LER, DISCERNIR, RESISTIR – Cinthia Kriemler

Há anos, transito de carro por uma determinada rua de Brasília. É secundária a uma avenida e dividida ao meio por um canteiro de grama estreito, entremeado por dois ou três retornos. De um lado, o fluxo de carros vai; do outro, vem. No canteiro que separa as duas mãos, quase sempre se vê pessoas vendendo coisas, pedindo esmola, entregando folhetos. Não são muitos, mas estão sempre lá. Assim que o sinal fecha (farol para os paulistas, não?), idosos, crianças, homens e mulheres se aproximam dos veículos tentando vender sua mercadoria, pedir dinheiro ou deixar panfletos nas mãos dos motoristas.

Nessa rua, especificamente, compro panos de chão para usar na limpeza de casa. Com dois cachorros, não há pano que baste. Antes, era um rapaz que vendia. Mas, de pouco tempo para cá, passou a ser uma mocinha. Das primeiras vezes, assim que parava o carro, ouvia o bordão conhecido: “seis por dez, vai querer?”. Ou então “um é dois. E seis ‘é’ dez”. Mas com a moça isso mudou. Com cara de menor de idade, vestindo calça jeans e collant branco, e com os cabelos presos num rabo de cavalo baixo, ela me abordou de maneira diferente. “Bom dia. Com licença. A senhora gostaria de levar panos de chão hoje?” Mais educada do que tanta gente que conheço — pensei. Ela continuou. “Um custa R$ 2,00. Mas seis saem a R$ 10,00. Vale a pena levar mais se a senhora gasta muito pano”. E assim tem sido. Arrisco dizer que as vendas aumentaram desde que ela assumiu o ponto. Todos a chamam e a todos ela atende com rapidez, educação e um sorriso verdadeiro no rosto.

Hoje, no entanto, a mocinha está distraída. Não percebe o sinal que fechou e continua sentada no caixote. Como estou dois carros para trás do lugar em que ela se encontra, não consigo ver o que a deixa tão desatenta. O homem do carro à minha frente a chama, impaciente, e só então ela nos percebe em nossos carros. E vem apressada. Aproveito para comprar seis panos. Meio minuto depois, assim que o sinal reabre, sigo o fluxo dos carros. No entanto, arrisco pelo retrovisor um olhar para a vendedora de panos. É quando a vejo pegar embaixo do caixote de madeira — que lhe serve ao mesmo tempo de armazenagem e de banco — o objeto da sua distração: um livro. Não penso duas vezes: impulsiva como sempre, dou meia volta no primeiro retorno e volto ao lugar em que a moça se encontra. Estaciono com as rodas quase raspando o meio-fio, aproveitando que a rua esta praticamente sem movimento, e ignoro o sinal, um pouco mais afastado. Com a desculpa de comprar mais seis panos de chão (sim, comprei, e agora estou com um estoque em casa), espicho o olho para tentar ler o nome do livro em cima do banquinho. Não consigo. O jeito é ser cara de pau e perguntar.

— Gosta de ler, não?

— Muito! — ela sorri pela primeira vez.

— Aqui no meio da rua não deve ser muito fácil — continuo.

— Eu já me acostumei. Preciso trabalhar, mas também preciso ler os livros para o PAS. É a última etapa.

Um pouco de desaponto, confesso. Será que ela só está lendo por causa das provas?

— Ler por obrigação é ruim — digo.

Ela me olha entre surpresa e chateada.

— Mas eu adoro ler. Leio de tudo.

Alívio. E vergonha de mim mesma.

— Esse aí qual é? — pergunto esticando o queixo.

Úrsula, da Maria Firmina dos Reis.

— Você sabe que ela foi a primeira mulher a escrever um romance no Brasil? — digo como quem ensina.

— Sei. E era negra e nordestina. — ela me responde, me deixando sem graça.

Sob o caixote, aguardando o término de Úrsula, que deve acontecer antes do fim do dia, A Cartomante, de Machado de Assis é o próximo da fila.

