O PINGUIM NO FUNERAL DE AVES DE SHAKESPEARE – Fil Felix

O amor é algo bastante abstrato, para dizer o mínimo. Enquanto muitos o consideram a salvação, um sentimento sublime e verdadeiro, capaz de operar milagres, outros o acham superestimado e, em sua pior forma, a paixão, consegue cegar e justificar as maiores atrocidades. Apesar de complexo e de dividir opiniões, é inegável que o amor (em suas mais variadas formas) foi e continua sendo uma das principais inspirações para escritores, pintores, compositores e todo tipo de artista. Shakespeare foi um desses artistas, um dos maiores dramaturgos do final do século XVI, que destinou parte de suas produções ao amor e à paixão. Entre elas podemos citar um poema sem título, publicado originalmente em 1601, que mais tarde ficou conhecido por The phoenix and the turtle (A fênix e a pomba, em tradução livre, sendo o “turtle” uma referência a turtle dove, pássaro da família das pombas e rolinhas). Um poema sobre um funeral de aves e a morte do ideal de amor e que, como o próprio amor, possui inúmeras interpretações.

Obscuro e pouco conhecido, geralmente trancafiado nos redutos literários, o poema chega 400 anos depois ao público de hoje através de outro meio: o dos quadrinhos.

Na história Pássaro tirânico (The tyrant wing) publicada nos EUA na revista do Batman (edições #58-60) escrita por Tom King e desenhada por Mikel Janin, o vilão Pinguim lamenta a morte de uma misteriosa figura feminina, que o leitor deduz ter sido sua amante. Isso o leva a citar o poema de Shakespeare e, ao ser aprisionado pelo Batman e deixado à mercê do mordomo Alfred, ele começa a divagar sobre o que a morte do amor pode representar. É uma cena emblemática da história, pois concede maior humanidade a um dos mais clássicos e antigos vilões do Morcego.

Oswald Cobblepot, o Pinguim, é um poderoso mafioso e se distingue de outros vilões do Batman por ser bastante são, diferente dos maníacos, loucos e insanos que dominam Gotham. Apaixonado por aves, sempre de smoking e carregando guarda-chuvas que funcionam como armas, o personagem foi criado em 1941 pelo escritor Bill Finger e pelo artista Bob Kane. Claro que muita coisa mudou em seu contexto e desenvolvimento nesses quase 80 anos, mas a sanidade do Pinguim sempre foi uma constante. Pelo menos até agora, já que o grande trunfo dessa história, é a ideia de que somente uma coisa leva à loucura: o amor.

No poema de Shakespeare, diversas aves chegam para o funeral da fênix e a pomba, uma alegoria sobre o amor, como nesta estrofe:

Eles se amavam ternamente,
Aspiravam à mesma essência;
Sendo dois, eram um: 
No amor, eram um só.

O casal de aves representa a união num relacionamento, quando um complementa o outro, mas também guarda o segredo que leva o fim às grandes paixões ou a essência que mantém por eras um grande amor, incompreensível ao olhar dos outros. Com elas, morre também toda a beleza e a graça, além da pureza; pois elas casaram em castidade.

A morte acolhe a fênix em seu ninho;
E o peito fiel da pomba
Descansa por todo o sempre 

O poema traz toda a simbologia das aves para além de animais que representam a liberdade. No início temos a expulsão do corvo, ave agourenta, para dar lugar ao cisne, que traz paz. A própria fênix é uma figura mítica, o pássaro de fogo que renascia das próprias cinzas. Por sua vez, a pomba, que é um pássaro comum, é consumida por essa mesma chama. O real e o irreal, o ordinário e o extraordinário, os contrastes que se complementam, as diferenças que se atraem e terminam em tragédia — outro aspecto característico na obra de Shakespeare.

Aqui começa nossa antífona: 
Morreram o amor e a constância:
A Fênix e a Pomba partiram
Numa única flama daqui.

Mas, apesar de a fênix simbolizar o renascimento, a visão do Pinguim sobre o poema, principalmente após perder sua amada, é outra. Para ele, é um “poema horrível”. E como é praticamente citado integralmente no quadrinho, cabe ao leitor tirar suas próprias interpretações. Para o vilão, é um poema confuso. Ao que Alfred responde: “a vida também é confusa e ainda assim vivemos”. É o funeral mórbido da morte do amor, um funeral de aves caricatas. E o interessante, ao passo que Shakespeare utiliza da simbologia desses animais no texto, o próprio vilão Oswald Cobblepot adotar o nome de uma ave: o pinguim. E assim como muitos esquecem que o pinguim é uma ave, eles também não estão no funeral. O Pinguim representa, nessa grande metáfora, aqueles que foram esquecidos ou ignorados no amor, os que não se encaixam na forma, que sequer são expulsos, como o corvo.

O Pinguim chega a dizer, numa das frases mais impactantes da história, que “sem amor não há esperança, não há redenção. Sem amor não há sociedade. Quando o amor morre, a razão morre, nós morremos”. E hoje, 400 anos depois de publicada por Shakespeare, é interessante como o poema nos chega. Trágico por nos lembrar do mundo real de caos e ganância em que vivemos, cada vez com menos beleza e graciosidade, sendo literalmente queimado e poluído. Mas ao mesmo tempo cômico, quando é preciso um vilão dos gibis, a nona arte, nos lembrar e reforçar a importância do que mais nos falta. Pois como a fênix, podemos queimar e morrer, mas há esperança de renascermos mais forte para lutar.

A esta urna, devemos sussurrar
Verdadeira ou justa;
Uma oração a estes pássaros feridos.

– Leia o poema A fênix e a pomba na íntegra, em inglês e traduzida por Thereza Christina Motta em seu próprio blog. E leia a resenha que fiz de Pássaro tirânico no meu blog.

Anúncios

Um comentário em “O PINGUIM NO FUNERAL DE AVES DE SHAKESPEARE – Fil Felix

Adicione o seu

  1. Fil, a academia torce o nariz para os quadrinhos, fundamentalmente, porque é um gênero típico da cultura pop, que é vista como arte desintelectualizada, muito mais afeita à diversão que ao aprofundamento filosófico ou psicológico da vida real por intermédio da narrativa. Ao atuar dessa maneira, os quadrinhos, afirmam os que defendem tal posição, contribuem para alienação do sujeito.

    Tudo isso são verdades parciais. Os quadrinhos de super-heróis, sedutores porque nos tiram desse mundo terrível no qual vivemos, têm grande dose de ideologia, ao mostrar valores que se ligam a uma sociedade desumanamente competitiva. Os super-heróis são o altar do individualismo, na medida em que cada um deles tem poderes bem distintos um dos outros.

    No entanto, não se pode dizer isso dos quadrinhos de um modo geral, a exemplo da Mafalda, do Calvin, do Armandinho e muitos outros, a despeito de pertencerem a um sub-gênero dentro dos quadrinhos — a tirinha. Nos quadrinhos ipsis litteris, a falecida Turma do Pererê, do Ziraldo, cumpriu um papel relevante de valorização da cultura brasileira. Muito mais, nesse sentido, do que a Turma da Mônica.

    Entretanto, a pós-modernidade é um período de misturas de todo o tipo, inclusive de gêneros textuais e artísticos. Ao inserir o poema de Shakespeare numa trama do Batman, fica a pergunta: isso eleva o patamar do personagem dos quadrinhos, e portanto responde aos acadêmicos, ou rebaixa o poeta inglês? De minha parte, acredito não haver mais lugares sagrados para a arte, e as interações intertextuais fazem parte da produção de sentido. Ainda assim, acho que o uso do poema do autor consagrado da literatura mundial, portanto de fora do universo tipicamente quadrinesco, é um modo de dizer que o quadrinho tem valor.

    Os quadrinhos dão muito pano para manga, escreva mais a respeito.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

Crie um novo site no WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: