NATUREZA-MORTA COM FLORES: AINDA PRECISAMOS DE ARTE? – Fil Felix

O que é arte? Para que serve e para quem é feita? Qual seu valor? Essas e inúmeras outras questões são parte do cotidiano de quem se aventura a dedicar seus estudos, seu trabalho ou sua vida ao universo artístico, seja ele das artes visuais, música, dança, teatro ou literatura.

De maneira geral, é um universo visto à parte pela maioria das pessoas, um ramo quase subjetivo. Se o mundo, por exemplo, precisa de médicos e pedreiros para atividades básicas e fundamentais como cuidar da saúde e levantar construções, respectivamente, qual o papel dos artistas em meio a essa engrenagem mundial?

Não considero a pergunta, em si, como a grande problemática da situação, mas sim a visão de mundo que criamos. Somos educados a visualizar a vida como uma grande máquina de capital, em que tudo é uma engrenagem extremamente funcional para a manutenção desse capital, gerando lucro e trabalhando para que as coisas permaneçam como são. A pessoa, quando deixa de ser produtiva, é vista como um empecilho e um gasto. A vida dos animais só importa enquanto mercadoria, criando bois, porcos e galinhas super hormonizados em linha de produção. Os vegetais, por sua vez, são geneticamente modificados e chegam à mesa do povo com excesso de agrotóxicos.

Rachel Ruysch – Cesta de Flores, 1711

Tudo possui sua função e é otimizado ao extremo para produzir mais em menos tempo. Vivemos num país em que há mais cabeça de gado que pessoas e, mesmo assim, milhões ainda passam fome. Um país em que o presidente é a favor do trabalho infantil e seus defensores veem uma criança como mão de obra.

Então não é difícil entender a dificuldade em definir a função e o valor da arte. Mesmo ela estando presente nos outdoors de propaganda, nas músicas, filmes, programas, e que por trás da série que maratonamos há, além da atuação, um estudo de cenografia, fotografia, figurino, composição e design. Mas tudo isso, ou a maioria pelo menos, se encontra no campo do entretenimento, algo que, no pensamento dessa engrenagem capitalista, ainda gera lucro.

Mas e o pequeno artista, como fica? De maneira geral, acham vagabundice quem quer viver de ilustração e pintura; é loucura querer seguir carreira no teatro ou até mesmo cantar, em troca do tão sonhado emprego com carteira assinada em horário comercial. A partir dessa visão, essa arte não é funcional e não gera lucros, pelo contrário, muitas vezes o artista precisa de incentivo governamental, na forma de projetos culturais patrocinados, para sobreviver e pagar suas contas. Voltamos à pergunta-título deste artigo: ainda precisamos de arte? Dessa arte que foge aos monopólios capitalistas dos grandes estúdios?

Rachel Ruysch – Buque em Vaso de Vidro, 1703

Antes de responder com minha singela opinião, gostaria de apresentar as pinturas com mais de 300 anos que conheci essa semana e que, apesar de serem naturezas-mortas, conseguiu me fazer ter esperança novamente não apenas no fazer artístico, mas também na necessidade da arte em nossa vida.

Tratam-se dos quadros pintados pela holandesa Rachel Ruysch, talentosa artista que possuía uma técnica excepcional e que dedicou sua vida à pintura floral, tornando-se uma das maiores e mais populares pintoras de natureza-morta floral de sua época. Nascida em 1664, pegou gosto pelas ciências naturais ao estudar e desenhar as coleções do pai, o botânico Frederik Ruysch. Aos 18 anos já assinava e vendia seus quadros por conta própria, e aos 30 anos casou-se com o também pintor Juriaen Pool, com quem teve dez filhos. Rachel faleceu aos 86 anos e foram documentadas obras produzidas dos 15 aos 83 anos de idade, mostrando que permaneceu ativa até seus últimos anos, sendo reconhecida ainda em vida, com a cotação de seus trabalhos ultrapassando grandes nomes como Rembrandt.

Rachel criava arranjos descontraídos e assimétricos no intuito de render uma naturalidade maior ao trabalho. Cada pétala é pintada com esmero e suas cores vibrantes em contraste com o fundo negro saltam aos olhos. Como parte do movimento rococó e também das pinturas florais do século XVII, suas pinturas trazem um esplendor e exuberância quase palpáveis e, como uma herança do barroco, uma dramaticidade exagerada que nos fisga a atenção. Os pequenos insetos interagindo com as flores ou até mesmo cada grão de pólen pintado demonstra a atenção da pintora aos detalhes. E é curioso pensar que as naturezas-mortas, apesar de rentáveis em sua época (lembrando que a Holanda era um grande mercado de flores, sendo um tema recorrente), sofreram certo preconceito.

Como geralmente não trazem figuras humanas, eram e ainda são utilizadas como forma de aprendizado por evitar o sentimentalismo que outros gêneros podem trazer, como as expressões humanas em retratos, e também por utilizar títulos literais como “cesto com frutas”, sendo uma maneira neutra de aprimorar alguma técnica.

Mesmo hoje as naturezas-mortas continuam sofrendo preconceito e, para os que ainda as produzem, muitas vezes são vistas como a prima pobre dos demais gêneros. Para quê ter um quadro de natureza morta na parede se podemos colocar um arranjo floral de verdade sobre a mesa? Ou até mesmo preparar uma mesa de jantar pra postar uma foto no Instagram?

Rachel Ruysch – Buquê em Vaso de Vidro, 1706

Não percebia, mas essas questões se cruzam com as mesmas que comentei no início. E Rachel, com seus quadros, me mandou um recado certeiro. Seus arranjos com flores opulentas e recheadas de detalhes tratam-se, em boa parte das vezes, de uma representação irreal. Seus grandes arranjos não existem no mundo real, as flores utilizadas não florescem no mesmo período como também não cresceriam juntas, por precisarem de ambientes diferentes, então nunca seriam vistas num vaso. É uma fantasia da artista, travestida de realidade. E ao contrário de outras naturezas-mortas, que trazem caveiras e frutas podres remetendo à morte, suas pinturas abrem caminho para o impossível. Ou melhor: para novas possibilidades. E ainda assim, são arranjos únicos.

Respondendo à pergunta-título, a arte vai muito além da vida porque ela nos proporciona algo que a vida em si, esse maquinário em que estamos, não nos oferece. Ela vem como uma solução e, exatamente por isso, tanto incomoda. Ela é o pé de cabra que emperra as engrenagens, que nos tira da Matrix. Com a arte, com essa natureza-morta com flores, percebi que não basta somente viver, é preciso sentir, expandir e ir além.

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