Um pouco mais de conversa e descubro que ela tem 18 anos, mora numa das Regiões Administrativas do Distrito Federal e está na rua vendendo panos de chão no lugar do irmão que foi embora para Goiânia porque conseguiu emprego. O pai sumiu no mundo quando ela era bem pequena. A mãe, além de fazer os panos, vende marmitas e bolos nos ministérios e secretarias de Governo do Distrito Federal. E com isso tem sustentado os quatro filhos. A clientela da mãe é fixa e boa, ela me diz, mas o dinheiro dos panos — que o irmão levava para casa — ia fazer falta. Ela assumiu o posto no lugar dele, enquanto não entra na UnB, seu sonho acadêmico. Como faz para conseguir os livros? Toma por empréstimo de bibliotecas ou da professora de Língua Portuguesa.

Quando nos despedimos, me pego torcendo para que ela consiga entrar na UnB. No meu íntimo, tenho certeza de que conseguirá.

Moro em Brasília há 50 anos. Meio século de uma convivência que já passou por todas as fases, do amor extremo à decepção, desencanto que se deu pela percepção da bolha ilusória de proteção que a cidade representa, e razão pela qual muitos a chamam de Ilha da Fantasia.

Brasília é uma casa perfeita. Desde que a gente não abra as portas e as janelas para enxergar ao redor. Eu cresci aqui. Aqui brinquei, namorei, estudei, trabalhei, tive filha (que por sua vez já segue a mais de meio por esse mesmo caminho). Gosto de Brasília. Como não gostar? Uma cidade bonita, ampla, limpa. Onde (ainda) há segurança. Onde as pessoas têm tempo, essa preciosidade que cada vez mais desaparece nos grandes centros. Uma cidade cujo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) se mantém entre os maiores do país. Não há como questionar as estatísticas. A Capital da República realmente se destaca em qualidade de vida no cenário nacional. Infelizmente, é no não tangível e no não mensurável que a cidade engana. No elitismo que empurra a pobreza e as mazelas para as Regiões Administrativas e o Entorno, e mantém intocado o Plano Piloto — área nobre. Nesses lugares mais distantes, a segurança, a renda e a saúde, se analisadas separadamente, fariam despencar vários índices perfeitos.

No entanto, há um desses indicadores que se mantém bastante sólido e se esparrama por todo o Distrito Federal: Brasília tem um índice de alfabetização de 97,4%. E isso me dá esperança. Saber que esse destaque positivo funciona em contraponto ao triste quadro político que se desenha nas esferas do poder aqui centralizado — poder esse que, sempre é bom lembrar, é exercido por representantes enviados pelos 26 estados, numa proporção de 98,15% (os de fora) a 1,85% (os locais).

A moça do sinal é fruto de duas realidades extremas: a que aponta o Distrito Federal com um alto IDH da Educação; a que mostra um índice de desemprego da ordem de 19,5% na Capital da República. Em meio a tudo isso, a ameaça cada vez mais próxima de que as universidades públicas sejam privatizadas pelo atual governo do país. E a angústia de pensar que os esforços da moça que vende panos de chão no sinal sejam em vão.

Eu gostaria de pensar em coisas boas. Mas ando incapaz de roteiros mentais felizes. Não quando ainda ecoa na minha cabeça a pergunta que me fez um médico renomado aqui de Brasília a respeito da ascensão dos pobres por meio da educação. Tendo tido, ele mesmo, a oportunidade de estudar graças ao seu pai — que era entregador e lutou muito —, declarou-se a favor de que os pobres estudem apenas até o ensino médio. Confrontado por mim, me questionou: “Se todos forem para a universidade, quem vai pintar as minhas paredes?”. Mas essa é outra história.

Por ora, me serve como analogia dizer que os portões do inferno foram escancarados. E que a podridão que está só começando a se espalhar ainda vai impedir dias mais justos para muitas vendedoras de panos de prato.

O que eles não sabem é que as ideias não morrem. Não sabem que aquilo que o cérebro aprende pela leitura se torna discernimento. E que discernir é o berço da resistência.

Vamos ler.

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