QUERÔ E O FANTASMA DE ALZIRA – Lezir Ishigawa

O cinéfilo que assiste ao filme Querô, longa-metragem de 2007 dirigido por Carlos Cortez, disponível no YouTube, imediatamente  o associa a Pixote, a lei do mais fraco. As similaridades são muitas, e até o protagonista, interpretado por Maxwell Nascimento é fisicamente parecido com o do filme dos anos oitenta, encarnado por Fernando Ramos da Silva. Talvez por isso, ao término do longa, fique, ao menos para mim, a sensação de falta de brilho.

O personagem Jerônimo, apelidado Querô, é filho de uma prostituta na zona portuária de Santos, Alzira da Piedade (Maria Luísa Mendonça) que, expulsa do prostíbulo por causa do nascimento da criança, e após tentar sozinha cuidar de seu filho, deixa o menino na porta da casa de prostituição onde trabalhava e, imediatamente após, morre. A partir daí, Jerônimo é criado e explorado pela proprietária da casa, a agressiva Violeta (Ângela Leal).

Não é possível uma existência assim. Por isso, tão logo se sente seguro, ele passa a viver na rua tão e, consequência quase inevitável, vai parar na FEBEM. Essa instituição, ao contrário do que oficialmente é sua tarefa, não tem nenhuma intenção de recuperar criança ou adolescente infratores. Por isso o inspetor de menores, Sr. Edgar (Milhem Cortaz), facilita a ocorrência do estupro sofrido pelo protagonista dentro da instituição. Querô, tomado pela revolta, esfaqueia o inspetor, resultando em fuga dos internos.

De volta à liberdade, o protagonista vive num prédio velho, usado por moradores periféricos. Nele há muitas escadas, o que de certa maneira lembra Relativity, famosa ilustração produzida por Maurits Cornelis Escher (1898 / 1972). Querô consegue fazer uma amizade sincera, Gina (Claudia Juliana), uma senhora negra e evangélica, a partir de quem passa a conhecer a jovem Lika (Alessandra Santos), e por ela se apaixona. Sente-se indignado por não conseguir comprar sequer uma caixinha de música para ela, no dia de seu aniversário. Ele trabalha, tenta se inserir na sociedade, mas a máquina é cruel: o agente da polícia civil responsável por sua prisão e pela “estada” na FEBEM, Sabará (Eduardo Chagas), o reencontra e, sabendo que Jerônimo ferira gravemente o inspetor, o chantageia: cobra um “pedágio” semanal para permanecer livre (“trezentos e cinquenta conto na minha mão, todo o domingo”).

A vida não vale a pena, se vivida nos termos em que o sistema impõe aos jovens atirados à sarjeta. Nesse sentido, é sintomática a seguinte fala do protagonista, no escuro da solitária da FEBEM: “Por que, mãe? Por que tu me pôs no mundo? Ó o que tu fez comigo, mãe…”.

Em contraponto a uma vida tão sofrida, é preciso radicalizar, e para isso existem dois caminhos, em essência: ou se age coletivamente, no sentido de modificar as estruturas sociais, ou, em atitude individual, opta-se pela fuga. E para fugir há muitos modos. Querô escolhe o falso heroísmo, ou a vingança: rouba um carregamento de drogas de um parceiro de FEBEM e se arma para matar Sabará. Ambos os comportamentos são suicidas, pois a chance de ele mesmo morrer é grande.

No tiroteio entre ele e o policial civil, seu adversário morre, mas Querô é gravemente ferido e nessas condições foge. Morre minutos depois, ao “ver” diante de si, sua mãe se prostituindo na rua. Ela, morta a partir mais ou menos dos primeiros dez minutos do filme, também o “vê” e se encaram longa e mutuamente. A ligação é óbvia: o filho de uma mulher miserável, morta pela dor de ser prostituta e não conseguir sustentar seu filho, morre após sofrer no mundo. Ou seja, sendo ele a perpetuação da miséria, vai para o mesmo caminho da mãe. Diante do fantasma da mãe, Querô sente que vai se transformar na mesma matéria volátil.

Ao longo de todo o filme, imagens perturbadoras sempre o acompanham, como flashes de Violeta e do agente de menores. Na sequência final, antes do “encontro” de Jerônimo com sua mãe, ele volta a enxergar alguns algozes de sua vida: Sabará e o agente de menores conversando. Eles que durante a trama não se encontram.

O apelido de Jerônimo da Piedade, Querô, é uma redução da palavra “querosene”, líquido que sua mãe, conforme dizem, bebia. Quando chamado de Querosene pelos internos da FEBEM ele fica indignado pelo fato de que isso faz com que associe a sua imagem à imagem negativa que ele tem de sua mãe. Mas há um detalhe importante nesse apelido: Querô também pode ser encarado como uma alteração de “quero”, do verbo “querer”, na medida em que o personagem é alguém muito frustrado, alguém que quer e não pode conseguir. Um desejante. Ilustra bem esse traço a frase dita no último encontro que ele tem com Lika: “Esse sonho esses filhos de uma puta tiraram de mim, meu!”. Ele não identifica quem são “esses”, mas são todos os prepostos do sistema (o policial, o agente, Violeta e outros), mesmo que ele não tenha semelhante consciência.

Apesar de a denúncia das estruturas sociais perversas estar bem nítida, e ser necessária em um país tão desigual como o Brasil, alguma coisa não funciona adequadamente no filme. A inexperiência do elenco juvenil com certeza pesa nesse aspecto. Na maioria das cenas, Maxwell Nascimento vive bem o Querô, mas por vezes não consegue dar plena vazão ao personagem, como no fim do longa, no diálogo com Lika, em que ele diz a frase reproduzida no parágrafo anterior. Não só ele: o secundário Mosca não encontra em Nildo Ferreira um bom intérprete, na medida em que a pronúncia das palavras é atropelada (e não é característica do personagem).  

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