TANTO FAZ VER QUANTO SABER QUE TEM – Lezir Ishigawa

O longa-metragem Bruna Surfistinha, produção brasileira de 2011 dirigida por Marcus Baldini, é a narrativa de uma personagem que precisa ser amada. Ela parece não ter muita consciência disso, mas em algumas passagens do filme, quando já vivendo dos programas sexuais, fica demonstrado que se Bruna (na verdade Raquel) decidiu sair de casa não foi apenas pela necessidade de ficar independente do ponto de vista financeiro, como a certa altura afirma. Ainda que esta razão exista, o motivo inicialmente citado — a carência emocional — é muito forte, e na maioria das vezes se mantém oculto da personagem, mas não do espectador, a depender de sua sensibilidade. A passagem mais explícita, porém um tanto impessoal, é quando ela diz, em off (um recurso muito usado no filme), como que pertencendo ao livro O doce veneno do escorpião: o diário de uma garota de programa, escrito pela Bruna Surfistinha real, ou melhor, Raquel Pacheco, ela diz “[…]  e acabei entendo por quê tanta gente quer ser celebridade. Não é para ser famosa: é para ser amada”.

Logo no início do filme, cujo roteiro baseou-se no citado livro, o sentimento de abandono emocional fica camuflado pelo de vergonha, dando a entender que esta é a maior motivação para a personagem tomar a atitude de largar a família. Explica-se: ao ter as imagens do sexo oral que ela praticou em um colega de sala de aula, contra a vontade e constrangida pela força física masculina, e perceber no dia seguinte que essas imagens caíram em domínio público, ela sai de casa. No entanto, não sai pelo ato em si, mas por saber que seria crucificada, que não teria amparo, como de fato acontece, tempos depois, já na condição de garota de programa: o irmão adotivo a encontra, ameaça bater-lhe com cinto como se tivesse direitos sobre o corpo dela, estapeia seu rosto e joga dinheiro sobre a cama de maneira a humilhá-la.   

Necessidade de ser amada é carência de ser aceita com todas as contradições inerentes a qualquer sujeito. É o caso da protagonista: a certa altura ela diz, mais uma vez em off, “não sei porquê, mas de algum jeito estranho eu achava que estava fazendo aquilo porque amava os meus pais. Nunca foi uma coisa contra eles. No fundo, eu só queria que sentissem alguma coisa por mim. Nem que fosse saudade; nem que fosse vergonha; nem que fosse raiva”. Evidentemente, ela se refere à família que deixou para trás. Entretanto, a obra já a caminho do desfecho, a personagem afirma de si para si, como quem estivesse escrevendo: “eu acho que tenho mais saudade da família que eu queria do que a que eu tinha de verdade”. Ou seja, a protagonista afirma e nega o grande peso da família “de verdade”, criando, para seu ser ficar menos dolorido, a hipótese de ter criado em sua mente outra família, fruto de seus desejos. 

Esse filme não estava em meu horizonte de análises de obras cinematográficas, sobre as quais escreve neste espaço, mas eis que o presidente da república, em sua empáfia inigualável, há algumas semanas disse que não poderia aceitar que a União chancele filmes do tipo Bruna Surfistinha, sugerindo haver nele “imoralidades”. Disse também, no contexto da mesma declaração sobre a obra, que não é aceitável financiar o que chamou de “ativismo”.

Assistindo ao filme pelo impulso da curiosidade, não consegui encontrar o tal ativismo. O máximo é uma sequência protagonizada pela prostituta Janine (Fabiula Nascimento): num salão de beleza, junto às colegas de profissão, faz uma brincadeira com o gemido feminino, imitando como os homens gostam de ouvi-lo, pois têm a ilusão de que estão dando prazer às prostitutas, e desse modo eles se sentem muito machos. O incômodo causado nas “mulheres de bem” que estão no estabelecimento e na proprietária faz com que Janine se rebele, arrastando consigo todas as colegas (não sem antes fazer absoluta questão de pagar). Ao sair ela diz à clientela: “[…] aí, mulherada! Presta atenção! Enquanto vocês ficam aí, ó, reclamando da vida dos outros, a gente tem hora marcada com os machos de vocês!”. Ativismo? Não chega a tanto.

Aliás, Bruna Surfistinha está completamente dentro do jogo conservador, pois acentua o empreendedorismo, o materialismo e os valores da individualidade como ferramenta para atingir os objetivos pessoais. A protagonista interpretada pela Deborah Secco, com vistas a acumular dinheiro, faz um programa sexual atrás de outro, causando ciúmes em Janine e enchendo os bolsos da cafetina (Drica Moraes). Quando se transforma em “cafetina de si mesma” (vulgo empreendedorismo), com a ajuda da também prostituta e amiga Gabi (Cristina Lago), se autoexplora, organizando um famoso blogue. Nesse ponto ela é a empresária que atua de acordo com a cartilha mais selvagem do capitalismo: atropela amizades, como da própria Gabi e de um antigo cliente interpretado por Juliano Cazarré, levando fé no canto da sereia, no dinheiro fácil, representado por Carol Mendes (Guta Ruiz), mulher de classe média, fornecedora de cocaína à Bruna Surfistinha e que lucra em suas costas. Parasita, faz a protagonista entrar em franca decadência. Gabi tenta inutilmente alertá-la, seja por ciúme, inveja ou pura amizade. Não lhe dá atenção. O blogue despenca. Passa a fazer programa nas ruas, nos cinemas pulguentos, a R$ 20,00 a hora. É internada pela exaustão do trabalho, na tentativa de retornar ao padrão financeiro anterior, e também pelo abuso de drogas.

