AS MULHERES DE SHAKESPEARE – Paula Giannini

“O mundo inteiro é um palco
E todos os homens e mulheres não passam de meros atores
Eles entram e saem de cena
E cada um no seu tempo representa diversos papéis.”

William Shakespeare

Prezado senhor (ou senhora, não sei, em meu século há controvérsias estranhas).

Por aqui, dizem que o senhor poderia ter sido uma senhora ou muitas, vários senhores, quem sabe até, talvez, nunca tenha existido de fato. Ao menos não como indivíduo único, tamanha é a genialidade de sua obra.

Senhor William Shakespeare, em meu tempo dizem isso, e dizem mais. Talvez o senhor tenha sido um adepto da arte queer (conceito que certamente lhe é desconhecido) e que, também colocada em questão a natureza de alguns de seus personagens, há grande probabilidade de o autor ter sido GLBT. No século XXI, Senhor Bardo, andamos muito preocupados em classificar as coisas, separando-as em nichos-bolhas ao invés de unificá-las.

Há por aqui, no Brasil, por exemplo, o grandessíssimo escritor Machado de Assis que, negro como sempre foi, como se isso alterasse algo da genialidade de sua obra, acaba de ganhar novos retratos, com a mesma face, ou quase, porém pintados com o marrom um tom acima do que antes o retratava. Eu por aqui, que amo Machado e que leio suas letras e não a sua cor de pele, eu que creio sermos todos tão iguais em tudo, pergunto-me se o tom de ocre modifica em algo os nossos talentos. Creio que não. Hoje, porém, isso parece ser necessário, o colorismo, o feminismo, o… Não sei.

É preciso dar poder a quem não tem, isso é uma verdade. Não há dúvidas. Como mulher, escritora, cidadã, entretanto, sob minha pela bege clara, tão clarinha, que não deixa transparecer (infelizmente) o sangue indígena que também me corre fresco nas veias, sonho com o dia em que as classificações já não signifiquem nada, e que negros, amarelos, vermelhos ou brancos, homens ou mulheres, coexistam em um universo de diferenças indiscriminadas. Sem que se precise dizer um grande escritor “negro” ou um(a) ótimo(a) protagonista “mulher”.

Creio, em certo ponto (por aqui agora tudo é relativo), vislumbrar em sua obra esta efusão igualitária de que falo acima. Há em William Shakespeare mouros, reis, servos, servas, rainhas, e queers (será?); há personagens travestidos, os heróis, os vilões, os ambiciosos, invejosos, os bondosos e justos, os mentirosos, geniosos, atrapalhados, as famílias, o clero, e… Em sua obra há de tudo. Há, enfim, a alma humana.

Alma escrita em nuances e dualidades de arquétipos ancestrais, observada pela lente de alguém que viveu há 455 anos, e sob o reinado de uma mulher forte e apaixonada pelo teatro: a soberana Elisabeth I.

As Protagonistas 

E há homens protagonistas, e mulheres. Sim, há mulheres igualmente neste papel. O de protagonistas de uma narrativa. Muitas. Ainda que retratadas, por vezes como submissas, como serviçais, loucas ou mesmo megeras. Ainda assim, são protagonistas. Pois lá também estão as rainhas, as articuladoras de tramas, as fortes. Todas em pé de igualdade, ao contrário do especulado por alguns(mas) estudiosos(as) contemporâneos(as), creio eu.

Ora, na alma humana retratada há que coexistir de tudo. Ou somos nós mesmas, na vida, em nosso século que parece caminhar para trás, apenas rainhas e fortes? Não. O Bardo Inglês, um dos maiores poetas de sua língua de sua época, brindou-nos com um desfile magnífico de mulheres protagonizando papéis (ainda que, no teatro elisabetano, fossem os atores travestidos a encená-las) de uma sociedade viva, conflituosa e com relações tão complicadas e intrincadas, quanto eram e continuam sendo as de hoje.

Senhor Shakespeare, fico aqui imaginando se, por mais ambiciosa e sonhadora que possa ter sido sua alma de poeta, se em algum momento ousou imaginar que ainda no ano de 2019 sua obra persistiria forte e em várias línguas; que seu teatro e poesia pudessem ser encenado por mulheres, e homens, e transgêneros em interpretações únicas, mas sempre alicerçados na pedra fundamental daquelas tragédias e comédias: as suas palavras.

Fico imaginando. O poeta é um visionário. Quem sabe tenha ousado crer tão alto…

Mulheres de Shakespeare

Há alguns dias assisti ao espetáculo Mulheres de Shakespeare, escrito pela premiada e consagrada autora Thelma Guedes, muito (re)conhecida por seu belo trabalho na TV, sempre buscando dar voz às minorias, e protagonizado pelas atrizes Suzy Rego e Ana Guasque.

Na dramaturgia, Thelma nos brinda com um desfile de grandes papéis criados por Shakespeare em sua obra, utilizando como trama de amarração a clássica premissa: duas atrizes que se encontram em um teatro para uma reunião de elenco, mas são surpreendidas por algo externo (um temporal) que as aprisiona no palco, forçando-as a, em uma tentativa de ensaio, deparar-se com as personagens femininas de Shakespeare. Memórias humanas de feminidades que perpassam os séculos e que trazem, de alguma forma, um pouco de cada uma de nós. Assim, as atrizes-personagem, através das falas de tais protagonistas, voltam-se para si mesmas, traçando um paralelo e revendo questionamentos e conflitos próprios das mulheres de nossos dias.

Pinçadas entre as melhores personagens de Shakespeare (se é que isso pode também ser classificado) as heroínas vão aparecendo entre as palavras de Thelma Guedes, em suas falas originais, construindo um mosaico belo e natural. Na peça há grandes momentos de personagens cômicos e trágicos, que, de alguma forma levaram a espectadora aqui, seduzida pela palavra, a querer buscar, ler e reler os volumes todos, um por um, A megera domada, Hamlet, Romeu e Julieta, Sonho de uma noite de verão, A tempestade

Mais que isso, em ótimas interpretações, as atrizes, aos poucos, colorem o painel da autora, mostrando que (felizmente para a genialidade da obra, infelizmente para a humanidade que caminha a passos de formiga) as questões femininas sobre as quais Shakespeare escreveu são ainda relevantes e urgentes em nosso estranho tempo.

Shakespeare, certamente, ficaria muito à vontade em nossos dias.

A que assistir  

Mulheres de Shakespeare

Elas voltarão em breve para mais oito apresentações, pelo menos, em São Paulo. Fique de olho.

“A peça reúne as personagens femininas de Shakespeare em um mosaico multifacetado e leve, alternando momentos dramáticos com humor, com textos que transitam entre a transgressão, a submissão, a ambição e o amor. Mulheres decididas e autoconfiantes, mulheres submissas, castas, doces, apaixonadas, ousadas, enigmáticas, loucas, santas, trágicas, cômicas, únicas compõem esse painel colorido e cuidadosamente selecionado.”

SERVIÇO
Mulheres de Shakespeare, de Thelma Guedes.

A direção é do encenador inglês Luke Dixon.

A assistência de direção de Kyra Piscitelli.

A belíssima sonoplastia é assinada por Sérvulo Augusto.

No elenco estão Suzy Rêgo e Ana Guasque (que também produz o trabalho)

Classificação: 12 anos.

Duração: 70 minutos.

 O que ler

Preciso dizer? William Shakespeare.

E…

Vamos ao Teatro!

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