ESCRITA, DIÁLOGO E RESGATES – Cinthia Kriemler

Tenho estado cansada. Porque só sei sentir se for com o corpo inteiro. E sentir com o corpo inteiro é uma benção e uma maldição. Benção porque significa se entregar com intensidade a toda e qualquer ação —  e intensidade, do meu ponto de vista, é uma qualidade honesta; maldição porque sentir com intensidade todas as coisas é como levar chicotadas no lombo diariamente. Pequenos e grandes acontecimentos mexem comigo de forma igual. E eu inteira respondo à novidade, boa ou má.

Em se tratando de Brasil, tenho levado “surras” cotidianas. Apanho pela manhã, quando leio alguma nova insanidade do atual desgoverno, e apanho à tarde, quando as insanidades prosseguem, novas ou acrescidas de desdobramentos. Aliás, o que mais tem sido este país, desde que caiu nas mãos dessas pessoas ignorantes, fanáticas, bélicas e despreparadas, se não uma surra imensa em tantos de nós?

Caos. Nunca uma palavra explicitou tão profundamente o que se vê quando se olha em volta. O povo pagando a conta, como sempre. O país sendo destroçado. Nossa imagem internacional, uma vergonha. A Amazônia, em risco mais do que iminente. Mais de 200 agrotóxicos letais, proibidos nos países desenvolvidos, sendo liberados. A pasta da Educação, entregue a um ignorante metido a engraçado. A Cultura, sufocada, agredida, sucateada. Desmontes que já teriam se tornado lugares-comuns não fosse o fato de que o que acontece com um povo jamais pode ser encarado como clichê.

Exausta. Corpo inteiro dolorido. Mas é melhor que seja assim.

Porque é nesse estado de exaustão que as reflexões me ajudam a decidir para onde quero caminhar. Na vida pessoal, na escrita. 

Quando iniciei minha trilha pela literatura, bem tarde nos anos, tinha uma proposta ingênua de colocar no papel apenas as sensações. Acreditava em inspiração como fonte (única) de motivação. Nunca fui, é verdade, uma escritora de “amor e dor”, de flores e borboletas e laços de fita. Mas havia um descompromisso impensado em relação ao conteúdo dos meus textos. Eu buscava beleza rasa. Eu buscava uma estética perfeccionista e perversa. Eu buscava leitores (bem, isso eu ainda busco). Minha escrita tinha um pouco de lirismo, um pouco de dor e solidão, e às vezes fluía pelo realismo mágico ou até mesmo pelo humor. Incerta e esparramada. Mas nela não havia nenhum traço de social ou de político. Traço mínimo que fosse.

Até que fui lendo meus contemporâneos. Um a um. Poetas, prosadores, dramaturgos, quadrinistas. Gente com um potencial imenso, que muitas vezes não sai nos jornais, não vende muitos livros. Mas plenos em seus textos, poemas, roteiros, HQs. Plenos.

Então, um período de recolhimento. Um longo olhar ao redor. Ampliado em alcance e profundidade. Para perceber/sentir/enxergar sofrimentos e tristezas e dores e desigualdades que me estendiam a mão. Pedindo voz. Pedindo narrativas, denúncias, manifestos, visibilidade, justiça.

E o primeiro texto, falando de meninas exploradas sexualmente. E o segundo texto, falando de solidão e depressão. E o terceiro, falado do abandono de idosos. E os outros, falando de incesto, de pedofilia, de violência física e psicológica, de desespero, de faltas, de ausências, de preconceitos. E a certeza de que nunca mais haveria uma linha, um parágrafo desperdiçado. Nem personagens tolos. Nem histórias apaziguadoras.

Aprendi a reconhecer beleza na luta, na força dos que são brutalizados moral e fisicamente. Aprendi a enxergar as mulheres, os homossexuais, os estrangeiros, os negros, os índios, os operários, os adolescentes, os velhos à luz do meu século. Aprendi a me ombrear a eles. Aprendi a não ser dessas mulheres certinhas, boazinhas, pudicas, discretas, submissas, padronizadas, infelizes. Aprendi que não sei fazer literatura se não colher subsídios para os meus textos no campo das mazelas sociais.

Por isso essa exaustão. Porque a colheita tem sido tristemente fértil. E a extensão dessa lavoura de desvarios que produz miséria, desigualdade, violência, ignorância, fanatismo é de perder de vista.

Colho tudo. Para depois levar essa colheita, pelo grito escrito, pela palavra incômoda, aos olhos que me leem. Colho porque ainda acredito em consciência. A que nos leva a agir; a que nos atormenta com remorsos.

Somos vários, esses que buscam fugir da palavra alienada. Mas ainda não somos o bastante. Precisamos nos multiplicar. Agora, mais do que nunca, já que a intenção de poda é explícita. Precisamos plantar desassossego nos que começam agora a caminhada literária. Precisamos conseguir mostrar às pessoas o portal libertador que se abre pela leitura. E que nunca mais se fecha.

E nossa opção é a urgência.

Tenho estado cansada. E por isso talvez também esteja cansando vocês com essa recorrência em falar dos desacertos deste país, em conclamar para uma conscientização de leitores, em propor uma escrita de resistência nestes tempos tão escabrosos. Mas sigo assim, inconveniente e incômoda. Prefiro ser discursiva a ser apática. Prefiro as mudanças à aceitação estagnada de erros acumulados — os meus, os seus, os deles.

Prefiro ser, como esse verso de Raul que nos deixou marca para sempre: “… essa metamorfose ambulante / do que ter a mesma velha opinião formada sobre tudo”.

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Um comentário em “ESCRITA, DIÁLOGO E RESGATES – Cinthia Kriemler

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  1. Cinthia, boa noite! Parafraseando uma outra frase do Raul, já estão alugando o Brasil e já não é de hoje! É uma pena ver nosso país sendo sucateado, com a atuação dos professores, da arte, cultura e nosso meio ambiente, fauna e flora, sendo desvalorizados e destruídos. Tudo em nome de um suposto progresso econômico, como se uma coisa precisasse excluir outra. E você toca num ponto interessante, que é o papel do escritor em tudo isso, de ter em suas mãos o poder de denunciar, de fazer o leitor refletir, sair da zona de conforto e de confrontar, para além do deleite literário, das construções bonitas e de vendas, números e ego. A dose disso tudo em nossos manuscritos é algo que gera polêmica e discussão, mas necessária.

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