CAPITÃES DA AREIA: A LINGUAGEM – Eduardo Selga

Muito há que se analisar quando se lê Capitães da areia (1937), de Jorge Amado, obra pertencente à fase em que suas preocupações sociopolíticas eram latentes. Apesar disso, seria um erro imenso entender o romance apenas como um discurso inserido no espectro ideológico de esquerda. Certamente a formação política do autor, que em 1945 foi eleito deputado federal constituinte pelo PCB, está presente na trama e nos personagens, mas a beleza de um lirismo distante da insipidez esquemática, e que brinca de ciranda com o verso de Manuel Bandeira que diz Não quero mais saber do lirismo que não é libertação” (p. 75), impede que o romance seja panfleto. Aliás, acusar Capitães da areia desse pecado é fácil para quem não lê o livro adequadamente, e se dá por satisfeito apenas com as fortes imagens da superfície que, se de um lado podem incomodar, por outro se encaixam perfeitamente a certos estereótipos que se tem no senso comum sobre crianças de rua.

Meu intento é, nessa edição de O Imaginário, comentar alguns aspectos constitutivos da obra, cujos expoentes são a sua estrutura, os personagens e a trama; na próxima, se nada der errado, discorrerei sobre dois dos personagens que enriquecem muito a narrativa, Sem-Pernas e Dora, membros da coletividade de crianças conhecida na Salvador do romance como “capitães da areia”, onde há leis não escritas, código de ética e todos atuam em prol do todo. Não obstante, têm suas individualidades respeitadas, exceto em se tratado de relações homoafetivas, por eles consideradas desagregadoras do grupo.

“Vestidos de farrapos, sujos, semiesfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas” (p. 27): esses os mais de cem meninos que moram no abandono de um desativado trapiche que, por analogia, funciona como uma espécie de quilombo urbano infantil, no sentido de que é um núcleo de resistência à agressividade do meio social. Se bem que o Zumbi dos Palmares das crianças negras seja branco (ou no mínimo pardo) e de cabelos loiros.

Junto a ratos, é a partir do trapiche que planejam e realizam furtos para sobreviverem, liderados por Pedro Bala, um personagem que no desfecho do romance se torna um líder político popular, que é perseguido, encarcerado, mas que consegue fugir. Dois desses três eventos (perseguição e encarceramento) é uma representação literária de uma conduta corriqueira no mundo real em se tratando de lideranças populares, como, diga-se, aconteceu muitas vezes no Brasil. E, vamos combinar, ainda acontece.

Aliás, o ficcional “camarada Pedro Bala” (p. 231) tem uma equivalência com o histórico Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, na medida em que, quando se torna uma liderança política incômoda, é caçado pelas autoridades em vários estados, assim como aconteceu com o Rei do Cangaço. Bastante sintomático, nesse sentido, é o personagem ao fim do romance ser chamado de “Capitão Pedro” por militantes políticos. Não nos esqueçamos de que o Rei do Cangaço também era chamado de “Capitão”. É claro: de imediato se entende que o tratamento ocorre porque de ele é o maior dos capitães da areia, mas a analogia está presente, num segundo momento.  

A trama de Capitães da areia é o resultado das táticas usadas pelas crianças abandonadas de modo a conseguirem dinheiro a partir de furtos e invasão de residências. Com essas práticas, os meninos — e apenas eles — têm contato com a religiosidade católica, discursiva em excesso e pouco prática, e a afrodescendente, que é o oposto. Uma demonstração dessa religiosidade um tanto inútil é o diálogo entre Pedro Bala e Sem-Pernas, ao verem Pirulito, antigo colega de trapiche ordenado frade capuchinho, ensinar catecismo a crianças. Um diz para o outro: “A bondade não basta” (p. 202).

Também a partir da briga pela vida, cresce entre alguns personagens a percepção intuitiva do fenômeno denominado luta de classes, embora, por óbvio, não consigam expor dessa maneira as injustiças pelas quais passam. Intuem o mecanismo de exploração social, além do próprio Bala, os personagens Sem-Pernas e Volta Seca; os que não o percebem são Gato, Boa-Vida, João Grande, Professor, Pirulito e, posteriormente, Dora. No caso de Professor e de Pirulito, suas vocações artísticas e religiosas, respectivamente, os ajudam a sublimar o sofrimento e fazem com que não intuam suas causas.

