MORTE AO REDONETA! – Madame Cat

O momento em que vivemos foi traduzido por um amigo com uma frase: “Tudo que está acontecendo aí é totalmente compreensível, já que se a Terra fosse redonda não seria definida como planeta e sim redoneta”.  Não sei se é de sua autoria ou pescada no ar como um peixe virtual, o importante é a constatação da epifania em estado bruto.

Sim, entramos no túnel do tempo com erro de instalação. Aproveitando a proximidade das festas juninas, queimemos bruxas, livros e milho transgênico nas fogueiras da imbecilidade gratuita. Gratuita, porque se a criatividade e inteligência o governo não quer mais pagar para ver, ou investir,  imagina a burrice? Bestial engado. É no palco da Idade Média que o poder reeditou o cinto da castidade para combater o feminismo e a mordaça para calar a resistência, carinhosamente apelidada de “massa de manobra”. E estamos pagando para ver; e caro, muito caro.

Sérgio Porto morreria de inveja com o solo fértil e exuberante para a reedição do FEBEAPÁ (Festival de besteiras que Assola o País). Nestes novos tempos a vida do cronista se afoga em tantos fatos bizarros que perde até a graça. Como competir com a verdade esdrúxula on line? Impossível.

Voltando para nosso redoneta, sigo analisando esse raciocínio lógico, abstrato, absoluto: Mais vale um maluco rico com um fuzil atirando numa penca de pobres do que um idiota pobre esfaqueando um candidato à presidência maluco. As caixas de lápis de cor só terão duas cores: rosa e azul, separados por plástico. Todas as universidades do país serão militarizadas. Mulheres de rabo de cavalo e homens com cabelo reco. Cursos de sapinhos inúteis serão extintos, como sociologia, psicologia, antropologia e todas as outras “gias”, o que trará uma economia importantíssima para incentivar o uso de armas, agrotóxico e motosserras. Logo, trata-se de uma seleção natural, o ser humano está no topo da cadeia alimentar e não pode se sujeitar aos desmandos de florestas, rios e mares.

Já que chegamos à brilhante conclusão de que a Terra é plana, mais chata do que bêbado, só nos resta esperar que a superpopulação zumbizada chegue à beira do abismo; não precisa nem empurrar, é só bater panela que a galera toda segue o som e pula feliz da vida, rumo ao infinito de uma guerra particular.

Lembremos a lei da física: tudo cai: túnel, barreira, encosta, movimentos sociais e conquistas, presidentes, governadores e prefeitos. Se fossemos um redoneta giraríamos e jamais cairíamos, nunca. Mas como somos um planeta, tudo cai. Algumas coisas, como  aberrações econômicas, conchavos jurídicos e políticas de exceção, caem e ficam lá no fundilho do ostracismo histórico, condenadas à chacota e desmoralização. No entanto, outras coisas caem e voltam, quicam,  pois são feitas de borracha. 

Nosso povo é feito de borracha e insiste em quicar. Leva tombos memoráveis, mas resiste e volta, e luta,  não desiste. Podem continuar a  jogar pedra na gente, mas não vai ficar barato. Questão de tempo.

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3 comentários em “MORTE AO REDONETA! – Madame Cat

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  1. Madame, o trocadilho “rodoneta”, a acidez de um humor mesclado à irritação cidadã fará com que eu use sua crônica em minhas aulas sobre o gênero. Você é muito certeira nos tiros curtos, parabéns.

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  2. Boa noite, Cat! Realmente, nosso povo é como borracha: para além de tudo, ainda apagamos nosso passado e reescrevemos nossa história a base de tiro, porrada e bomba. Fica difícil a ficção competir com a realidade, que anda cada vez mais abstrata e desconexa com os próprios fatos, como o caso de nosso planeta. Pleno 2019, ainda se falam da terra plana.

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