GENTE RUIM TAMBÉM ENVELHECE – Madame Cat

Antes de chegar aos cinquenta anos, o que considero a meia-idade, eu tinha uma concepção meio simplória do que seria a velhice. Algo como um poço de sabedoria e bondade para compensar a despencada da capacidade física e mental. Minha mãe e meu pai são ótimos exemplos de virtude, logo não tinha nenhum motivo para pensar o contrário. Alcançar o nirvana, exercendo a flexibilidade e a empatia em prol da humanidade. Não é bem assim, gente ruim também envelhece.

Venho pensando nisso há algum tempo. Especialmente hoje ouvi dois exemplos de descontrole social do esfíncter na terceira idade dignos de nota. A primeira foi logo pela manhã. A vizinha cruzou comigo e ofereci um simpático “bom-dia”; ela devolveu com uma tapa na cara: “Só se for para você, idiota”. A segunda foi à noite. Numa roda de amigos, uma senhora, conhecida não por sua amabilidade, chega e recebe um “Tudo bem, dona…?”. A resposta foi na lata: “Dona é o caralho!”. Parem as máquinas, pano rápido, parem o mundo que eu quero descer,  ou qualquer outro clichê do gênero. O que é isso?

Isso é apenas o reflexo no cotidiano do que acontece com muitos idosos em suas vidas privadas. Não com todos, importante destacar e valorizar. Trabalharam muito (ou não), criaram filhos (ou não) e se aposentaram (ou não).  Lá pelas tantas descobrem que não são mais tão importantes para os filhos, sobrinhos e para a sociedade. Vem a solidão, acompanhada de frustração e revolta. Muitos usam as economias da vida como moeda de troca, dinheiro por carinho e atenção. Outros se tornam mesquinhos e paranoicos. Acreditam que estão sendo roubados por todos, escondem comida dos empregados e dinheiro dos únicos parentes que os ajudam, acumulam objetos e mágoas. E o pior: tentam demonstrar esperteza e se aproveitar da condição preferencial de idoso.  Jogam os parentes e amigos uns contra os outros, mentem descaradamente, e se sentem “preferenciais” em tudo, inclusive no direito de ser indelicado com o mundo. Na maioria das vezes, não deram para a família na juventude a atenção que exigem agora na velhice.

Você aí, leitor, de coração mole e boa índole, deve estar odiando essa exposição cruel, preconceituosa e sectária. Eu também estou, mas é real e precisa ser dita. O bom senso nos leva a contemporizar e relevar o mau humor e agressividade de alguns velhinhos. Não deve ser fácil suportar a perda da força, beleza e memória. E ainda ter de conviver com um mundo do qual não se tem controle das novas tecnologias. Um mundo que muda numa velocidade vertiginosa, impossível de ser acompanhada pela geração da Primeira e Segunda Grande Guerra. No entanto, o bom velhinho supera tudo isso. Aceita o que não pode mudar e aprende a ouvir as novas gerações. Com essa postura positiva, cria novos vínculos e valores, recebe atenção e oferece em troca sua vasta experiência de vida, seu bem mais precioso.

Não sei se terei o direito de envelhecer, mas se for para virar uma velha déspota é melhor partir num rabo de foguete, num piscar de olhos, enquanto ainda me resta dignidade.

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