A PERDA DA IDENTIDADE EM “A METAMORFOSE” E “O INQUILINO” – Fil Felix

“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. E foi com essa frase, em 1912, que Franz Kafka começou seu trabalho mais icônico: A metamorfose, uma espécie de novela onde um jovem, Gregor Samsa, se vê transformado num inseto da noite pro dia e, mesmo assim, continua a pensar em como irá trabalhar na firma, como sua família reagirá, como levantará da cama e assim por diante.
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Além da exploração entre patrão x funcionário, A metamorfose incomoda por, em nenhum momento, Gregor questionar sua situação, o que o levou àquela figura. Até mesmo sua família o isola e acredita ser uma doença, algo passageiro. O leitor precisa, assim como o protagonista, aceitar a natureza fantástica da obra desde o início.
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Por outro lado, Roland Topor, em sua obra O inquilino, de 1964, imortalizada no cinema por Roman Polanski, retrata a personagem Trelkovsky, que se muda para o apartamento de uma mulher que acabara de se suicidar e, aos poucos, sem o perceber, vai se transformando na própria ex-inquilina. Em meio ao suspense e horror da situação, e ao contrário de Samsa, Trelkovsky toma consciência do que está ocorrendo consigo, do processo de sua metamorfose, que acredita ser fruto de uma conspiração dos vizinhos. Num surto de consciência, no capítulo final, ele confronta seus prováveis algozes: “não cometi suicídio. Eu não sou Simone Choule. Foi assassinato… um assassinato monstruoso. Olhem, eis o sangue!”.
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Em ambos os livros há um confronto de identidade. E se há uma questão que martela a mente de todos é sobre a nossa própria identidade. Vemo-nos do mesmo modo nos veem? A ideia que tenho de mim é a mesma que consigo passar pro outro? A figura que vejo no espelho sou eu ou a ideia que tenho de mim? Essas dúvidas pairam no ar entre inúmeras outras, sobre a construção e, principalmente, a manutenção da identidade que imaginamos ter.
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Gregor Samsa viu-se mudado da noite pro dia e se preocupou em seguir em frente, em como lidar com a nova situação, enquanto Trelkovsky, ao perceber estar se tornando uma figura diferente da que costuma ser, trava uma batalha em que ora quer voltar atrás, ora quer ver até onde vai. Duas visões diferentes de como lidar com o mesmo processo, que ocorre conosco o tempo todo. Mais que “pra onde vamos?”, em tempos de internet e polarizações, resta perguntar “o que somos?”.
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Você é o que você usa? O que come? O que veste, ouve, assiste, possui? O que forma nossa identidade? Em A metamorfose há uma passagem muito interessante que comenta esse aspecto, quando relaciona os móveis da casa ao lado humano. Não importa a aparência nem os novos costumes de Gregor Samsa, agora transformado em inseto: são os objetos as únicas coisas que ainda o prendem, que ainda o fazem lembrar-se de quem era. Quando sua mãe e irmã começam a retirar os móveis do seu quarto, ele acredita que irá perder a única coisa que o liga ao “mundo humano”. Uma maneira de pensar que somos, também, tudo aquilo que nos rodeia.
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Da mesma maneira, em O inquilino há uma ideia semelhante: são as roupas, os antigos objetos pessoais e a mobília da antiga inquilina do apartamento que fazem com que Trelkovsky aos poucos se veja transformado na própria Simone Choule.
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Um artista que podemos utilizar para ilustrar essa sensação, e também um dos meus preferidos, é o surrealista René Magritte. Em muitas de suas obras há retratado o confronto do ser humano consigo e com aquilo que está ao redor, de questionar o “quem somos?”. Seus personagens, na grande maioria, não possuem rostos ou são híbridos entre humano e animal, humano e objeto, possuem os rostos cobertos, entre outras alegorias que confrontam a nossa ideia de identidade. Em A reprodução interdita, de 1937, ele trouxe exatamente a sensação que há nos dois livros: o homem, ao olhar no espelho, não se vê como deveria. Ele enxerga outra coisa. Ele se transformou em outra coisa. E ao espectador as duas figuras, tanto o homem quanto seu reflexo. É a mesma imagem. Retomando a ideia de como os outros nos veem.
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Na medicina, um dos métodos de reconhecer um corpo, mesmo carbonizado ou desfigurado, é através da arcada dentária. Independente de pertences ou maquiagem, é algo que é característico de cada um. E nesse ponto, há também outra similaridade muito interessante entre A metamorfose e O inquilino: o papel dos dentes.
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Kafka, em dois momentos, relembra o leitor de que Gregor Samsa não possui dentes. No primeiro, quando Gregor tenta abrir a porta do seu quarto com a boca, se machucando no processo por não conseguir morder. E, no segundo momento, ao observar as visitas da casa mastigando, associando a falta de dentes à falta de viver.
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Trelkovsky, por sua vez, encontra um dente num buraquinho da parede, guardado, enrolado num tufo de algodão, provavelmente de Simone Choule. No decorrer da história ele percebe que perde um dente a cada estágio que avança em direção à figura da antiga inquilina. Em ambos os casos há a associação com os dentes; como nos exames médicos, à identidade e vida de cada um.
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Uma última semelhança interessante de comentar é a presença da música. A arte, de maneira geral, é algo que nos diferencia dos outros animais: a nossa capacidade de criar, do senso estético e da crítica. E a música é um forte instrumento ao se falar de identidade. Muitas pessoas seguem um estilo de vida, criam certa identidade, a partir de um gênero musical. Por outro lado, muitos julgam o outro a partir do gênero musical que ele escuta. Sem mencionar o poder que ela possui de nos aflorar as mais diversas emoções e sensações, até mesmo a possibilidade de ajudar a nos conectarmos a nós mesmos, se lembrarmos dos mantras musicais.
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Numa das passagens mais bonitas de A metamorfose, Gregor Samsa tem sua humanidade retomada ao ouvir a irmã tocar violino. “Era ele um animal, uma vez que a música o tocava tanto?”, Kafka questiona. Já Roland Torpor optou por utilizar a música de maneira clássica, trágica e exagerada, quando a Nona sinfonia de Beethoven começa a tocar em todo o edifício e Trelkovsky passa a ver os vizinhos tramando contra ele, contra a figura que se tornou, sem saber mais distinguir o que é real do que é delírio.
Espetáculo de dança de A Metamorfose.
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A perda da identidade nessas personagens ocorre como uma transformação, uma metamorfose de algo em outra coisa, uma mudança trágica no melhor sentido do termo: o fim inevitável; a morte. Estamos em constante transformação e, como Gregor Samsa e Trelkovsky, caminhamos rumo a um caminho sem dentes e trágico.
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