PASTOR CLÁUDIO E A IGREJA INVISÍVEL – Lezir Ishigawa

Eu não sei se é o céu ou o inferno
Qual dos dois você vai ter que encarar
E foi pra não lhe deixar no horror
Que eu vim para lhe acalmar

(Raul Seixas)

Quem viveu no Espírito Santo à época da Ditadura Civil-Militar conhece bem o Delegado Cláudio Guerra, emérita figura do Regime, muito temida por bandidos de todas as classes sociais, a ponto de políticos almoçarem e tomarem cafezinho com ele. Não que receassem serem surrados e mortos por seus assaltos aos cofres públicos, como o delegado atuava em relação aos assaltantes de residências, mas a proximidade dele com a cúpula da repressão fazia com que fosse oportuno tê-lo ao lado ou, ao menos, não tê-lo como adversário.

Mas ele não era, como pode dar a entender, alguém zeloso do senso de justiça, conforme exigia seu cargo público. Esse é um conceito que certamente passava longe quando ele executava os presos políticos ou incinerava seus corpos arrebentados na caldeira da Usina de Açúcar Cambaíba, em Campos dos Goytacazes, sob ordens do Serviço Nacional de informações (SNI) e de Freddie Perdigão, um militar que, assim como Brilhante Ustra, é hoje considerado pela direita brasileira um herói por sua atuação violenta contra a esquerda.

No longo depoimento que compõe o documentário Pastor Cláudio (Brasil, produção de 2017, lançada em 2019), o ex-delegado da Polícia Civil capixaba insiste que se fez o que fez foi somente porque era muito leal aos seus superiores e à hierarquia, não em função de convicções políticas. Por sinal, a mesma premissa usada pelos oficias nazistas para assassinar pessoas nas câmaras de gás. A supostamente neutra obediência. A alegação insinua ser possível suspender os afetos humanos ao executar e incinerar pessoas apenas porque se trata de ordens a serem cumpridas. Como é possível cometer tais atrocidades sem concordar com elas de alguma maneira?

Essa e outras desconfianças, e até certa irritação, é uma constante no olhar do psicólogo Eduardo Passos, ao entrevistar o agora pastor Cláudio, ao passo que este adquire um olhar e uma postura apequenadas na sala escura onde ocorre a entrevista, com projeções ao fundo de vítimas da Ditadura, familiares e imagens pertinentes ao tema. Imagens essas que, por sinal, também “ilustram” o rosto de Guerra durante os 76 minutos de duração do filme. Sua figura humana fica ainda menor ao percebermos que está sempre portando uma Bíblia, como se fora um salvo-conduto; que algumas vezes a aperta, demonstrando angústia (por estar mentindo ou por estar falando a verdade?).

Duas escolhas estéticas da diretora Beth Formaginni se mostram essenciais à ótima qualidade do documentário: o fato de entrevistador e entrevistado estarem frente a frente e pertencerem a polos contrários (um pertence à destruição humana; o outro, à construção interna do Homem), e a já mencionada projeção de imagens.

No primeiro caso, porque a sala é escura, Guerra não consegue muito fugir aos olhos perscrutadores de Eduardo, sobre quem recaem muitos closes que reforçam essa agudeza. Embora não consiga, constantemente Guerra procura pontos de fuga, como se sentindo acuado.

Seria esse elemento demonstração do homem, que se acredita recuperado por Jesus, premido por ter de lembrar-se de seu papel histórico? O documentário não aborda explicitamente essa dicotomia entre o homem de ontem e o de hoje. Como que pretende deixar por conta do espectador crer ou não na possibilidade de remorso verdadeiro, diante do conteúdo das revelações, das hesitações, do engolir em seco, do distanciamento emocional em muitas ocasiões.

Por vezes, entre Cláudio Guerra e as imagens projetadas, surge uma espécie de segundo personagem: a sombra dele. O efeito estético é primoroso, porque enquanto o ex-delegado fala é como se surgisse ao fundo seu alter ego. Fazendo uma alegoria com o processo fotográfico, o “positivo” em cores faz seu discurso, em que há friezas, crueldades e talvez arrependimentos. Este é o homem Cláudio Guerra. Enquanto isso, o “negativo”, o Cláudio Guerra histórico, está atrás, lembrando o espectador do passado ao replicar os mesmos gestos da “matriz”.

É em especial impactante essa impressão quando ele se levanta para “reconstituir” a execução do militante político Nestor Vera e diz que foi “um gesto de misericórdia”, dadas as condições físicas do torturado. A sombra faz com uma das mãos o gesto de “arminha” (e qualquer relação com as forças que assumiram o poder no Brasil não é mera coincidência); a outra mão, mais abaixo, está aberta, pois é a que segurava a cabeça do militante, mas também lembra um gesto de cortesia. Assim sendo, temos o revólver atirando na gentileza, o atual domínio da brutalidade num discurso que deveria ser apenas a ilustração do passado.

Hoje o pastor Cláudio, cujo sobrenome, numa dessas ironias da História, não poderia ser mais adequado, milita em uma igreja perfeitamente visível, mas no passado sua igreja era de outra natureza, nada cristã, e invisível. Trata-se de uma tal “irmandade”, e ele se refere a essa organização como financiadora e mantenedora do golpe civil-militar, composta por empresários, parte da maçonaria e bancos, entre os quais Guerra cita nominalmente os hoje extintos Banco Mercantil de São Paulo e o Banespa.

A estrutura, a ideologia e o modus operandi desse agrupamento ainda permaneceram vivos pelo menos até 2005, segundo ele, adaptados à nova realidade e, penso eu, certamente a existência das milícias, principalmente no Rio de Janeiro, tem suas raízes na “irmandade”. Ela ainda é de tal maneira influente que o ex-delegado demonstra claro receio ao falar da organização, e com certeza não disse tudo o que sabia no documentário. Medo de morrer, logo ele que matou tantos em nome de uma ideologia?

Por que uma estrutura que contava, entre outros agrupamentos, com a tristemente famosa Scuderie Detetive Le Cocq, sobreviveu vinte anos após o término oficial da Ditadura, e na verdade ainda não morreu? Uma das respostas é dada pelo entrevistado, e não se trata de nenhuma novidade: “Por que a Ditadura não acaba? Porque não teve punição para ninguém!” (nem mesmo para ele, que nunca foi arrolado em nenhum inquérito).

Importante observar um detalhe fundamental: ele diz “acaba”, verbo conjugado no presente do indicativo. Ou seja, quem conhece os intestinos da Ditadura por ter sido seu funcionário exemplar diz que vivemos em uma. Teria sido ato falho?

Acho que não. Ato falho mesmo acontece ao dizer que quando a direita venceu as eleições no Espírito Santo, após o retorno da democracia, ele foi perseguido e prejudicado em sua aposentadoria de servidor público. Entretanto, ele quis se referir à esquerda. A falha inconsciente se justifica porque ele de fato foi lesado, mas pela direita, pela “irmandade”. É que o ex-delegado recebeu ordens dela para viver em outro país, com documentos falsos, mas se recusou. A partir daí, perdeu propriedades e influência no aparato repressivo.

“Hoje eu sou leal a Deus”, ele afirma a certa altura, em contraposição à fidelidade que devotava ao Regime por puro senso de dever. Seu Deus à época era a obediência, não a ideologia de extrema-direita, ele diz. Apesar disso, ele gostava de abrir os sacos pretos dentro dos quais os corpos lhe chegavam para a incineração, de modo a ver de quem se tratava. O nome disso, para mim, não é mera curiosidade, ao contrário do que Cláudio Guerra diz: é sadismo. Apesar disso, ele não fazia o que fazia por convicção ideológica. Então tá.

Se fosse factível, resultaria muito positivo se BethFormaginnie EduardoPassos tivessem entrevistado Deus. Seria bom saber o que ele acha de receber em sua igreja alguém tão obediente.

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