A ALEGORIA DE UM POSSÍVEL BRASIL FUTURO – Lezir Ishigawa

Os noventa minutos de O último trago (Brasil, 2019) não são simples de serem decodificados por quem está colonizado pela estética norte-americana, que exige muito palavrório, não raro construindo frases de efeito na boca de personagens que parecem não ser oriundos de um processo histórico. É como se tivessem surgido do nada ou de si próprios. A mulher fatal do cinema norte-americano, por exemplo, representa um comportamento estereotipado da mulher, construído pela cultura de massa, não pela realidade, como que pretendendo moldar as mulheres reais ao modo de ser das personagens fictícias.

O espectador que não tenha a mínima consciência da ancestralidade brasileira e latino-americana também se incomoda com o filme dirigido por LuizPretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti, pois terá a sensação de que a narrativa tem uns personagens artificiais num enredo meio descabido. O filme pode remeter, para esse espectador, ao cinema autoral. Como o saboroso mesmo é consumir clichês que não nos pertencem enquanto povo, ao menos não originalmente, certo espectador fará aquela cara de quem comeu e não gostou.

São três momentos dramáticos: no primeiro, à guisa de prólogo, um homem, após um banho de mar, dirige nu uma picape e salva uma mulher na beira da estrada quer mostrava grande dificuldade em andar. Num momento posterior, e já em condições razoáveis de saúde, a stripper rompe o silêncio que domina a sequência desde o primeiro take: lê para si mesma uma carta assinada por uma tal Valéria (Samya De Lavor), já falecida e que incorpora nela quando de suas apresentações na boate na qual trabalhava.

No segundo momento, e principal do ponto de vista do desenvolvimento da trama, uma mulher é atirada de dentro de um carro numa estrada de terra, e temos a imediata sensação de que se trata da stripper. Entretanto, não há relação imediata entre ambas, embora simbolicamente haja. Marlene (ElisaPorto) também é amparada, dessa vez por um dos dois proprietários de um bar no meio do nada.

Essa bodega, onde só há cachaça para ser vendida, é um espaço um tanto surreal, pela sua localização; pelo fato de que, nas palavras de um dos personagens, funcionar como pouso de pessoas que não pertencem ao lugar (onde não há uma cidade ou vilarejo), mas não se sabe para aonde vão nem de onde vêm. Outro elemento surreal é que Marlene passa a trabalhar como atendente, junto aos proprietários, no entanto, a quantidade de clientes do bar e sua lucratividade não comportam essa “superpopulação” de balconistas.

Além da estrada, outro elemento que liga Marlene à stripper é que ela também dá um show no estabelecimento. Não com o seu corpo, e sim com a voz: ela canta e fascina, acompanhada por um cliente violeiro sempre em silêncio. Aliás, os homens pouco falam na trama. Quando o fazem, isso acontece algumas vezes nas seguintes situações: bebedeira, o uso de um Português quase ininteligível, declaração de homoafetividade.

Um personagem alcoólatra que parece funcionar como uma caricatura do intelectual pedante, senhor de um discurso desconectado do ambiente porque cheio de “palavras difíceis”, diante de documentos escritos que sugerem ter sido o lugar onde está o botequim um núcleo armado de resistência política, é o responsável por chamar uma médium, para mal velada descrença de Marlene. Eis o ponto de passagem para o terceiro núcleo dramático.

Aí fica evidente a dimensão ideológica do filme. Se nos dois anteriores os aspectos estéticos são ressaltados, agora, sem que se abandone a estética, as minorias políticas (mulher e índio) se mostram protagonistas da história. É revelado pela médium que na região houve uma revolta liderada por quatro mulheres, uma das quais Valéria, uma indígena. Todo o grupo de líderes e liderados foi morto, e o terreno onde está o bar é o cemitério. É nessa porção do filme que vemos Valéria dizer diretamente para a câmera, ou seja, para o espectador: “é hora do protesto geral” e “miséria de todos os países, uni-vos”.

A personagem Valéria, portanto, é o espírito da rebeldia política feminina e indígena, habitando um universo surreal que lembra muito a falta de coerência do Brasil contemporâneo, nossa recusa em abrir as páginas de nossa história para nos conhecermos.

Pode ser que haja um cemitério esperando pelo povo brasileiro.

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