“ZIMA BLUE” E A HISTÓRIA DA ARTE – Fil Felix

Em março a Netflix lançou a primeira temporada de Love death + robots, uma antologia animada com 18 episódios curtos, cada qual criado por uma equipe diferente e também com estilos de animação diferentes, mas sempre abordando questões que envolvem o amor, a morte e, claro, robôs e muita ficção científica. Como em qualquer antologia, há os episódios de que gostamos mais e outros de que gostamos menos, mas um em especial eu adorei: Zima blue, adaptação de um conto de Alastair Reynolds que foi publicado em 2006 num livro do autor.

Na história, um artista concede uma entrevista após 100 anos de reclusão e apresenta sua última obra de arte. A animação, que possui dez minutos, nos apresenta ao universo futurista de Zima, o artista que vive entre um corpo humano e cibernético, numa sociedade que anseia pelo espetáculo e o trata como uma celebridade.

Zima iniciou sua carreira como um retratista, passando em seguida para os grandes murais e chegando à sua fase azul, em que explorou essa cor à exaustão através de arte conceitual e instalações, retomando seus trabalhos às formas primordiais e à cor absoluta: o Azul Zima. Além de explorar o azul em sua arte, Zima também explorou seu próprio corpo, realizando diversas modificações que o concederam habilidades e sensações sobre-humanas. A grande sacada de Zima blue, que vamos desvendando ao final, é o quanto de humano e o quanto de máquina ainda há nele, além de levar às últimas consequências seu ideal de retornar às origens.

Outro ponto interessante é que podemos aprender muito sobre a História da Arte assistindo ao desenho, que faz diversos paralelos com artistas e situações reais. A começar pelo óbvio, que é o próprio título e a fixação de Zima pelo azul, chegando a patentear um tom com seu próprio nome. O artista francês Yves Klein (1928-1962) também era apaixonado pela cor azul e, em 1960, chegou a patentear o seu próprio azul intenso: o IKB (International Klein Blue), popularmente conhecimento por Azul Klein. E há muitas outras semelhanças entre a personagem de Zima e o artista Yves Klein, que também explorou ao máximo essa tonalidade, chegando a criar quadros monocromáticos e até mesmo telas invisíveis, trabalhando com a questão do vazio, que se desdobra no vazio existencial que permeia a história.

Acima: um mural de Zima. Abaixo: um quadro de Malevich.

Zima passou a desenvolver murais cada vez maiores, mostrando sua inclinação ao monumental.

A pintura em mural é uma técnica que remete aos afrescos, que é a diluição em água de pigmentos e sua aplicação sobre a argamassa ainda fresca, que foi popular na antiguidade e revigorada durante o período da Renascença. Mas o termo “muralismo” só surgiu mesmo no início do século XX no México, quando os artistas passaram a pintar os muros das cidades em reação à ditadura que o país enfrentava e com o intuito de levar a arte ao povo,  de deixá-la acessível.

Diego Rivera (1886-1957) foi um dos principais muralistas mexicanos, com obras monumentais retratando momentos e persongagens históricos, criticando o capitalismo e expondo seus ideais comunistas.

Atualmente, os murais vem ganhando nova força, com destaque para o artista brasileiro Eduardo Kobra, que possui um estilo bastante característico e é também o criador do maior mural do mundo, recorde que conseguiu em 2016 com a obra Etnias para o Jogos Olímpicos do Rio, e em seguida com uma obra em homenagem ao chocolate iniciada em 2017 para a sede da Cacau Show em São Paulo, ocupando mais de cinco mil metros quadrados. Zima, por outro lado, levou a questão monumental ao universo, pintando de azul asteroides e até mesmo planetas. O que começou como formas isoladas de azul no centro das telas, algo semelhante ao que Kezemir Malevich (1879-1935) fez no suprematismo russo, com seus quadrados pretos sobre fundo branco, logou tomou proporções cósmicas.

Os murais de Zima, além de explorar a questão do monumental, exibindo-o ao público de maneira espetacular e quase circense, é também a sua busca pela “forma primordial” (que passa pelas formas geométricas básicas como círculo, quadrado e triângulo), chegando ao azul absoluto, que nos lembra a trajetória de Pablo Picasso (1881-1973),  pintor espanhol considerado o pai do cubismo e um dos maiores artistas do século XX.

Picasso também começou sua carreira com retratos e autorretratos e teve sua fase azul entre 1901 e 1904, quando retratava ladrões, prostitutas e doentes em pinturas quase monocromáticas que exploravam o abandono, a depressão e o vazio. Anos depois, em 1907, ele apresenta a pintura Les demoisellers d’Avignon, considerada o marco inicial do cubismo, movimento que retomava as formas primordiais, decompondo as imagens em formas e volumes geométricos.

É interessante notar a semelhança do azul que surge nos trabalhos de Picasso no começo do século XX com o azul de Yves Klein na metade do século e, agora, com o azul Zima. Todos permeiam a questão do vazio existencial, o abandono, a melancolia e a solidão, numa busca pelo eu. E de fato são características associadas à essa cor.

O artista russo Wassily Kandinsky (1866-1944), um dos precursores do abstracionismo, desenvolveu todo um trabalho em cima das cores e como elas afetam o ambiente e a nós. O azul, para Kandinsky, é uma cor associada ao círculo e, sendo assim, ao introspectivo; uma cor que remete à paz, que traz calma e à necessidade de voltar a si mesmo e, também, ao divino. Azul também é a cor padrão das águas, elemento que simboliza a purificação. Não à toa os batismos são feitos na água.

Zima blue, por explorar todo o espectro dessa cor, acerta ao trazer a melancolia e a solidão de Zima, sua vontade de retornar às origens (ou ao Absoluto, numa outra interpretação). Zima questiona o que já fomos e o que nos tornamos, nossas memórias de outras vidas e nossas visões de mundo. Numa relação com às filosofias indianas, é como se ele utilizasse de sua própria arte para lidar com o dharma: a busca pela Verdade e seu propósito. Sua última obra, inclusive, é uma instalação envolvendo uma piscina e, mais uma vez, trazendo o elemento da água que surge como meio de purificação: numa espécie de batismo, Zima renasce num novo corpo.

O poeta brasileiro Ferreira Gullar (1930-2016) costumava dizer que a poesia surgia do espanto, que a “arte existe porque a vida não basta”. E Zima deixa isso mais claro que nunca, dizendo para buscarmos nosso eu mais íntimo, esquecermos das influências exteriores e nos apegarmos ao que nos é essencial.

 

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