“A HORA DOS RUMINANTES” E O POVO BRASILEIRO – Eduardo Selga

Você, leitor, conhece Manarairema? Para quem tem alguma intimidade com Manuel Bandeira, a cidadezinha é uma espécie de anti-Pasárgada, pois lá a existência não é uma aventura, não há facilidades da tecnologia como telefone automático, tampouco é lugar com ares utópicos para onde se quereria fugir. Está mais para Macondo, não obstante o famoso romance de García Márquez tenha vindo à luz um ano após A hora dos ruminantes, obra de José J. Veiga, da qual passamos a tratar.

Nome fundamental para a literatura do insólito no Brasil, porém não devidamente valorizado porque as estéticas próximas ao fantástico nunca conseguiram uma visibilidade robusta se produzidas por autores brasileiros em território nacional, como também é o caso de Murilo Rubião, o goiano José J. Veiga publicou o romance em 1966. O período histórico em questão (vigorava no Brasil a Ditadura Militar, lembre-se) é essencial para entender a trama carregada de insuetude, no interior da qual há importantes referências ideológicas.

O cenário é o pequeno e fictício lugarejo mencionado no início deste artigo, típico do interior de um Brasil essencialmente agrário. Não há ruas pavimentadas e os ofícios dos homens (não há mulher trabalhando, apenas como donas-de-casa) remetem a esse tempo antigo, como o de carroceiro, ferreiro e dono de secos e molhados. A par disso, é um povo cordato, sem horizontes, sem o estresse do mundo moderno. Vivem a silenciosa certeza de que as coisas não mudam, ciosos de seus padrões culturais transmitidos pelas gerações anteriores, o que inclui valorização do trabalho e respeito ao espaço do sujeito. Mas, sem consciência ideológica e social, esse zelo só vai até certo ponto.

Esses padrões culturais são alterados pelo convívio com outros: sem maiores explicações, um estranho grupo de pessoas surge e monta acampamento num terreno limítrofe ao perímetro urbano. Porque ríspidos e de pouca disposição para o diálogo, nenhum morador de Manarairema consegue perceber de imediato a intenção dos “estrangeiros”, mas a rotina do lugar e a conduta dos raros que têm contato com eles, no acampamento, se modificam drasticamente.

Um bom exemplo dessa transformação cultural podemos encontrar no seguinte trecho, em que um personagem comenta com outro: “Quem diria que Manarairema ia mudar em tão pouco tempo… Antigamente a gente vivia descansado, […]. Hoje a gente pensa até para dar bom-dia. O que foi que nós fizemos para acontecer isso? Manuel, estamos mal” (p. 47).   

Qual exatamente o motivo da influência dos homens da tapera na população e o intuito deles ao se estabelecerem próximos à cidade, porém evitando um contato amplo, isso não fica claro, mas ocorre uma espécie de sequestro da alma de alguns sujeitos, como é o caso do carroceiro Geminiano, que não consegue (e nem tenta) livrar-se de uma opressora relação de trabalho com os estranhos. É, pode-se dizer, uma escravidão moderna. A tarefa que executa é sem fim, provocando nele grande angústia e crise de choro, ao mesmo tempo em que renuncia a qualquer luta no sentido de manter sua dignidade. A relação com os homens o faz sofrer, mas ele se mantém na situação de sofrimento. Talvez por ser negro e, enquanto sujeito, carregar em si a ancestralidade, a história de dor a que foram submetidos os negros? O narrador não afirma, todavia é uma hipótese forte. Vejamos a seguinte fala do personagem para sua esposa, em que está sugerido o quanto ele precisa tomar muito cuidado, por ser negro: “Eu sou preto, tenho de ter meu muro muito branco. Não posso relaxar. Se eu deixar cada um ir rabiscando o que quiser, onde é que nós vamos parar?” (p. 9). 

Outro personagem de certa maneira sequestrado pelos estranhos é Amâncio (palavra que nos remete a “amansar” e derivadas), proprietário de um armazém de secos e molhados. Antes de entrar em contato com os homens da tapera, sua personalidade é marcada pelo exibicionismo, soberba e racismo. Com a chegada deles, mais um traço é adicionado: uma intransigente defesa dos homens junto aos moradores. Segundo Amâncio, eles vieram trazer o progresso e o farão custe o que custar.

