avô, que é um dos militares ditadores” (p. 112).

É interessante perceber que há uma suavização de gerações na família de Maria: seu avô, um militar autoritário; seu pai consegue escapar aos desejos do general, que pretendia o filho também militar, mas ainda se submete ao olhar terrível do pai; Maria, por sua vez, tem o espírito libertário, porém a imagem do avô lhe é constante, como se fora uma âncora a fazer com que nunca ponha os dois pés na orientação ideológica à esquerda.

Arthur, por seu lado, é filho de um jornalista, ligado ao Partido Comunista Brasileiro. Quando do golpe, assim como hoje, a profissão era ocupada por membros da classe média, uma vez que à classe baixa nunca foi permitido desenvolver textos argumentativos ou que demonstrassem uso do intelecto, pois a escolaridade no Brasil sempre foi uma peneira social a encaminhar as pessoas aos seus “devidos lugares”. A palavra escrita era — e em larga medida ainda é — propriedade exclusiva de camadas sociais bem definidas.

Como o pai, também ele trabalha com a palavra, porém artisticamente. Esta não é, para o personagem, ferramenta de transformação social, como entendiam os escritores filiados ao socialismo utópico (não no sentido quimérico do adjetivo): é a expressão do eu interior ocupado com subjetividades. O personagem chega mesmo a tratar com zombaria as implicações políticas da vida, como no trecho em que ele e Maria conversam sobre a corrupção da identidade por estarem em terra alheia.

“— Sua corrompida! — brinca Arhur”.

“— E você não?”

“— Não, eu resisto! — ele diz, meio sério, meio risonho” (p. 106/107).

Uma passagem ilustrativa da inércia do personagem em tempos tão agitados — ele que no Brasil fora militar — é seu comportamento diante de um grande protesto de estudantes da Sorbonne, do qual Maria participa não por vontade própria, e sim por ter sido levada pela corrente humana (aliás, Maria se incomoda com eu-coletivo, por enxergar nisso um traço anticivilizacional): ele se mantém à distância, acompanhando a enxurrada e as palavras de ordem, porque sua identificação não é com a causa dos estudantes: tudo o que pretende é não perder Maria de vista. Aliás, durante todo o romance, sua intenção é essa. É como se ela fosse seu porto seguro, necessário a quem está sempre em trânsito, externa e internamente. Sobre o comportamento dele na agitação política, diz a “voz” narradora, muitas vezes simpática à Maria: “Arthur não passa de um figurante solitário nesse épico. […] caminha à distância, sem pegar um só paralelepípedo numa luta que não é sua, sem um grito de guerra” (p. 83).

Entre eles a relação amorosa não segue o caminho fácil dos clichês românticos, afinal eram tempos em que as estruturas da sociedade estavam postas em xeque, incluindo as relações interpessoais. Os hippies dos anos 60 e 70 propunham o amor livre, e a contracultura estava em pauta. É nesse ambiente de época que a atração emocional e física entre Maria e Arthur se dá.

Entretanto, embora jovens daquele tempo, eles não são protótipos da rebeldia, de modo que a percepção do corpo do outro enquanto propriedade, característica de um arranjo social no qual os objetos valem muito mais que as pessoas — e persiste hoje com mais vigor do que nunca —, se mantém firme em Arthur, e um pouco menos em Maria. Nada assustador, afinal a proposta antimachista e antipatriarcal cresceu no período libertário abordado pelo romance, mas não se fez dominante.

Tenho dúvidas se Arthur nutre por Maria amor de fato ou se ela é para ele, além do prazer da carne — que é mútuo —, uma segurança espiritual, uma necessária oposição à sua falta de centro. Apesar de artista, o protagonista ainda habita uma magnitude demasiado carnal da relação amorosa (“É amor e é disputa. Enquanto ama Maria, fode a neta do general. É isso, o autoritarismo regendo afetos de forma sutil e criminosa” — p. 153), e se comporta diante dela egoisticamente, pois nem sempre de fato dá importância ao que Maria está dizendo ou sentindo. Por exemplo, ao retornar de sua temporada em Amsterdã, ao não encontrá-la em casa, deixa o seguinte bilhete: “Por onde anda? Passei por aqui e você batendo perna por aí. Volto logo. Não desista de mim” (p. 151). É possível, no contexto na trama, até outorgar à passagem algum senso de humor do personagem, porém não é uma interpretação unívoca. Tanto que, diante do recado, “Maria não sabe se ri ou chora” (p. 151).   

O amor, bem como o ódio, é sentimento que consegue transformar radicalmente a pessoa que o traz consigo. É um clichê literário, mas também é um fato da vida, embora, às vezes, ela não seja nada literária. Digo isso porque em Rio-Paris-Rio, a relação amorosa entre os protagonistas faz com que o comportamento de Maria, mulher pragmática, raciocínio acadêmico (tese, antítese e síntese), oscile e aos poucos se modifique (“A aluna anda em crise com a filosofia, a faculdade. E em meio à angústia que cresce, continua a ler, ler, ler, discute, ouve o que os professores têm a dizer: eles se repetem. Ela persevera” — p. 76). Não é uma mudança da água para o vinho o que se processa na protagonista ao longo da trama (a rigidez do avô-general parece-lhe uma sombra constante), mas sem dúvida, é alguma mudança.

O romance se inicia com uma cena inusitada, qual seja, Maria traçando em seu pequeno quarto de estudante em Paris um “x”, sobre o qual repousa o corpo e onde equilibra suas idiossincrasias. Essa marca é o xis da questão, pois representa a equidistância entre extremos, entre a paixão e a racionalidade, um dos pilares do romance que se mostram no subtexto. À medida que o romance avança, esse ponto de equilíbrio interno de Maria se modifica ligeiramente, de modo que ela adquire de Arthur, usando uma palavra da autora, a impermanência, em certa medida.

E qual seria essa medida? No capítulo 11 há uma cena que talvez ajude a entender. A protagonista, numa praia do Mediterrâneo, boia nas águas, e ao fazê-lo imagina seu corpo viajando (ou sonha brevemente) pelo mar até atingir Copacabana. É a vontade de retornar ao seu país. Quando acorda está no mesmo mar (cujo nome significa “situado entre terras”, reforçando a ideia de equilíbrio e de limite), na mesma França, porém distante da praia. Ou seja, enquanto boiava ela sai de um “x”, levada ligeiramente pela corrente, mas não é uma movimentação radical para quem observasse de longe, tanto que os companheiros com os quais Maria vai à praia já tinham ido embora, deixando-a em seu prazer de boiar em segurança; de perto, considerando sua tendência de estar sempre em seu “x” de conforto, é uma grande modificação, que a assusta. O próprio ato de, sob efeito ou não da consciência, permitir que as ondas a conduzissem, ainda que levemente, é uma audácia para a personalidade de uma personagem que no início ela se deixava levar, no máximo, pelas ondas sonoras do vinil de Caetano Veloso. Na segurança cartesiana de seu quarto, é óbvio.

O título do livro, Rio-Paris-Rio, está diretamente relacionado a esse “x”. “Paris” é o equilíbrio entre dois opostos, que são os mesmos dos pontos de vista gramatical e espacial, mas que ao mesmo tempo são diferentes, pois o Rio de quando os protagonistas saem do Brasil não é o mesmo do Rio de quando retornam. O equilíbrio das percepções desses dois Rios de Janeiro (na verdade, metonimicamente, dois Brasis) se encontra fora deles, exatamente numa metrópole considerada um exemplo de civilidade.

Parênteses: não creio em coincidências, muito menos quando se trata da ponte, às vezes invisível, que existe entre ficção e realidade. Vejam que coisa: hoje, a França cobra do Brasil uma atitude mais civilizada em relação ao meio ambiente.                 

Sendo um romance que aborda aspectos francamente ideológicos, creio que Arthur e Maria representem, na trama, a esquerda conciliatória, a razoabilidade que o exercício da palavra intelectualizada pede (estamos falando de uma estudante de filosofia e um artista da palavra). Mas há outro casal, organizado tardiamente, que se contrapõe ao primeiro, na medida em que simboliza a esquerda radical, por demais discursiva e, não raro, pouco prática e muito espetaculosa: refiro-me ao brasileiro Marechal e à francesa Martine.

Ele é um jovem militar cuja carreira foi interrompida pelo golpe de 64, e seu persistente discurso em favor da luta armada contra o regime dos generais, junto ao seu “exército” de meia dúzia de estudantes radicais, parece uma vingança particular por ter sido subitamente interrompido nos degraus que talvez o levasse a patentes mais elevadas, para além de capitão. E quando o leitor descobre que esse foi o maior posto de Marechal, o personagem soa ridículo.

Ao pregar para os seus convertidos, fica nítida a vocação ditatorial do personagem. Palavras de ordem na boca e coladas na parede, sempre as mesmas, numa repetição de quem precisa convencer-se a si próprio, ele grita contra o marechal Costa e Silva e meio a uma passeata de estudantes franceses em protesto contra o general De Gaulle, afinal é da realidade do país deles que tratam, não do “país do futuro”. Marechal faz parte da massa revoltada porque sente necessidade de “[…] encaixar sua doidice numa doidice maior, coletiva” (p. 82). O velho bordão que sustenta ser internacional a luta dos oprimidos não consegue esconder uma postura alienada à esquerda. Ele não é o Deodoro da Fonseca, mas precisa desesperadamente proclamar uma república. Nem que seja em seu quarto de estudante.

Martine é o sujeito integrado à sociedade do espetáculo, é a fragmentação da pós-modernidade. Mesmo situada em meados dos anos 60, a personagem parece um desenho de um segmento da atual juventude brasileira, a rir de tudo e de nada, muitas vezes fazendo do humor típico da geração um fator de alheamento quanto a fatos políticos essenciais.

Martine é um mosaico, ao mesmo tempo colorido e sem muita coerência, o que esconde um universo interior tumultuado e mal resolvido. A fragmentação está nos gestos, no vestuário (“[…] vestido estampado de cores berrantes: tem laranja, tem vermelho, tem verde, tem bolinha, tem quadradinho, tem florzinha” — p. 71), e no discurso político que, assim como Marechal, é composto de ideias clichês ditas a torto e a direito, meio automaticamente, como se ela fosse programada.

Aparentemente, Martine é o oposto radicalizado da razão, por ser muito instintiva, a ponto de desorganizar seu circunspecto professor, cuja dureza não passa de fragilidade. Entretanto, esse comportamento extrovertido, essa “loucura”, é cálculo, é fuga e sofrimento.

É curioso como no romance o peso do elemento ancestral é importante na definição dos personagens, como é o caso de Maria, Arthur e Marechal. Não é diferente no caso de Martine. Sua mãe, de quem se envergonha e por quem sente sensações ambivalentes, acumula “[…] móveis, livros, revistas, papeis, mapas, globos, luminárias, bibelôs, bonecos de cera, vasos, flores secas, plantas mortas” (p. 69), e toda a vez que suas estátuas se quebram é uma delícia, pois sente prazer em colar cada minúsculo caco, ainda que nesse processo corte os dedos. Portanto, a fragmentação de Martine, que se relaciona com a pós-modernidade, tem raízes. A pós-modernidade tem mãe.

O desfecho do romance, com o retorno do casal protagonista ao Brasil “[…] após quinze voltas da Terra em torno do Sol […]” (p. 154), em setembro de 1979, é bem original: são quatro páginas escritas em apenas um parágrafo, sem ponto a separar frases e orações, apenas vírgulas, dando a sensação de desabafo, aquele falar meio açodado, comum ao reencontramos alguém muito querido ou retornarmos ao nosso lar. É uma volta que repete velozmente algumas passagens do romance, como fosse um vídeo tape em alta velocidade. Mas não é um passado morto, ele constituirá o futuro, após o retorno.

Como se eu fosse um ilustrador de textos, quero dizer o seguinte: tenho uma neta de oito anos que, assim como minha gata pretamente linda, adora visitar a estante de livros. Pois diante da capa de Rio-Paris-Rio e do interesse com que eu lia o romance, me perguntou: “que história é essa, vô?”. “Quando você tiver idade suficiente, é uma história que você não pode deixar de ler” — respondi. E pensei comigo mesmo, parafraseando a última linha do livro: Nossa! Se ela realmente ler, vai ser muito, muito bom. 

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