A declaração do atual ocupante da presidência sugere a suposta pornografia do filme como uma “imoralidade”, o que seria o bastante, segundo ele, para condenar a obra, a exemplo do que se fez, diga-se de passagem, com a famosa performance de Wagner Schwartz na estreia do 35º.  Panorama de Arte Brasileira, em que o artista se expôs completamente despido, no tumultuado 2017, ano da fomentação do imaginário brasileiro para a chegada ao poder de quem hoje se notabiliza pelo desconhecimento do que seja o Brasil.

Ao pé da letra, o pornográfico refere-se ao sexo explícito, em que os “pecaminosos” órgãos situados no púbis necessariamente aparecem sem véus. Há uma versão suavizada disso, denominada “erótico”, na qual os atos relativos ao sexo, no cinema, são obliterados por sombras, enquadramentos dos corpos em planos-detalhes que muito mais obscurecem do que mostram, peças íntimas sobre a cama, mãos femininas alisando o dorso masculino, beijos, cortes de imagem nos exatos instantes em que a câmera se encaminha para mostrar um “proibido” que todos conhecem de cor e salteado.

Em Bruna Surfistinha as muitas cenas de sexo não são as do tipo encontradas em sites pornográficos, mas nem por isso há meias-luzes. Tampouco se vê corpos completamente nus da cintura para baixo, embora os movimentos de cabeça e de quadril em planos médios e os gemidos deixem bem claro do que se trata.

São cenas que mostram, a depender dos olhos que veem, que a diferença instaurada entre o pornográfico e o erótico é mais uma das artificialidades propiciadas pela linguagem com a intenção de demarcar terrenos ideológicos, no caso, um “fazer sexual que pode” e outro, que “não pode”; o que parte da suposição de ser necessariamente resultado do amor romântico (o “fazer amor”), como se a ausência do “sentimento elevado” impedisse o carinho durante o ato sexual,  e o que seria fruto da selvageria animalesca (o coito, a cruza).

Ora, como ouvi há muito anos, “tanto faz ver quanto saber que tem”. Ou seja, se estamos tratando de uma moralidade conservadora, com forte apelo religioso, o ato em si é mais importante que a estética em torno dele, usada para representá-lo. Logo, se pornografia ou se erotismo, não deveria fazer nenhuma diferença, pois o corpo, o grande protagonista da questão, sempre é obstruído pela moral religiosa. Entretanto, é da pornografia que o usuário da faixa presidencial reclama. E se ele visse no filme o que chamamos erotismo, haveria reclamação? Haveria, mas talvez por outro motivo qualquer, pois o real intento é justificar a retirada de apoio oficial ao cinema brasileiro. 

O cinema está afeito à estética, não à moral. Caso contrário, teríamos catecismos fílmicos ao invés de obras de arte. Preocupa-se em comunicar o belo, não em ser um manual de bom comportamento. O belo, por sua vez, bem como o seu oposto, é uma construção social, um acordo tácito que ocorre no seio(!!!) da sociedade, mas não por igual. Por isso, e levando-se em consideração a multiplicidade presente nas diversas camadas do tecido social brasileiro, não existe apenas uma manifestação do que seja belo. A beleza é, inevitavelmente, vária. Uma dessas manifestações, que por óbvio não agrada a todos, é a expressão sexual sem penumbras, até certo ponto rompendo com a ideia de obsceno, levando-se em consideração que “ob” é um prefixo de origem latina que sugere a ideia de interrupção e “ceno” refere-se à “cena”. Obsceno é entendido aqui, pois, como cena obstruída.

É o que acontece em Bruna Surfistinha. Não há obscenidade no filme, nesses termos, pois o supostamente licencioso não é obstruído pelos véus do erotismo. O fato de o sexo ser realizado debaixo de luzes claras funciona como uma metáfora de que Bruna, dentro dos limites do humano — que impede a percepção de motivações inconscientes — joga limpo consigo mesma. Um bom exemplo disso, acredito, é a relação sexual com o seu primeiro cliente, interpretado por Cássio Gabus Mendes: apesar de ser para ela uma experiência muito desagradável e dolorida, a câmera em close no rosto de Deborah Seccocapta as feições decididas e raivosas da personagem, e ouve-se sua voz em off  dizer “eu não chorei, eu não pedi para parar, eu não voltei correndo para casa. Naquela hora, a Raquel, a Raquel que eu era, virou passado”.

Uma cena me fez rir dentre as muitas manias dos clientes de Surfistinha: um deles tem uma predileção particular por golden shower, ao qual ele chama carinhosamente de “chazinho”.  

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