O MITO DE CASSANDRA E A TENDÊNCIA DE SILENCIAR AS MULHERES – Fil Felix

Não é difícil perceber, quando lemos matérias envolvendo assédio sexual, racismo, homofobia e tantos outros crimes contra determinados grupos da sociedade, que já possui um histórico e uma tendência em diminuir a vítima e colocá-la, na realidade, num papel de culpada.

Quando uma mulher comenta que sofreu assédio, raramente se questiona as atitudes do assediador, mas sim a postura da mulher no momento: se estava com roupa curta, deu margem para tanto ou procurou, dentre outros questionamentos que funcionam para duvidar de sua posição. O mesmo com a comunidade LGBT, cujos membros, ao passarem por algum constrangimento ou homofobia, também são questionados acerca das mesmas posturas: se não estavam com uma roupa espalhafatosa demais ou se não se deram ao respeito. Em todos os casos é revelado, em maior ou menor grau, a tendência cruel de culpabilizar a vítima.

Cerca de 90% das mulheres não reportam a violência sexual sofrida. Por quê?

Às vezes pensamos ser um reflexo de nossa atual sociedade, que sofre com o capitalismo desenfreado, corrupção, guerras, envenenamento da natureza e tantos problemas sociais. Porém, é mais triste ainda se dar conta, olhando para o passado, que não estamos tão diferentes assim de nossos antepassados. Que apesar da tecnologia avançada e da tentativa de muitos em trazer paz e harmonia ao planeta, a raça humana repete os mesmos e inúmeros erros do passado, levantando, mais uma vez, a eterna dúvida do quanto o meio afeta o homem.

O filósofo Thomas Hobbes acreditava que o homem era mau por natureza, egoísta e movido pelo medo; que num mundo sem o Estado reinaria o caos; que é preciso leis e freios para controlar essa natureza. Em contrapartida, Jacques Rousseau defendia sua célebre frase que “o homem é bom por natureza, a sociedade que o corrompe”, ao nos dizer que a competitividade, a burocracia e cobranças sociais que deixam o homem em conflito.

Concordando mais com um ou com outro, é difícil não encontrar paralelos de casos atuais com casos de centenas de anos e perceber que, independente do sistema social adotado, conflitos entre as pessoas sempre existiram. O que me traz de volta ao tema do artigo: a figura mitológica de Cassandra e sua interpretação para os dias de hoje.

A mitologia grega possui uma característica bastante interessante que é a humanização de suas divindades e figuras mitológicas. Não há a imagem imaculada de um deus ou uma deusa, como em outras mitologias, mas sim de divindades que também amam e odeiam, que brigam por status, que tem ciúmes, que cometem adultérios e, como qualquer pessoa, possuem seus defeitos e qualidades. São conhecidas as inúmeras traições de Zeus, o que gerou muitos filhos fora do casamento com Hera, sua esposa e também irmã. Assim como são conhecidas as vinganças de Hera contra esses filhos, sendo Hércules talvez o mais célebre.

A antiga sociedade grega, apesar de estudada por sua democracia, excluía as mulheres de seus centros educacionais e políticos, que eram destinados aos homens. Esse e tantos outros aspectos machistas refletiam, também, nos mitos. Um deles o de Cassandra, filha do Rei Príamo e da Rainha Hécuba, portanto irmã de Heitor e Páris, príncipes de Troia.

Numa das versões do mito, Cassandra estava no Templo de Apolo quando recebeu a visita do próprio deus, que se encantou com sua beleza e ofereceu-lhe o dom da profecia, de poder ver o futuro. Em troca, Apolo quis possuir o corpo de Cassandra, mas lhe foi negado. Furioso, ele transformou o dom presenteado em maldição: Cassandra teria, sim, o dom da profecia, mas seria desacreditada por todos. Em outra versão, Cassandra havia recebido o dom ainda quando criança e, mais tarde, quando Apolo foi procurá-la – e, consequentemente, foi rejeitado -, transformou o dom em maldição. Talvez seu momento mais marcante foi quando Cassandra tentou alertar Troia da guerra que estava por vir, pedindo que não aceitassem o cavalo de madeira como presente dos gregos, numa tentativa de prevenir a queda da cidade.

Cassandra foi transformada na figura de uma mulher enlouquecida, que grita aos quatro cantos as tragédias que estão por vir, mas ninguém acredita em suas palavras, mesmo vindo a se tornar realidade. Num paralelo, é possível ver sua figura como a mulher visionária que é silenciada pelo homem; a mulher que é invisibilizada e que possui suas conquistas questionadas; a mulher que se negou a aceitar os caprichos de um deus e, por isso, foi castigada e desacreditada pela sociedade. Essa imagem, esse grande arquétipo, é presente na sociedade até hoje.

Apesar de evoluídos em alguns aspectos, ainda somos muitos parecidos com a sociedade grega e mitológica de três mil de anos atrás. Recentemente uma denúncia de estupro dominou a mídia: o caso da mulher desconhecida que denuncia um dos maiores e mais famosos jogadores de futebol do mundo. Tanto a investigação quanto o público e as reportagens caminham no sentido de encontrar motivos para taxar a mulher, Najila, até então vítima, de aproveitadora e mentirosa. Enquanto isso, o jogador Neymar é o coitado, o enganado.

O curioso aqui, independente de ser verídica ou não a história, é a tendência de todas as esferas em condenar a mulher. Somente no Brasil, segundo dados de 2018 do Atlas da Violência, ocorrem 135 casos de estupros por dia. O número, que já é alarmante, fica ainda pior ao considerarem que apenas de 10% a 15% dos casos são reportados à polícia e ao SUS, elevando o número para um total de 300 mil a 500 mil estupros por ano no Brasil.

Com isso, cerca de 90% das mulheres não levam à frente a denúncia contra a violência que sofrem, quase sempre doméstica. O que nos remete à pergunta do início: por quê? Como representado pela figura mítica de Cassandra e ao vermos os casos transformados em espetáculos televisivos, com a mulher constantemente desacreditada e posta como louca, não é difícil chegar numa resposta. Fica a reflexão, principalmente para os homens, de enxergar as Cassandras ao nosso redor, de dar coro à voz das mulheres em busca de uma sociedade melhor e, para as mulheres que alguma vez se sentiram silenciadas, que elevem sua voz. Pois apesar de Cassandra de sido desacreditada e morta tragicamente, Troia, até então um estado rico que descendia de Zeus, desmoronou ao ignorará-la. Ao silenciar uma mulher.

Matéria sobre o Atlas da Violência 2018, de O Globo.

Poema que fiz para o Janela de Poesia, cujo tema era Loucura, inspirado em Cassandra.

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