O DEFUNTO ERA MAIOR – Lezir Ishigawa

Por que vamos ao cinema ou assistimos a obras de ficção na TV, aberta ou fechada? Para nos entretermos, evidentemente, muitos dirão. No entanto, há uma fatia considerável de público que não compra ingressos ou sintoniza este ou aquele canal exclusivamente por deleitar-se, por exemplo, com os personagens da Marvel, se não houver na trama algum conteúdo para além das falas engraçadinhas e um tanto bobocas do Homem-Aranha ou do modelo de beleza do macho ariano representado por Thor. É preciso haver, para esse público, certa expressão filosófica, psicológica ou ideológica, sem o que a obra audiovisual não cumpre sua função, que vai além de divertir.

Contudo, de que modo é possível ir avançar nesse aspecto, fazer com que a fatia aumente de tamanho, se o cinema e a TV são instrumentos da indústria cultural de massa, se isso faz com que, por sua natureza mesma, os produtos veiculados em tais meios sejam massificantes e, portanto, com grande dose de conceitos inseridos na trama e/ou nos personagens que favoreçam uma percepção massificada de mundo?

Existem, é claro, os circuitos não comerciais de cinema, além das TV’s educativas, de baixíssimas audiências, em que se veiculam as produções que trazem em si um “papo cabeça”. Todavia, esses veículos não alcançam ampla repercussão junto à grande massa da sociedade, que prefere o lugar-comum e o conforto espiritual oferecido pelos clichês dos filmes em cartaz nas redes do tipo Cinemark e das telenovelas.

Responder à pergunta inicial passa, necessariamente, por aquilo que conforma o espectador: a educação. É ela que sustenta e fortalece um povo e sua cultura, na medida em que a amplia e a reproduz. Mas há um grande empecilho: a sociedade brasileira não tem uma ideia precisa de como seja o seu rosto (ou os seus rostos), e me parece que, ao menos nesse período histórico, não pretende ter.

Isso acontece muito por causa da baixa qualidade educacional. Sem nenhuma intenção de enxergar o próprio rosto, não nos vemos no espelho e, portanto, não valorizamos os espelhos que as produções culturais construídas de maneira menos atrelada às estéticas estrangeiras nos colocam à frente. Nesse sentido, somos, povo brasileiro, uma espécie de Narciso invertido. Quem sabe, até pervertido.

Com educação pública que valorize as múltiplas faces da cultura brasileira, em todas as suas variantes, a identidade do nosso povo seria percebida pelo público e, sobretudo, estimada.

Nesse sentido, não sentiríamos tanto prazer em consumir personagens super-heroicos, de excelência sobre-humana e que, por isso mesmo, estão diretamente vinculados a determinado país, à valorização da etnia branca (quantos super-heróis negros ou asiáticos existem?) e do uso da alta tecnologia (outro valor muito difundido pelo capitalismo), a exemplo do Batman e do Homem de Ferro.

O heroísmo brasileiro passa pelo sertão, atravessa a chamuscada Amazônia, finca os pés nas periferias das grandes cidades, e não se vincula a uma relação extranatural, ao contrário do que mostrava o personagem MacGyver, de uma série televisiva dos anos 1980. Sua inteligência chegava ao grau do inverossímil e, portanto, do ridículo.

O heroísmo brasileiro significa personagens como Dora, interpretada por Fernanda Montenegro em Central do Brasil, por exemplo. Contudo, como valorizar uma velha pobre que se propõe a escrever cartas para quem é analfabeto, ajudar um menino órfão a localizar seu pai nesse outro Brasil que é o Nordeste; se carregamos uma imagem a nosso respeito que não nos pertence de fato; se criminalizamos a pobreza, menosprezamos o ato de expor ideias por escrito; se determinamos uma escala de valor para os espaços sociais brasileiros?

É bom ressaltar, a defesa que faço da cultura nacional não pode ser confundida com xenofobia, mesmo porque o Brasil é a soma de povos originários (indígenas) com povos estrangeiros (africanos, portugueses e outros). O que ressalto é a necessidade de, primeiramente, nos enxergarmos, nos entendermos, para, erguido esse alicerce, trocarmos figurinhas com outras culturas e outras formas de percepção do mundo, o que não significa nos vestirmos com roupas que não se encaixam em nossos corpos, lembrando o dito popular “o defunto era maior”.

A tempestade pela qual atravessamos, que pode, inclusive, nos fazer naufragar irremediavelmente, exige um reencontro do Brasil com ele mesmo para que, desse modo, exijamos ser refletidos pelas narrativas ficcionais de cinema e de TV. Se e quando isso acontecer, não será mais comum vermos narizinhos tortos e muxoxos quando se fala em cinema brasileiro, imediatamente associando a ele a ideia de “putaria” (sexo realístico, mas não pornografia). Tal comportamento é na verdade a desaprovação, disfarçada de pudores moralistas, pelo fato de a estética da obra não copiar a norte-americana.             

Um comentário em “O DEFUNTO ERA MAIOR – Lezir Ishigawa

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  1. Boa noite, Lezir! Sou fã de carteirinha de super-heróis e sinto a mea culpa em parte do que fala no texto, apesar de que não gosto das adaptações cinematográficas justamente por serem, em sua maioria, superficiais demais em relação aos quadrinhos, que é a fonte. De fato nós, brasileiros, temos a tendência em diminuir nossas produções, principalmente o cinema. Muitos tem a cara de pau de condenar investimentos e apoio ao cinema nacional ao mesmo tempo que aplaude e idolatra alguma superprodução hollywoodiana. É o espírito de vira-lata com a globalização e pasteurização da cultura. E a origem está na educação, como comenta, não apenas para os filmes, mas para leitura e teatro, somos um dos países que menos lê ou frequenta ambientes culturais. A questão do valor do ingresso muitas vezes é utilizado como desculpa e, realmente, há peças e livros de preços exorbitantes, mas de maneira geral há muita acessibilidade. Em São Paulo, então, nem se fala. Os Céus possuem cinema de graça e passam o circuito SPCine, com lançamentos do mainstream e também alternativos. Vou quase toda semana e nunca passa de 30 pessoas na sala. Teatro, a mesma coisa. Há mostras ocorrendo o tempo todo. Eu mesmo trabalho de frente à Biblioteca Mario de Andrade e só recentemente resolvi frequentar e alugar livros, mas são lugares abandonados e que servem atualmente como ponto de encontro cultural. E a bilheteria do cinema só aumenta, cada lançamento é um record diferente, as pessoas não se incomodam em pagar R$30 num ingresso + R$20 de pipoca para ver a sensação do momento, por exemplo. Não que eu não goste de um bom blockbuster, eu adoro haha É ótimo dar uma desligada e maratonar uma série de comédia pastelão ou algo despretensioso, acho que nem tudo precisa ser levado a sério demais, mas fechar os olhos e não ver o mundo que há além do mainstream só reforça a manutenção de um povo sem capacidade de interpretar e refletir.

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