OUVINDO A FREQUÊNCIA KIRLIAN – Fil Felix

“A polícia local informa à população que ainda não foi possível capturar o animal selvagem que está gerando terror na cidade e que já deixou três vítimas desde a noite de quarta-feira. Pede-se que o público permaneça em segurança até que a situação com a criatura tenha sido controlada. Vocês estão ouvindo a Frequência Kirlian, 96.6, a noite toda, todas as noites”.

É assim que começa a Frequência Kirlian, uma websérie animada argentina que estreou originalmente em 2017 com uma temporada de cinco episódios curtos, com cerca de dez minutos cada, e que recentemente migrou para o catálogo da Netflix. Inspirada em séries como Além da imaginação, Twin Peaks e Contos da cripta, ela narra os estranhos acontecimentos que ocorrem em Kirlian, uma cidade do interior de Buenos Aires, utilizando um formato também conhecido dos fãs de terror e suspense: o rádio. Cada episódio começa com o locutor da LFK 96.6 apresentando a Frequência Kirlian, o programa que vai ao ar “a noite toda, todas as noites”. Além de ele contar os causos macabros e assustadores que cercam a cidade, ele também atende a telefonemas dos moradores.

Interessante comentar que a série foi criada por uma equipe pequena, com Cristian Ponce no roteiro, direção e animação; Hernán Bengoa na ilustração, mas também no roteiro; Hernán Biasotti no design de som; Marcelo Cataldo na música original. Os quatro conseguiram criar um visual bastante único, que em nenhum momento mostra com nitidez os rostos das personagens, que ganham contrastes pelo cabelo ou acessórios que usam. A trilha sonora é excelente, o locutor quase sempre finaliza o episódio com uma música (afinal de contas é uma rádio), que sempre se encaixa e dá a atmosfera certa aos acontecimentos e sequências finais. Os efeitos sonoros também nos colocam dentro de Kirlian, além de remeter aos filmes e séries antigas, trazendo aquela sensação de nostalgia.

Seguindo o formato de antologia, cada episódio trabalha sozinho, mas vai construindo aos poucos todo o imaginário da cidade. “O País de abril”, que abre a temporada, é quando conhecemos o programa Frequência Kirlian e seu locutor, que precisa resolver um assunto um tanto delicado… se livrar de um estrangeiro que quer expor a cidade ao mundo. Já no segundo episódio, “Mestres da noite”, uma mulher dirige até a cidade para visitar uma amiga, que havia ido à frente e sofreu um acidente. Vamos percebendo que Kirlian, na verdade, é uma cidade quase escondida, onde ninguém entra e sai ileso, além de protegida pelos próprios moradores. O locutor deixa claro que a polícia não trabalha de noite, e que é justamente à noite que todo tipo de evento começa a acontecer pelo lugar: vampiros, lobisomens e bruxas são só alguns exemplos.

O terceiro episódio, “Uma nova cor”, é um dos mais emblemáticos e aproxima Kirlian à nossa realidade. Uma moradora liga para o programa e faz uma denúncia: estão pichando os muros e monumentos da cidade e isso não pode continuar. O que se sucede é um interessante debate entre o locutor e a moradora, que é uma senhora, a respeito de arte e expressão. Ele questiona se pichação é arte, se não seria essa a nova forma de se expressar da juventude. Ela diz que o grafite está levando a cidade ao abismo. O locutor, que se mantém na neutralidade, expõe o conflito de ideias entre as gerações, algo que ocorre na vida real o tempo todo. Não sei se lembram, mas em 2016 dois monumentos da cidade de São Paulo, o Monumento às Bandeiras e a escultura do Borba Gato, amanheceram pichados de rosa, verde e azul, incitando uma discussão em torno do pixo, como é conhecido nas ruas, como também a respeito dessas mesmas obras que homenageiam bandeirantes, colocando em debate e desconstruindo a ideia de herói associada a eles. Coincidentemente (ou não), a estátua pichada na série também representa um herói local. Aqui em São Paulo as obras foram limpas e restauradas, mas em Kirlian se resolve a situação de outra maneira!

Em seguida há o especial “O Rei do Natal”, com o locutor tentando comemorar a data festiva em abril, mês em que a cidade ficou presa. Aos fãs de Stephen King é um prato cheio! Uma garotinha liga para o programa e diz tudo que vem acontecendo na vizinhança, somos mergulhados numa trama de mistério envolvendo alienígenas e poltergeists, com várias referências às obras do rei do terror.

O episódio que fecha a temporada, “Um velho e seu cão, é uma espécie de conto que funciona para reforçar a ideia de que Kirlian é uma cidade perdida no mapa. Nele, um jovem passa a visitar e ajudar um idoso que utiliza cadeira de rodas e não consegue passar pela porta da cozinha para beber água. O velho é atormentado pelo cão do vizinho, que não para de latir, e pede ao garoto para matá-lo.

A Frequência Kirlian é uma ótima sugestão aos fãs de horror e suspense, trazendo as clássicas fórmulas de rádio noturna, cidade do interior fora do mapa e acontecimentos bizarros, além de um design de produção excelente, criando sua própria identidade em meio a tantos lançamentos. Por ser argentina, o único erro foi a Netflix não disponibilizar o áudio original em espanhol, que está presente somente no trailer.

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