QUANTO TEMPO O TEMPO TEM – Paula Giannini

Há um hiato grande entre o dia em que fui ao teatro Sérgio Cardoso assistir ao espetáculo Tchekhov é um cogumelo, — dia emblemático, devo dizer, em que o não menos emblemático encenador Antunes Filho nos deixou —, e o dia de hoje, o do tempo presente no qual escrevo este artigo. Não sou mais a mesma, jamais voltarei a ser. Pouco mais de um mês se passou, porém, para quem me olha do olho do abismo através do qual saltei (ou será no qual caí?), séculos ou talvez apenas segundos tenham corrido. Tanto aconteceu de lá para cá… Tanto… O tempo me confunde.

Jamais serei a mesma.

Jamais.

Mas, afinal, quem será?

Quem não se transforma o tempo todo, a cada segundo, com cada nova experiência boa ou ruim de vida?

Quem não?

Eu sim. Todos nós, sim.

O tempo

Penso nele como um imenso tecido, algodão cru talvez, onde milhares de fios correm paralelos vertical e horizontalmente formando a trama uniforme, padrão de uma tessitura supostamente infinita, mas com inexorável prazo de validade para nós, os pobres mortais. Entre cada ponto de contato, entre cada intercessão de fios, entre cada cruz, há, no entanto, um espaço vazio, o nada. Talvez seja ali, neste nada, que habitem os abismos, ou, quem sabe, as artes, talvez os momentos da vida que, de alguma forma, darão sentido ao todo quando, com uma agulha de bordado, metemo-nos pelos espaços ocos, enviesamo-nos através do vácuo com linha capaz de saltar casas por momentos outros, por desenhos outros e inusitados.

Então, assim imagino, se o tempo é o tecido, quiça o bordado, aquele formado pelo fio a percorrer caminhos sem respeitar a linearidade da tecelagem que, diz a física, sempre caminha em sentido único (o do futuro), será a memória, nosso próprio modo de ver o tal do tempo, a quarta dimensão, ou melhor, os diferentes tempos que em nós residem. O do afeto, o do medo, o do trauma, o do êxtase, o do tédio, o da arte, o da espera, e, logicamente, o da dor.

Matéria-prima

O tempo.

É esta, justamente, a proposta, penso eu, de André Guerreiro Lopes para sua versão de As três irmãs, de Anton Tchekhov. Um desencadear não linear de lapsos de tempo e memória costurando a narrativa, como se esta estivesse (e de fato está) dentro do cérebro do encenador. Assim, o espectador passeia por momentos da dramaturgia em vislumbres oferecidos pela ótica do artista. É como se a plateia fosse convidada a penetrar no subconsciente do contador da história e, de alguma forma, assim como é com o quebra-cabeças de lembranças que montamos ao recordar um fato qualquer, assistir ao espetáculo como alguém que, no futuro, se recordasse dele.

Dizem que quem conta um conto aumenta um ponto. Porém, mais que isso, quem realiza tal narrativa, sempre o fará do modo como se lembra dela, saltando momentos aqui e ali, floreando fatos que julga importantes, colorindo detalhes para os quais seus sentidos foram aguçados. Meu conto jamais será o seu, ainda que tenhamos vivido a mesma lembrança em uma mesma determinada encruzilhada, em um exato e igual instante de nosso tecido-tempo.

O que será de nós no futuro?  

O tempo.

Esta não é a primeira vez que visito As três irmãs por aqui, nesse O(s) Imaginário(s). No artigo de 2017, sobre a obra Funâmbulos, de Priscila Gontijo, era outro fio, o do equilibrista, que tecia o abismo entre o que já se foi e o que virá. Entre a utopia que há para Tchekhov, ao menos nesta obra, entre caminho de evolução do homem em um determinado tempo passado, um tempo de luta, privações, sacrifícios e revolução, para o seu futuro, momento no qual o ser humano seria evoluído, bom e feliz. Um tempo de utopia no qual todos os cidadãos de bem teriam o direito inegável e pleno à dignidade.

Para responder à questão do autor — o que será de nós no futuro? — André Guerreiro Lopes, de certo modo, também lança mão da utopia. A sua utopia. A de que, através de um determinado estado mental alcançado a partir de meditação, nossos cérebros seriam capazes de romper os limites da matéria-tecido-tempo-espaço e mostrar ao outro o que de fato há em nós. O que há dentro, em nossas memórias, afetos, no desenho bordado de nossas existências.

Bem, para demonstrar isso, Guerreiro lança mão de uma engenhoca que supostamente faz soar música a partir de bacias com água e canos de metal instalados no palco. Um experimento de teatro-tecnológico que se faz belíssimo, com imagens de um imenso cérebro projetado em tecido finíssimo que nos deixa entrevar os atores, ao som de ritmos hipnóticos.

A coisa, porém, não para por aí. O encenador busca uma voz do passado e tece o seu fio até o diretor José Celso Martinez Corrêa que, através de um antigo vídeo dos anos 1970, tece suas reflexões acerca de uma montagem de As três irmãs. Uma montagem que nunca se concretizou, mas que, regada à mescalina de cogumelos, substância que também ativaria a tal habilidade telepática humana, chegava, no processo de ensaios, à conclusão que a obra de Tchekhov fala justamente sobre ele, o maior de nossos carrascos.

O tempo.

Aquele que nos encaminha para o fim. O nosso, o dos seres que mais profundamente amamos, o de Antunes Filho, o de todos nós. Todos. Exceto o dele, claro, posto que é infinito, ao menos (não resisto ao trocadilho poético), enquanto dure.

Do que fica.

Da vida? Nada fica.

Nada.

Só a arte. As memórias. E o amor, talvez.

Perdoem esta articulista por este artigo quase enigmático. É que o espetáculo em questão é quase assim, enigmático. O diretor e seu incrível e afinado elenco, porém, nos oferece as agulhas para desenharmos nossas próprias interpretações… E, claro, memórias.

A que assistir

Tchekhov é um cogumelo

Indicado ao Prêmio APCA de MELHOR ESPETÁCULO DO ANO – 2017
Indicado ao Prêmio SHELL 2017 de Melhor Música.

Um dos três Melhores Espetáculos do Ano pelo júri do Guia Folha de São Paulo.

Espetáculo que celebra 10 anos da Cia. Estúdio Lusco-fusco.

Direção, Concepção e Adaptação – André Guerreiro Lopes
Texto – Extratos de As três irmãs de Anton Tchekhov
Elenco – Helena Ignez, Djin Sganzerla, Michele Matalon, Roberto Moura,
Samuel Kavalerski, Fernando Rocha  e André Guerreiro Lopes

Basta ficar de olho, em algum momento eles devem estar em cartaz perto de você.

Vamos ao Teatro!

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