Autoritária a postura, não? Por isso um personagem questiona semelhante intento: “Engraçado. Eles vieram trabalhar, trazer progresso […]. Então por que ficam entocados lá longe, cercados, fechados, não se abrem com ninguém […]?” (p. 40).  

As características de sua personalidade fazem de Amâncio uma alegoria do capitalismo no pós-Segunda Guerra Mundial. Um dos instrumentos desse sistema, a espetacularização, leva ao exibicionismo, marca do personagem; a soberba autoritária da estrutura, que traz consigo segregações de todo o tipo, inclusive o racismo, é condição necessária para impor ao mundo um modelo político-econômico fundamentado, dentre outras coisas, na ideia de acúmulo de bens materiais, uma das facetas do chamado progresso.

Nesse sentido, Manarairema é o Brasil antes da explosão capitalista que veio após as bombas de Hiroshima e Nagasaki: tecnologicamente atrasado, portanto sem a desumanização típica do modo como lidamos com a tecnologia. Por via de consequência, e ponderando o vaticínio de Amâncio, os homens representam (e o narrador não registra mulheres no grupo) a chegada desse “novo” período histórico, marcado pelo neocolonialismo. Como o capitalismo é uma estrutura ideológica que direciona o cotidiano de uma sociedade, e ideologia é algo intangível, os homens, ao acamparem nos limites de Manarairema e ao se comportarem quase invisivelmente, afetam o lugar.

A corrupção das personalidades, entretanto, não atinge Manuel Florêncio. Assediado pelos homens do acampamento, que precisam de seus serviços de ferreiro para uma tarefa que ninguém sabe qual é, e sendo o cerco praticado por Geminiano e Amâncio, que funcionam como moleques de recado, ele não acata as ordens por considerar um acinte a imposição. Nesse sentido, ele é a resistência da estrutura social ainda vigente, porém ameaçada de sucumbir ao novo sem rosto. Florêncio é a dignidade do sujeito diante da opressão, e sua firmeza chega a causar espanto e inveja em Geminiano e Amâncio, que lamentam não ter a mesma força moral.

No romance há uma alegoria da naturalização do autoritarismo, um dos objetivos de qualquer governo ditatorial. Ela se encontra no seguinte: após os indivíduos serem profundamente afetados pela presença mais “espiritual” que corporal dos homens da tapera, e em função disso a vida do lugarejo girar em torno da curiosidade que eles causam, em momentos distintos Manarairema é atacada de roldão por duas enigmáticas invasões, que parecem comandadas pelos tais homens: primeiro, incontáveis cachorros; depois, um sem-número de bois. Em ambos os casos, não apenas as ruas são ocupadas, como também o interior das residências, ou seja, a intimidade das pessoas.

Os animais são presenças sufocantes, que imobilizam as pessoas e tornam inviáveis as cenas mais comezinhas do cotidiano, como ir à mercearia do Amâncio e dormir na cama. Chega-se ao ponto de criança muito pequena precisar ficar guardada no forno, “[…] único lugar da casa que podia oferecer alguma segurança” (p. 85).

Apesar de só haver inconveniências na matilha e na manada, a reação do coletivo se assemelha à da maioria dos principais personagens, ou seja, ocorre a capitulação. A pequena tentativa de resistência, principalmente na primeira invasão, é desorganizada. No caso dos cães, por exemplo, considerando-se rendidos, os moradores fazem de tudo para agradá-los, como se vê no trecho “Cachorros estranhos dormindo nas passagens eram respeitados mais do que crianças ou velhos, as pessoas passavam na ponta dos pés para não acordá-los […]” (p. 37); em relação aos bovinos, a naturalização da violência é ainda maior, pois o incômodo não é com os ruminantes ocupando ruas e casas, e sim com a possibilidade de estouro de boiada, como se desde sempre eles entupissem todos os vãos do povoado. Enfim, uma passividade bovina.

Pode-se dizer que o comportamento dos manarairemenses é uma alegoria do povo brasileiro real? Ou, quem sabe, seria a representação do povo brasileiro fabricado, ou seja, o famoso estereótipo construído acerca de seu temperamento?

Na Física há um princípio que diz que dois corpos próximos um do outro, com temperaturas diferentes, tendem ao equilíbrio térmico. O povo brasileiro, acredito, segue preceito similar, buscando o equilíbrio social e político, ainda que isso signifique algum grau de adesismo e de renúncia ao que seria ideal. Nesse sentido, a alegoria presente em A hora dos ruminantes, quanto ao comportamento dos habitantes do lugar, refere-se ao povo brasileiro, não ao seu estereótipo, pois neste é nítida a face pejorativa da preguiça e da covardia. E não são essas as razões da inércia do povo de Manarairema: faltam-lhe instrumentos dados pela conscientização social. 

Com o mesmo sem quê nem para quê de suas aparições, cachorros e ruminantes vão embora após algum tempo de ocupação. No caso dos cães, o resultado é apenas um alívio, mas em se tratando dos bovinos a população faz festa na rua, ao redor de fogueira. Retorna uma alegria há muito desaparecida, é “Gente cantando desafinado nas ruas, atolando-se com botina e tudo, bandos correndo daqui para ali […]” (p. 95). O povo comemora uma libertação para a qual não se empenhou.

Um dia após a festa, a notícia: “Os homens foram embora” (p. 100). E, assim como os movimentos de chegada e saída dos cachorros e dos bovinos, não se sabe a causa da decisão dos acampados, mas Geminiano supõe que o motivo tenha sido o suposto medo que eles sentiriam da população.

A hipótese me parece despropositada, afinal a população sempre se mostrou bem manipulável e omissa, mas a felicidade da libertação gerou uma energia inesperada, forte bastante para opor reação, e é desse afeto que talvez eles tenham escapado. Ou a coisa é bem mais simples: deram por cumprida sua tarefa, qualquer que tenha sido. Provavelmente, intervir na cultura local de modo tão poderoso que não haja mais volta possível e, assim, abrir espaço para o “progresso” que Amâncio tanto advoga. E a intromissão é vigorosa, mostra resultados, como diz Manuel Florêncio a respeito dos muitos centímetros de estrume amolecido que os bois deixaram de presente nas ruas: “Secar não é nada. Pior vai ser o resquício. Vamos ficar com ele no goto por muito tempo, pode ser até pelo resto da vida” (p. 99). O excremento desempenha papel simbólico e a frase também.

Qualquer que seja a causa da saída dos homens da tapera, é possível que o tempo tenha estacionado enquanto eles se mantiveram no acampamento. É o que sugere o último parágrafo do romance: “O relógio da igreja rangeu as engrenagens, bateu horas, lerdo, desregulado. Já estavam erguendo o peso, acertando os ponteiros. As horas voltavam, todas elas, as boas, as más, como deve ser” (p. 102).     

Finda a leitura, uma questão me vem: no título do romance, “ruminantes” pode não se referir aos bois, ou pelo menos não exclusivamente: pode ser os sujeitos de Manarairema, que encontram sua hora ao retomar o próprio tempo – de que o relógio da igreja é símbolo -, com a saída dos homens. Eles, os sujeitos, sem o perceber, encontram a saída ao não reagir violentamente às invasões, ao tentar conviver com a nova cultura que os acampados trazem. O povo rumina, inconscientemente, o pacifismo.

Isso é solução? Bom, aí a gente sai da literatura e ingressa em outra área.

Referência:  VEIGA, José J. A hora dos ruminantes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.

3 comentários em ““A HORA DOS RUMINANTES” E O POVO BRASILEIRO – Eduardo Selga

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    1. Oi, Paula. O curioso é que o Brasil é uma Macondo, com sua sociedade de comportamento surreal, mas na ficção isso ainda não foi suficientemente demonstrado, ou seja, não há uma obra de ficção de peso dentro do Realismo Mágico ou Fantástico de autor brasileiro que construa uma Macondo com referências fortes ao Brasil e ao seu povo.

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