ARTE, EXPRESSÃO PLURAL E RESISTÊNCIA – Cinthia Kriemler

Iniciar qualquer coisa é sempre um desafio. Mas os desafios são bons, porque obrigam ao desconforto, ao abandono das zonas de segurança em que nos entrincheiramos. Escrever uma crônica deveria ser algo fácil. Não para alguém acostumada a escrever furacão. As crônicas demandam uma abordagem real. Sem personagens ou licenças poéticas que ajudem a compor a trama. Por isso demorei algum tempo imaginando que assunto gostaria de abordar nesta crônica de abertura. Tantas coisas a dizer. E todas elas acabavam por conduzir o pensamento ao momento atual do país. Um pensamento clichê, é verdade. Mas nem por isso menos importante. Escrever alguma coisa com clareza. Porque esta não é hora para textos rebuscados. Uma metáfora aqui, outra ali, como suporte às ideias, mas nada mais que comprometa a compreensão da fala. Complicar o discurso é um risco neste momento em que a interpretação das ideias passa por um cabo de guerra. É preciso não confundir, mas, antes, estender a mão das opções.

Então, por onde começar?

Pelo caos. O caos que é desordem e conflito. Que é início e base. Que é treva. Que é ponto de partida. Afinal, de onde mais brotariam o criativo, o belo, o instituinte, as artes, senão do caos? E que caos seria mais significativo do que o cenário deste país doente, tão necessitado de se reinventar como espaço público? Sim, Habermas. Que nos oferece a possibilidade dessa esfera pública: um lugar de convívio dos cidadãos “fora da vida doméstica, fora da igreja e fora do governo”, por meio da interação, da troca de opiniões e da discussão de ideias, tendo a liberdade e a igualdade como pano de fundo. “Um fórum para onde se dirigem as pessoas privadas a fim de obrigar o poder público a se legitimar perante a opinião pública”.

Mas, ainda assim, dentro do caos, como decidir sobre um tema, e apenas um, que pudesse provocar um debate? Afinal, são tantos os assuntos quando se fala do país. Todos eles urgentes. Todos amalgamados. Impossível falar da educação deficitária ou inexistente, da saúde, da falta de segurança, sem recorrer ao social. Impossível falar do social esfacelado sem citar a economia perversa. Impossível falar da economia desgovernada sem denunciar a pobreza avassaladora, cada vez mais empurrada para algum lugar de invisibilidade e esquecimento. Impossível falar de pobreza sem falar de dominação. Impossível falar de dominação sem falar das religiões e seitas que promovem o caminho do fanatismo para controlar as massas. Impossível dialogar sobre qualquer coisa sem esbarrar nas palavras corrupção, fake news, ditadura, manipulação (antes fossem apenas palavras).

Vivemos um cotidiano de podridões banalizadas. Fomos e estamos sendo atingidos por uma assombrosa falência civilizatória. E mesmo que a alguns, por esperteza ou por ignorância, não importe nada disso, nada impedirá que a degeneração da ética e da decência venham engolir a todos.

É como um looping lisérgico. Uma bad, bad trip que não cessa.

Descartei a esperança como tema de conversa. Escrever sobre utopias quando quase tudo o que nos cerca é violência, preconceito, prepotência, despreparo e ignorância seria forçar a barra. A minha, pelo menos. O momento não é para ingenuidade ou alienação.

Mas é preciso trabalhar para que os nossos medos e as nossas ansiedades e tristezas e inseguranças e frustrações e raivas e indignações não se tornem maiores do que nós, maiores do que nossa vocação para a resistência. É preciso dar vazão à impotência por meio de alguma coisa que ninguém pode tirar de nós.

Foi aí que pensei na Arte. Que é hora de testarmos a nossa capacidade de criar beleza no centro da tormenta. Uma demanda urgente e inadiável: percebermos e estimularmos o nosso poder de expressão. O nosso poder de transformar a dor, o desânimo, a frustração, os desatinos em alguma luz que ilumine o caminho não apenas para nós mesmos, mas para outros pés cansados.

Na Arte, a mão estendida. O oxigênio sobressalente. Um trajeto para todos. Mas por isso, exatamente por isso, também o objeto primeiro da perseguição política dos regimes totalitários.

Arte. Essa força temida e combatida pelos dominadores. Porque é liberdade. Porque inunda de possibilidades as mentes. Porque instiga ao pensamento, à visão, às novas escolhas, à reordenação. Porque é tudo o que não se cala. Arte. Que é livro, escultura, palco, pintura, música, artesanato, oratória. É cordel, soneto, narrativa, poesia. É argila, é barro, é metal. É Villa-Lobos, Sivuca, Gonzaguinha. É samba, balé, frevo, quadrilha. É sertão, pampa, periferia. É expressão, é grito, é diversidade. Essência que se esparrama em formas diversas, remédio que salva da loucura. Sobrevivência plural.

Gosto de pensar que a Arte é uma grande empreitada. Um jeito de impedir que nos apaguem de qualquer história. Porque é isso que eles querem e tentam. Mas não vão conseguir. Afinal, tudo o que eles têm conseguido ser é uma distopia mal escrita. Enquanto que nós seguimos sendo realidade pela resiliência. Ou, como disse Nietzsche: “Se nós temos um porquê na vida, nós nos daremos bem com quase qualquer como”.

Cinthia Kriemler

Referências:

HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003a.

NIETZSCHE, Friedrich. Twilight of the Idols. Capítulo Maxims and Arrows. e-book.

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