LAMA, OURO E AMBIÇÃO: A SERRA PELADA DE SEBASTIÃO SALGADO – Fil Felix

Contam que em 1979 uma criança encontrou uma pedra dourada num riacho do interior do Pará. A descoberta foi levada ao dono da terra que, ao avaliar melhor, confirmou se tratar de uma pepita de ouro. Pouco tempo depois, a região foi tomada por milhares de pessoas que sonhavam enriquecer e, em uma década, essa multidão de gente em situações análogas à escravidão transformou uma colina de cerca de 150 metros numa cratera de 200 metros de profundidade, equivalente a um prédio de 70 andares. Parece ficção, mas foi real. Cerca de 50 mil garimpeiros dominaram a região, onde atualmente é a cidade de Curionópolis, e a transformaram na conhecida Serra Pelada que, durante a década de 1980, foi a maior mina a céu aberto do mundo.

Após ser barrado por seis anos, em 1986 o fotógrafo Sebastião Salgado conseguiu acesso à Serra Pelada e registrou momentos que retratam aquela realidade, o funcionamento do garimpo e as condições em que as pessoas se encontravam. Essas fotos ficaram guardadas por 30 anos e agora ganham uma exposição no SESC São Paulo, intitulada Gold – mina de ouro Serra Pelada, ocupando um andar inteiro do edifício. As mais de 50 fotos dão uma visão macro da cratera e uma visão micro do trabalho dos garimpeiros.

Eram pessoas que vinham de todas as regiões do país em busca de ouro, uma corrida árdua de trabalho pesado e manual, com centenas de homens subindo e descendo escadas improvisadas, explorando cada qual seu lote de 2 x 3 metros (os chamados barrancos), como um grande formigueiro: cada um com sua função.

As incríveis fotos de Salgado revelam a ambição, felicidade e a frustração desses homens, pois a corrida não era garantia de vitória. Enquanto alguns encontraram ouro e enriqueceram, muitos outros saíram de mãos abanando. E o que mais impressiona nesses registros é a ideia de ganância e a ambição por dinheiro. Mas não somente: muitos dos garimpeiros queriam apenas sair da pobreza, acreditando no sonho do ouro da terra. E é chocante observar as fotos, os homens cobertos de lama e exauridos, arriscando a própria vida em nome de tudo isso. O uso do preto e branco, no lugar de fotos coloridas, ajuda a destacar as expressões faciais e as texturas, com o contraste favorecendo os detalhes.

Nas palavras do próprio Sebastião Salgado, hoje com 75 anos, “o que dizer desse metal amarelo e opaco que leva homens a abandonar seus lares, vender seus pertences e cruzar um continente, a fim de arriscar suas vidas, seus corpos e sua sanidade por causa de um sonho?”. A Serra Pelada foi o El Dorado brasileiro e, com seu fim, a cratera transformou-se em lago e toda sua história ficou por muito tempo guardada no imaginário popular e, como muito do que ocorre em nosso país, foi caindo no esquecimento. Felizmente, as fotos de Salgado retomam esse capítulo recente de nossa história e auxilia na preservação da nossa memória.

Apesar de a imagem da cratera ser impressionante, a situação da Serra Pelada representa só um ponto em todas as atividades que o homem vem realizando: perfurando a terra, desmatando as florestas, despejando lixo nos oceanos, extinguindo espécies da flora e fauna, desequilibrando o ecossistema, tudo em nome do dinheiro, da manutenção cada vez mais exigente da vida urbana. Assim, uma fatia pequena da população vive com luxo e comodidade, enquanto 3,4 bilhões de pessoas, quase metade da população, vive sob a linha da miséria. O mundo gira em torno desse sonho de enriquecimento, dos game-shows que entregam 1 milhão de reais em barras de ouro na TV aos cultos à prosperidade de muitas igrejas que exibem suas Arcas da Aliança folheadas também a ouro. Todos falam a mesma língua: dinheirês.

A situação de Serra Pelada não foi um evento isolado. Basta lembrarmos-nos de quando éramos colônia de Portugal, quando extraíram centenas de toneladas de ouro. E pelo andar da carruagem, o metal dourado continuará fazendo a cabeça das pessoas por muito mais tempo. Recentemente, por exemplo, uma quadrilha conseguiu roubar 760 kg de ouro no terminal de cargas do Aeroporto de Guarulhos. Inclusive esses temas, como a ambição e a desigualdade, são centrais no trabalho de Sebastião e de sua esposa Lélia Wanick Salgado, que viajaram mais de 100 países e vêm trabalhando, através da fotografia e projetos sociais, por uma maior consciência ambiental, desenvolvimento ecológico e despertando compaixão e bondade nas pessoas ao expor a situação de muitos grupos, como os imigrantes. O casal vem ajudando a preservar e recuperar parte da Mata Atlântica em MG, criando o Instituto Terra. Lélia também é a curadora de todos os trabalhos de Sebastião, estando por detrás da megaexposição e também do livro lançado pela Editora Taschen para o evento (livro esse que, infelizmente, é caríssimo e praticamente restrito a colecionador)..

Visitei a exposição e lembrei-me de um mito grego, um que a deusa de discórdia, Éris, não foi convidada para uma importante festa. Ressentida, ela deixou um pomo de ouro e um bilhete na cerimônia: “para a mais bela“. Sem citar nomes, ela incitou a ira e a competição de três das deusas mais poderosas: Hera, Afrodite e Atena. Elas vão até Páris, o mais justo dos homens, e cada qual promete um tipo de riqueza em nome de ser escolhida a mais bela. Hera oferece fama e poder, Afrodite promete a mulher mais linda, enquanto Atena quer torná-lo sábio e um líder de guerra. Páris escolheu o amor e Afrodite entregou a jovem Helena, esposa do rei de Esparta. O resultado é conhecido: a Guerra de Troia. O pomo da discórdia é um dos inúmeros pomos de ouro que, desde o início dos tempos até os dias de hoje, mexe com a ambição e a vaidade das pessoas, independente de suas consequências.

Gold – Mina de Ouro Serra Pelada: visitação é gratuita e acontece de 17 de julho a 3 de novembro de 2019 no SESC São Paulo.

Fontes:
https://nacoesunidas.org

https://www.sescsp.org.br

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