NOSSA SOLIDÃO COTIDIANA – Fil Felix

É comum ouvirmos que uma de nossas características básicas, enquanto seres humanos, é que precisamos viver em sociedade. Somos inseridos na coletividade desde o nascimento até à morte, da escola ao trabalho. Criamos a civilidade, modelos de política, ética, conduta, maneiras de se comportar em relação ao outro e também a nós mesmos. Mas numa época em que possuímos a maior quantidade de facilitadores, com a tecnologia podendo aproximar as pessoas, por que a cada dia que passa nos sentimos mais distantes uns dos outros?

O filósofo Zygmunt Bauman (1925-2017), em seus estudos sobre a liquidez de nossa sociedade, dizia que um dos males da modernidade está justamente nessa sensação de solidão. As pessoas se apegaram a números, com centenas ou milhares de amigos e seguidores nas redes sociais, mas em sua intimidade se sentem sós. Até mesmo na realidade, no mundo concreto, somos capazes de estar em meio à multidão, num ônibus ou elevador cheios, mas ainda assim sentir uma sensação de isolamento.

O artista norte-americano Edward Hopper (1882-1967) foi célebre em retratar a solidão de sua época, principalmente do início do século XX, e sua visão de como as pessoas foram afetadas pelas guerras que assolaram o mundo; de como viviam o modo de vida americano (o american way of life), mostrando como esse tema não é algo exclusivo de nossa época, como também não é ocasionado pelo excesso de tecnologia. As obras de Hopper, em muito inspiradas no trabalho de Freud e seu estudo O mal-estar na civilização, nos diz que a solidão e o sentimento de vazio são praticamente característicos do ser humano que vive nas grandes metrópoles, contrastando com o paradigma de sermos programados para viver em sociedade, num coletivo. A maldição da modernidade, como dizem.

As telas de Hopper são como naturezas-mortas, mas no lugar de arranjos florais e frutas temos personagens estáticos e desolados. Também são como paisagens, mas no lugar de florestas e campos temos os centros urbanos e rurais como pano de fundo. Seu quadro mais famoso e também icônico, Nighthawks ou Aves da noite (1942), retrata pessoas num restaurante. Não há comunicação ou qualquer interatividade entre as personagens. A solidão do homem sentado sozinho no balcão é ampliada por conta do casal do outro lado. Há um silêncio que percorre toda a pintura, um silêncio característico em todos os seus trabalhos. A iluminação do restaurante contrasta com a luz da rua, como se a cena fosse uma construção artificial, e o próprio formato triangular do restaurante não apresenta uma porta pela qual as pessoas possam entrar ou sair.

Outro ponto a respeito das obras de Hopper é que elas se comunicam instintivamente conosco. Mesmo com toda simbologia nas entrelinhas, por debaixo de cada pincelada e objeto pintado, suas cenas conversam com o espectador sem a necessidade de qualquer mediação, graças à ambientação que ele cria. Hopper, inclusive, jamais gostou de explicar seu trabalho. O silêncio presente nas cenas é quase gritante e, ao mesmo tempo, sufoca. A solidão de suas personagens expressa o vazio existencial que aflige muitos.

Um tema frequente em seu trabalho é alguém no quarto, sentado ou deitado na cama, observando o dia passar pela janela. Como se aguardando a chegada de um ânimo, da vontade de levantar, um motivo para continuar vivendo a mesma rotina.

As janelas e, principalmente, a iluminação através delas, é outra característica marcante em sua obra, quase uma maneira de separar, literalmente, o mundo interior da personagem — com todas as suas indagações, frustrações e ansiedades — do mundo exterior, — a sociedade lá fora, o trabalho e obrigações sociais —. Inclusive, um dos meus quadros preferidos, Morning sun (1952), e que ilustra este artigo, expressa exatamente isso: a nossa solidão cotidiana, o despertar para um novo dia, aquele minuto precioso em que paramos para refletir e repensamos nossa vida, nos questionando… O que estamos fazendo e para onde estamos levando nossa vida? Pergunta acerca da qual muitos fantasiam uma resposta, mas que, no fundo, ainda não sabem o que dizer.

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