O ANÚNCIO DE EMPREGO – Sandra Godinho

Depois de passar manhã e tarde vendendo versos no Viaduto do Chá, dei meu turno por encerrado. Enrolei a cartolina que servia de anúncio dos meus préstimos e guardei-a na mochila, juntamente com a câmera fotográfica e meu bloco de notas. Ainda me faltava a ideia para o best-seller, mas isso fazia parte da contingência do ato de escrever. Vivemos de ilusão e de desilusão nessa pátria nossa, vivemos de inspiração e também de desafogo cáustico coando o corpo, atravessando a coragem, constrangendo nossa passagem por esse planeta desonrado.

Segui pelo caminho conhecido, atravessando o viaduto dos suicidas com a mochila às costas, engolindo ambulantes, pedintes e passantes que me olhavam sem ver, num pacto silencioso de quem não troca companhia, apenas a solidão dos dias, devorando os olhares erráticos que vez por outra pousavam em mim sem esconder as evidências de quem já está morto. Sim, porque já estão mortos aqueles que querem ser diferentes, mas acabam fazendo tudo sempre igual, já está morto quem não se abre ao outro e vive em casulo próprio, em incompletude. Em tédio vão percorrendo as ruas, sem os olhares reflexivos que é essência transformadora do ser humano, aquela que engendra versos, aquela transcende a materialidade das coisas.

Foi com esse olhar de poeta que me dei conta do burburinho. Não sei como não o havia percebido durante todo o dia, talvez porque eu também estivesse tão imersa nos meus problemas, talvez porque eu também já estivesse recolhida em casulo próprio. À princípio, pensei se tratar de um suicídio real. Já tinha ouvido alguns casos sobre os desesperados da vida que não esperam o tempo atracar ao fim da jornada, conforme o esperado. Abreviam. Abreviavam-se. Minutos depois, julguei se tratar de uma manifestação em frente à sede da prefeitura, em seguida, de um atropelamento, mas o trânsito fluía com a pressa costumeira das grandes cidades. Cogitei um linchamento por algum pequeno furto, mas descobri que era apenas uma multidão que ainda se alvoroçava em busca de uma vaga de emprego, aglomerada embaixo do viaduto. Mãos à espera de outras mãos, numa fagulha ruidosa de esperança que nunca finda para quem não se limita ao campo das retóricas. Mãos que insistem após as palavras dúbias e imprecisas, em estado contemplativo forjado de precisão.

Foi com esse olhar humano que vislumbrei um instantâneo de vida: a prefeitura à frente, sede do poder, o Teatro Municipal ao lado, sede da Arte, e as pessoas que atravessavam alienadas e em silêncio devastador o campo gravitacional de quem já não habita o mundo, apenas sobrevive. Não viam os que pediam uma chance de sobrevida. Ou não queriam ver os sapatos rasgados, as calças remendadas, o mendigo que cheirava a suor e urina. Não identifiquei neles o sentimento de pena, mas de medo. Do pobre coitado. Do sem-teto. Dos olhos que fecham. Do medo que é de todos de estar no lugar dos desafortunados num futuro próximo.

Esse foi meu vislumbre: o poder desvirtuado, a cultura/educação ignorada e o povo alienado eram ingredientes de numa receita que podiam causar a indigestão em um povo. Um povo que é feito de tantos. Um povo que se acostumou a viver de sombra e da orfandade de governantes com fome insaciável apenas para seus próprios interesses, eles também em seus casulos. Para que cobrir de cinzas a história? Por que cobrir com um véu quem já não reage com o que acontece à frente? Por que cobrir a verdade de quem já não tem olhos de ver que o que acontece ao outro nos atinge, mais cedo ou mais tarde, explodindo em violência ou miséria? E que o ideal humano guarda uma relação íntima e intrincada com seus semelhantes e, ao nos alienarmos dela, nos condenamos à impermanência nesse planeta condenado. É o outro que nos define. É nossa relação com o outro que estabelece o que somos, se presentes ou ausentes, se solidários ou indiferentes.

Aproximei-me de um dos anúncios de vaga de emprego, já desiludida desse mundo distópico em que vivemos, e comecei a lê-lo, mas por uma estranha razão, não consegui achar graça, como em outros tempos faria, afinal, o brasileiro está acostumado a tirar sarro de tudo. Foi quando percebi que algo muito errado devia estar acontecendo comigo. Ou com o país.

Precisar-se

Vendedores com experiência em venda, abilidade em internet, baixa ambição salarial e asexo fácil ao trabalho.

Um comentário em “O ANÚNCIO DE EMPREGO – Sandra Godinho

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  1. Boa noite, Sandra! Um retrato desses tempos sombrios, principalmente em relação ao trabalho. Esses dias vi um meme sobre as exigências de algumas vagas, que pedem tanto que sequer o chefe ou o contratante conseguiria se encaixar. Sem contar que pedem tanto e oferecem quase nada. Em outros casos, como o arremate da crônica, chega a ser ridículo alguns anúncios. E, infelizmente, muitos de nós precisamos nos vender à essas empresas a fim de sobreviver. Como comenta no decorrer do texto, as pessoas já não vivem, sobrevivem isoladas em si mesmas.

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