PAPO RETO E OBLIQUIDADES LINDAS – Eduardo Selga

Não faz muito tempo, escrevi em Os Imaginários, o artigo O elogio a essa loucura?, comentando o reflexo na Literatura que o momento histórico de uma sociedade provoca, necessariamente. Como exemplo recente, citei a antologia de contos e poemas Resistências, iniciativa da A. R. Publisher Editora.

A antologia está em fase de finalização, mas, um dos participantes que sou, tive acesso ao arquivo digital com a diagramação que seguirá para a gráfica e em breve deverá estar no mercado. E é a partir desse material que pretendo escrever dois textos analíticos: este, abordando as narrativas em prosa (contos e crônicas) e outro, a ser publicado na próxima quinzena, sobre os poemas.

São dezoito textos em prosa, dos quais treze contos e cinco crônicas, demonstrando diferentes níveis de percepção de nossas indigências sociais e diversidade de pontos de vista, quase todos se contrapondo, com intensidades variáveis, à mecânica de relógio suíço que engendra essas misérias. A maioria fala do Brasil, explicitamente ou não, mas ao menos um aborda uma realidade que, por enquanto, não ocorre por aqui: os refugiados de guerra do conto Esperança (Júlio C. Alves). Espero, não de braços cruzados, que o cenário (des)humano narrado nesse conto não nos seja premonitório.

Outros temas abordados: abuso sexual de meninas, ancestralidade africana, homoafetividade, colonização, religiosidade afro-brasileira, imigrantes, escravidão, condição da mulher, sensibilidade homossexual, dissolução do sujeito pelo uso de drogas, racismo, mendicância e aculturação indígena.

Esteticamente falando, é possível fazer uma escala de textos que vão do menos ao mais imagético, em que os extremos não enunciam nem qualidades, nem defeitos: são apenas indicadores do uso da linguagem figurada. Certos autores a usam em abundância; outros, mormente cronistas — até pelas características do gênero —,  economizam o recurso.

Como exemplo de largo uso do imagético, eu citaria dois contos que têm em comum o fato de abordarem a ancestralidade negra e o discurso insólito: os contos Raízes de sua terra (Stefany Silva Vieira de Almeida) e Jira (Eduardo Selga). Neste, há um tom onírico e fluido nas cenas absurdas do ponto de vista lógico; naquele, o leitor pode ficar numa saudável dúvida: a personagem ter se transformado em um baobá dentro de seu quarto é um fato dentro da trama ou é uma alegoria poética de modo a simbolizar sua resistência ao racismo?

Trata-se de um ponto importante na análise do texto porque segundo um posicionamento não unânime de Todorov, o teorizador do Fantástico (uma das faces do insólito), a alegoria não é compatível com o Fantástico. Logo, a considerar adequada a proposição do teórico e entendendo haver alegoria no citado conto, o insólito nele não pode ser considerado Fantástico. Aliás, no conto Jira também não, pois a linguagem é poética, mas numa densidade diferente da encontrada em Raízes de sua terra. Entretanto, importante lembrar, algumas das modernas considerações sobre o Fantástico discordam que o alegórico e o poético obstem a caracterização dessa estética.

Dos que pouco usam a linguagem figurada estão a crônica Solilóquio (Renato Rivello Amaral) e o conto Conforme o desconforme (Sandra Godinho). O primeiro texto, que trata da manifestação e da percepção no dia a dia do racismo à brasileira, não faz nenhuma concessão à poesia ou a qualquer recurso literário que possa encobrir a dureza de nossa realidade. A segunda obra, bem mais rítmica, descreve os infortúnios de um indígena em situação de rua, culminando com seu corpo ateado fogo. A situação lembra o crime perpetrado contra o pataxó Galdino, num ponto de ônibus na capital do Brasil em fins dos anos noventa, e o índio da tribo fulni-ô Ubirajara Zeferino da Cruz, carbonizado no agreste de Pernambuco, no ainda ontem fevereiro de 2019.

Dois elementos se destacam na produção de ritmo no conto da Sandra Godinho: em primeiro lugar, um estilo telegráfico na construção de parágrafos, com períodos e frases extremamente curtos que não estão no texto por obra e graça da casualidade: alinham-se à fragmentação e ao isolamento sentidos pelo protagonista; em segundo lugar, um bloco construído de três parágrafos (Nunca pensei que iria vê-lo novamente. / No entanto. / Na manhã seguinte), quase versos, em que o último deles é substituído na metade do texto para “na tarde seguinte” e próximo do fim para “na noite seguinte”. Manhã. Tarde. Noite. A metáfora de uma vida. Do nascimento ao ocaso.

A antologia apresenta trabalhos em prosa de ótima qualidade literária, embora alguns poucos não estejam no mesmo patamar estético da maioria. Vários dos que citei até agora são textos maduros, alguns impecáveis, mas há dois contos que eu gostaria de ressaltar em especial, pela excelência narrativa. Refiro-me a Nona (Paula Giannini) e a Joca louva Deus(Renata Rothstein).

