STABAT MATER – Paula Giannini

“– Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. (…) Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. (…) E, ao termo de seus dias, à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente.” (Apocalipse 12, 1-6;13-17).

(Janaína Leite – Stabat Mater)

São 14 horas de uma quarta-feira e chego ao CRDSP – Centro de Referência da Dança de São Paulo –, em pleno centro da cidade, no Anhangabaú, para assistir, na MIT – Mostra Internacional de Teatro –, ao workinprogress, abertura do processo de trabalho de ensaios do espetáculo Stabt mater, de Janaína Leite, com estreia marcada para junho, na concorrida V Mostra de Dramaturgia de Pequenos Formatos do CCSP. Já na entrada, percebo que a audiência lota a sala na qual somos recebidos pela amigável garçonete de seios à mostra, e rosto escondido pela cabeça do Ursinho Puff, com um simpático copinho de gim.

Surpreendo-me.

Não tanto pelo gim, menos ainda pelo Ursinho Puff ou o corpo nu, mas, certamente, por ver o texto, que tive o privilégio de ler há algumas semanas, aos poucos criando forma.

É sempre belo o trabalho de nascimento da arte. A este me ligo afetivamente, de certa forma, por travar conhecimento prévio não só com a dramaturgia, bem como com a encenadora e autora, em algumas (poucas) reuniões no mesmo CCSP. E, se empatia é a palavra-chave, confesso estar me tornando uma empata (de empatia, que fique claro) quase patológica com a idade – uma empatopata – com o perdão da licença poética.

A encenação inicia

Stabat Mater, da premissa ao resultado final não é (não será – a peça só fica realmente pronta em junho) nada fácil para o espectador. Talvez o gim ajude… A encenadora brinda a plateia com o boa-noite-cinderela ao qual ela própria, atriz-personagem, se submeterá durante o espetáculo. Ou, melhor, ao apagão do entorpecimento ao qual a própria autora foi submetida, e que agora narra à plateia em um tipo de teatro que se convenciona chamar teatro-documental ou autobiografia-dramática.

E não é fácil…

Não é fácil para a atriz se confundir com a autora que, por sua vez, imiscui-se em si mesma, persona real em cena.

Há algo na biografia que a torna um pouco ficcional. A visão do outro sempre será um tanto quanto “romanceada” ao passar pela lente do escritor, do ator, do diretor, do leitor, do púbico. Ao falar de si mesmo, no entanto, certamente há um distanciamento que igualmente torna em ficção a arte de mostrar-se por inteiro. E é assim que Janaína se mostra, artisticamente por inteiro, sem concessões ao falar de mulher, de(a) mãe, de si mesma.

Ao falar de si, ou talvez exatamente por isso, por se expor (quase) sem pudores, é que Stabat Mater narra, de certa forma, a história de todas as mulheres. Aqui, a palavra empatia é extremamente pertinente, ao saber que o que se assiste é –  guardadas as devidas licenças da autora – até certo ponto (ou totalmente) real; a espectadora (eu), coloca-se imediatamente no lugar da encenadora e um turbilhão de emoções que vão da pena ao nojo trata de corroborar com a catarse teatral.

Stabat Mater

Título em latim (estava a mãe, como nos explica a própria encenadora, durante a abertura de seu processo de trabalho), a obra questiona o papel da mãe em uma visão multilateral sobre a, mais que nunca urgente, questão da mulher no mundo. Assim, na confusão de sentimentos oriunda da traumática experiência de Janaína Leite (aqui não darei spoilers) em sua vida, a plateia se vê, igualmente lançada à reflexão.

Apresentada em um formato inicial de palestra, a peça explora a arraigada visão ocidental da mulher como receptáculo, coisa santificada e demonizada, desde a concepção da Virgem, inocente e “sem pecado”, passando por contos de fadas infantis, filmes de terror, e outros momentos, culminando na culpa e no aviltamento da presença da mulher no mundo – ao apresentar mais um de seus papéis na Bíblia –, como a figura que dará a luz às trevas – no Apocalipse.

Mas, onde estará a mãe, em toda essa estrutura pensada pela dramaturga? Onde? No todo. Em tudo. A mãe ESTÁ. Ela sempre está. Onipresente no calvário da crucificação do(a) filho(a), vendo-a nascer, crescer, sofrer. A mãe sempre está e a de Janaína Leite, que fique claro, não é atriz, estará de corpo presente em cena para seu julgamento, condenação e absolvição. Aqui, não há como não recorrer ao clichê “ser mãe é padecer no Paraíso”. E é. Estará a mãe de Janaína em cena, mas, ainda o estaria, mesmo que não desse o ar de sua graça no palco. Estaria ela, como estamos todas em cada momento do(a) filho(a), a partir do momento em que se pari, que se concebe.

“Entendi algo sobre a maternidade: se a corda afrouxa, é a mãe que cai” – diz o texto a certa altura. A fala cala fundo aqui na espectadora-empata. É a mãe que cai. E é. É ela quem cai. É quem se acusa, se julga, e já se condena, pois já sabe que deverá sofrer no Paraíso.

A apresentação termina, e, creiam-me, há bem mais em cena do que o que foi dito aqui. Ainda não conheço o resultado final, mas o processo é, sem dúvida impactante, e ecoa por dias no imaginário sensorial da espectadora (eu).

No final, passamos pela atriz no palco, suja de sangue-groselha, Janaína Leite providencialmente se protege de meu impulso de tocá-la, pegá-la no colo, talvez efeito do boa-noite-cinderela. Ops, do gim. Sua história é dura de engolir. É dura para qualquer mulher. Será para qualquer mãe, inclusive a dela. A empata patológica aqui volta a se manifestar.

Não sei se, como atriz, dramaturga e encenadora que também sou, minhas escolhas, se no lugar dessa mulher de teatro, seriam as mesmas. Não seriam. Certamente não. No entanto, é aí que reside a beleza de tudo. Somos todas tão múltiplas e dissonantes, que conseguimos, de algum modo, tocar e entender a mesma música.

A que assistir

STABAT MATER

Estreia 21 de junho no Centro Cultural São Paulo.

Sala Ademar Guerra – de sexta a domingo.

Ingressos: 20 reais.

Classificação etária: 18 anos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

Crie seu site com o WordPress.com
Comece agora
%d blogueiros gostam disto: