DE HERÓIS E HEROÍNAS – Sandra Godinho

Depois de um frugal sanduíche de pão com manteiga e do vendedor de abraços ter abandonado seu posto com uma bonificação razoável no bolso — mais devido à carência que à caridade humana — eu me perdi a pensar na vida, peitando o calor das 14h00 e a injustiça dos dias. Fui à ambulante do lado e pedi um churro de doce de leite para o amargo da boca, sem uma inspiração sequer para meu futuro best-seller. O único tema que me passou pela ideia — depois do musculoso vendedor de abraços — já morria antes mesmo de nascer. Histórias quentes de rapazes malhados havia aos montes, eu tinha de inovar se quisesse sobreviver de literatura.

Foi quando se aproximou de mim uma moça carregando o livro de Malala Yousafzai debaixo do braço, a paquistanesa que se fez voz e passou a lutar pelo direito das mulheres à educação, mesmo atingida por um tiro de fuzil que quase a levou à morte. Do vale do norte do Paquistão, foi levada para o mundo, sua história de luta pela valorização da mulher em uma sociedade machista reverberou, tornando-se símbolo de protesto, ganhando o Prêmio Nobel da Paz. A moça sisuda à minha frente pediu-me uma poesia.

Eu, também sisuda, perguntei-lhe da finalidade do poema. Não tinha nenhuma, respondeu, uma poesia simplesmente por ser poesia, como resistência. Julguei tratar-se de uma compatriota que tinha na autora de tenra idade uma inspiração, mas como todo pré-julgamento, mostrou-se equivocado. Insisti na finalidade da estrofe e ela me respondeu:

̶ Ou aprendemos com nossos erros ou sucumbimos como uma civilização extinta por antecipação. Somos a sobra de nossas ruínas.

A moça acabou se mostrando mais inteligente e sensível que eu. Soltou-me um sorriso com olhar de chumbo, o que me fez indagar sobre o motivo dessa dubiedade exteriorizada num rosto tão jovem. Apiedada de minha ignorância, resolveu esclarecer:

̶ Temos na presidência um maestro que, com sua batuta, está compondo uma partitura especial e específica que destitui a cultura de todos os acordes.

̶ Exato.

Ela se inflamou, não achei de bom tom interromper.

̶ É a cultura que nos faz pensar sobre ideias e ideais, sobre tirania e opressão em todas suas formas e abordagens. A cultura é o antídoto para a alienação. É isso que ressoa como ameaça aos olhos de tantos.

̶ Exatamente.

̶ É uma sinfonia perigosa que ele quer reverberar, a que nos embala num arpejo único que nos empobrece, limita-nos a um repertório de poucas opções. E um maestro que teme novas notas é incapaz de entender pausas, entrelinhas, o jogo de linguagem e a análise da retórica para melhor enxergar o mundo.

̶ Exatamente.

̶ O maestro não se afeiçoa às letras porque se vê ameaçado naquilo que não tem.

̶ O que ele não tem?

̶ A capacidade de interpretar além das pautas. E como se teme o que não se conhece, vive-se acuado até que a pobreza de pensamento nos limite a um único grito: armas é a solução para a violência e a miséria. Como abrir espaço ao que é inovador, ao que pensa diferente — e que é tão válido quanto qualquer outro pensamento — quando não se abre a novas ideias?  

Não ousei argumentar, ela bramindo seu livro em cima da minha cabeça, gesticulando muito, eu com medo de que ela me atingisse o rosto, querendo perguntar a ela se não escreveria um livro a quatro mãos, mas deixei que continuasse seu discurso.

̶ A diversidade nos faz fortes, a diversidade nos faz firmes. Fizesse uso do conhecimento, teríamos melhores empregos. Tendo melhores empregos, teríamos menos desabrigados nas ruas. A cultura, as letras, a educação e os livros são a diferença entre sobreviver e viver, entre humanizar-se e desumanizar-se. Cavemos nossa voz e nossa vez.

A moça me convocando à luta com o olhar.

̶ Entendeu?

̶ Perfeitamente.

̶ É preciso resistir. É preciso saber ler além das entrelinhas, não ser escravizado por qualquer tipo de ideologia. Eu sou resistência.

Ela deu meia-volta e se afastou inflamada com o próprio discurso, não esperou pela poesia. Fiquei com a impressão de que ela se sairia bem em qualquer história moderna dos nossos tempos. Foi quando me senti inspirada a escrever. Estava ali minha heroína, ainda que andasse no meio do povo como pessoa comum.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

Crie um novo site no WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: