“RILAKKUMA E KAORU”, UM OLHAR SOBRE O VAZIO EXISTENCIAL – Fil Felix

“Qual a diferença entre um gato adotado, que é de graça, e esse gato de 150 mil ienes? Se os seres humanos tivessem um preço, quanto será que eu custaria? Eu não tenho nenhum valor, eu sou apenas uma existência insignificante que não tem seu próprio lugar nesse infinito que é a vida” (Kaoru, ao observar uma vitrine de pet shop).

O vazio existencial, as crises da vida adulta, a cobrança da sociedade sobre nós e até mesmo a carência afetiva e social são questões comuns no dia a dia de todos, em menor ou maior grau, que enfrentamos cada um à sua maneira. Seja num hobby, mergulhando no trabalho ou praticando algum esporte, escrevendo ou desenhando, estamos sempre em busca de ressignificar nossa existência. E esse é o principal tema na série japonesa Rilakkuma e Kaoru,  baseada nos produtos e quadrinhos homônimos criados em 2003 por Aki Kondo, e que estreou na Netflix em abril de 2019. Apesar do visual fofo, animada em stop motion e destinada ao público infantil, ela consegue entreter e despertar diversas questões também no público adulto. Com apenas 13 episódios de cerca de 10 minutos, é digna de maratona.

Kaoru é uma mulher formada e independente, trabalhando em escritório e morando de aluguel num apartamento. Apesar da vida tranquila, ela enfrenta o que boa parte da população das grandes metrópoles enfrenta: a sensação de solidão. Para amenizar esse problema, ela pode contar com três excêntricos companheiros de casa: dois ursos e um pássaro de pelúcia, que deixam o telespectador em dúvida se são reais ou frutos da imaginação da protagonista. Rilakkuma é o urso grande e marrom que ama comer e dormir, extremamente preguiçoso, enquanto Korilakkuma é o urso menor e branco, mais jovem e curioso, adora colecionar objetos. Já Kiiroitori é o pássaro amarelo, fanático por limpeza e que gosta de juntar moedas espalhadas pela casa.

Eles não falam, e se comunicam por gestos. Apesar das outras pessoas interagirem com os três, continuamos com a sensação de dúvida sobre suas naturezas. Rilakkuma, por exemplo, possui um zíper nas costas e troca de roupa, sendo seu interior um mistério. E não há outros seres parecidos com eles, para considerarmos algo comum no universo do desenho.

O interessante é como os dois ursos surgiram na vida de Kaoru, uma história que é contada no episódio 12, que também é um dos mais emblemáticos. Num dia em que se sentia sozinha, pensando em adotar um gato, questionando a diferença entre um animal adotado e outro pago, rendendo a frase que abriu o artigo, a respeito do valor que o ser humano possui, ela conclui que não possui valor algum e que sua existência é insignificante em meio ao infinito que é a vida. Para Kaoru, ela não tem lugar nesse mundo.

Após essa catarse no pet shop, ela chega em casa e se depara com Kiiroitori fora de sua gaiola e dois ursos esperando-a. A partir daqui é possível seguir algumas interpretações. A que mais gosto é a de que os três personificam o inconsciente de Kaoru, como se suas inseguranças e carências tivessem tomado forma. E assim fica muito mais divertido de compreender as relações que eles possuem durante toda a série.

Outros pontos que compactuam com essa visão é o fato dela não enxergá-los como bichos de estimação e, num episódio, uma vidente diz que ela vive com três espíritos. Fica evidente que o trio não é composto de simples bichinhos de pelúcia que tomaram vida e sua origem. Na verdade, é um dos maiores baratos da série, pois pode até ser os alienígenas que a gente cogita.

E isso é interessante, ao relacionarmos com as teorias sobre amigos imaginários, geralmente desenvolvidos na infância e que são considerados uma forma sadia e leve de delírio ou esquizofrenia, em que parte do conteúdo inconsciente e recalcado são projetados na figura de um amigo imaginário.

Apesar de considerado algo comum na vida de crianças, principalmente após um evento marcante ou por se sentirem sozinhas, é algo que geralmente se perde na vida adulta. Além de que as crianças possuem consciência de que são imaginários, por mais que suas criações sejam detalhadas, o que diferencia de um delírio patológico. Muitos desenhos utilizam dessa ferramenta, como bonecos que tomam vida apenas na presença da criança. Calvin e Haroldo, por exemplo, retrata um menino que possui altas conversas com seu tigre de pelúcia. Em Rilakkuma e Kaoru, os três animais da protagonista são vistos pelas outras pessoas, chegando até a trabalhar ou ter vídeo no Youtube, mas podem ser lidos como a personificação de seu inconsciente, uma maneira de ajudar a lidar com seus problemas.

Kaoru é uma personagem solitária e que sente a necessidade de uma aprovação. Num episódio, após confirmar um piquenique com as antigas amigas, ela é a única que comparece ao parque, observando as mensagens de desculpas recebidas, que não puderam comparecer por conta de trabalho, viagem ou marido. Kaoru percebe que não é casada, não possui um trabalho que lhe dê significado ou sequer viaja. É um momento em que se compara aos demais e, consequentemente, se sente inferior por não seguir o mesmo estilo de vida deles. Sayu, sua colega de trabalho, é outra personagem que funciona como contraste para a protagonista. Ela é jovem, antenada e moderna, que não se preocupa com o trabalho e vive dizendo que Kaoru precisa de um namorado, muito mais que um gato de estimação, que seria seu fim como mulher solteira.

Um ponto interessante é a utilização das estações do ano, algo bastante presente na série e que ajuda a marcar a ideia de mudança e de renovação, que apesar dos percalços na vida, como perder um amor platônico ou ter o apartamento vendido a uma construtora, também é uma oportunidade para se abrir ao novo, enxergando a vida como algo cíclico. Numa cena, ela aconselha Rilakkuma, dizendo que as coisas não permanecem as mesmas para sempre. E dessa forma ela passa a preencher seus vazios existenciais. De excluída no trabalho e esquecida pelas amigas, ela se transforma numa querida de seus próprios ursos e uma figura importante na vida de outras pessoas, como o vizinho Tokio, um garoto que passa os dias sozinho.

Há um clima de nonsense na série e uma temática infantil, com visual todo fofo e que às vezes pensamos dedicar-se apenas às crianças, mas fica a recomendação de Rilakkuma e Kaoru também aos adultos ou para uma maratona familiar. Capaz de despertar muitos questionamentos e interpretações, deixando o telespectador com uma visão diferente sobre relacionamentos, de como lidar com a solidão, loucura e a sensação de vazio existencial.

Que possamos fazer como Kaoru que, num dia chuvoso e úmido, com cogumelos e mofo surgindo no apartamento e até mesmo no bumbum de Rilakkuma, ela arrancou alguns e assou pra tentar comer.

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