O texto de nossa colega de blogue não foge ao seu estilo marcado, dentre outros aspectos, pela construção de personagens inusitados e cenas contundentes, sem caírem na pieguice ou de algum modo forçadas. A humanidade dos personagens de Paula é aquela que estamos, a passos largos, perdendo. Nesse sentido, ela pode estar se transformando em uma autora importante dentro de uma nascente estética literária que se contrapõe à destruição do humano em nós.

Narrado em primeira pessoa pela protagonista, Nona surpreende porque até o terço final da narrativa o leitor tem certeza estar lendo um episódio rotineiro na vida de uma parteira já um tanto velha no interior do Brasil, em que ela auxilia uma gestante jovem a dar à luz. A parteira é falastrona, e como não são inseridas as falas das duas outras personagens da cena (a grávida e uma ajudante meio sonsa, na concepção da parteira), por vezes o leitor tem a sensação de estar lendo um monólogo interior, e isso é reforçado por um coloquialismo muito próximo de determinado dialeto interiorano ou, ao menos, da ideia que nós, urbanoides e citadinos, fazemos do que ele seja.

Eis, porém, que o leitor se surpreende: a parteira é uma travesti. A surpresa acontece porque no discurso não há os conhecidos estereótipos ligados a esse grupo social. O que temos são duas marcas socialmente conferidas à mulher: a verborragia e a sensibilidade. Com essas características em uma travesti, sem a caricatura com que se costuma identificá-las na arte, a autora nos diz o que nem sempre é óbvio: o feminino não é um atributo privativo da mulher, e sim uma construção. O mesmo vale para o masculino-homem.

Não é, entretanto, um conto que aborda a homoafetividade ou o homoerotismo, e sim o afeto. Mais que racional (o racionalismo em excesso pode nos enferrujar), é o ser humano senciente. Tomando esse paradigma, o título é perfeito: “Nona” é palavra usada para designar a mulher idosa, a matriarca. E há coisa mais antiga e com autoridade sobre nossos atos que o afeto humano, mesmo nos tempos atuais em que se pretende denegá-lo?

Joca louva Deus aborda outra de nossas misérias (e não só brasileira), o consumo de drogas destruindo a personalidade a ponto de alucinação e fato se fundirem. Nesse sentido, lembra as proposições de Bauman sobre a modernidade líquida, período no interior do qual vivemos, caracterizado pela completa diluição de perspectivas em todos os sentidos da vida.


O que leva o protagonista à autodestruição é o fato de sua sensibilidade não admitir a hipocrisia que reinava em sua família em relação à origem dele. Como diz o narrador, o nascimento dele “vinha de um escândalo”, que os pais sempre tentavam encobrir, deslembrar.

Nesse ponto, as narrativas da Renata Rothstein e da Paula Giannini se tocam. Ambas questionam o modo como se organiza presentemente a estrutura conhecida como “família”. Joca é atirado à sarjeta pela hipocrisia que significava aceitarem-no como filho, mas com as devidas ressalvas exigidas pelo tradicionalismo da família. Um filho pela metade, um sujeito que tenta completar sua incompletude com alucinações. No caso de Nona, a mãe da parteira travesti, sertaneja sensível à condição do filho, vestia-o de menina para que ele pudesse ajudá-la nos partos. A mãe de Joca tem uma “cara de paisagem parnasiana”; o pai, “a mesma fleuma de sempre”. Família significa exatamente o quê, hoje?

A construção frasal do conto de Renata Rothstein é, muitas vezes sofisticada, pois aqui e ali o narrador introduz vocábulos gírios em períodos e parágrafos escritos dentro da formalidade. Dois padrões bem distintos, portanto. Com isso, tem-se um efeito curioso: é como se o narrador pinçasse fragmentos da memória do personagem, o que faz a narrativa tornar-se mais credível, pois temos a sensação de verdade.

No frigir dos ovos, a prosa de Resistências é aquele papo reto, principalmente nas crônicas, mas também algumas obliquidades lindas, polissêmicas. Lembrando a imagem da capa da antologia, essas características são tipos diferentes de porrada, ambos eficazes quando bem utilizados.

Observação relevante: as análises foram feitas levando-se em consideração a prova digital que me foi remetida pela editora, de modo que eventuais alterações feitas pelos autores antes da efetiva publicação podem ter modificado o sentido de algum conto ou crônica.

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5 comentários em “PAPO RETO E OBLIQUIDADES LINDAS – Eduardo Selga

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  1. Parabéns pela excelente e minuciosa análise da Coletânea.
    Fiquei feliz pela leitura do meu texto é por ter conseguido passar de forma clara o que eu pretendia.
    Gratidão!

    Curtido por 1 pessoa

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