Vamos a alguns elementos de construção textual que fazem Capitães da areia, publicado durante o autoritarismo do Estado Novo de Getúlio Vargas, ter a importância que ele tem na literatura brasileira.

A narrativa não começa com a trama em si: antes dela, o leitor se depara com uma série de recortes da imprensa soteropolitana a respeito do “[…] grupo de meninos assaltantes e ladrões que infestam […]” (p.10) a capital baiana e fazem o inferno dos ricos. Mais especificamente, seria um material extraído das páginas de um vespertino chamado Jornal da Tarde.

Ocorre, todavia, que semelhante órgão de imprensa nunca existiu de fato em Salvador. Logo, não são factuais as duas reportagens (apenas uma, na verdade, pois da segunda apenas o título é mostrado), as duas cartas de leitor e as três notas de esclarecimento. Apesar de não ser a reprodução de textos de fato publicados em jornal, a presença desses gêneros textuais que se distinguem estruturalmente do ficcional confere a este ares de confiabilidade, como se não se tratasse de um romance e sim de um relato verídico. Com esse recurso simples e engenhoso, que se repete com menor intensidade ao longo da narrativa, o autor desarma parcialmente a descrença de um leitor que, ao tomar o livro nas mãos, sabe-o ficção. É como se todos os eventos narrados tivessem acontecido de fato, e do modo como foram expostos.

Alguns elementos que contribuem para esse efeito: 1) o coloquialismo do narrador, inclusive em contraste com a suntuosidade do texto jornalístico apresentado. Tamanha pompa se justifica porque o público leitor é a elite instruída; 2) uma arquitetura de pessoas ficcionais e situações absolutamente críveis para quem conhece a realidade social brasileira, de hoje e de sempre, e a espacialidade de Salvador; 3) o fato de o autor “batizar” um dos personagens, um menino sertanejo que a vida trouxe para a capital baiana, de Volta Seca, nome de um cangaceiro que de fato pertenceu ao bando de Lampião. O Volta Seca do romance é afilhado do Rei do Cangaço e termina por se juntar ao seu bando, ao fim da narrativa, de modo a dar vazão ao ódio profundo que sente contra os policiais. Ou seja: é como se o Volta Seca real tivesse sua origem em um trapiche em ruínas na cidade de Salvador, junto a meninos abandonados; 4) uma das cartas de leitor, como já disse, localizadas antes da trama propriamente dita, ser assinada pelo padre José Pedro, personagem do romance que não é apresentado de imediato, mas ao surgir pode fazer quem lê pensar algo como “então ele existiu mesmo”?

É sofisticada a tentativa de causar o efeito de realidade no leitor. Temos não apenas os textos supostamente publicados num órgão de imprensa, como também informações de rodapé, cujo caráter impessoal reforça o efeito que menciono. Logo abaixo da “Carta do Secretário do Chefe de Polícia à Redação do ‘Jornal da Tarde’”, lê-se entre parênteses: “publicada em primeira página do ‘JORNAL DA TARDE’, com clichê do Chefe de Polícia e um vasto comentário elogioso”. Ironicamente, o rodapé da carta de “Maria Ricardina, costureira” demonstra, pelo desprezo implícito, de que lado a imprensa costuma estar numa sociedade enraizada no escravismo como é a nossa: “Publicada na quinta página do ‘JORNAL DA TARDE’, entre anúncios, sem clichê e sem comentários”.

No chamado mundo real a imprensa não apenas noticia fatos: ela, fundamentalmente, constrói narrativa a respeito deles. Não é fenômeno particular da contemporaneidade, embora lhe seja típico: desde sempre há, por inevitável, o viés ideológico ao narrar a realidade. E Capitães da areia alude à instituição dessas narrativas, no início do romance, e em inserções de noticias de imprensa no decorrer da trama.

A título de exemplo: lá pelas tantas, ao abordar a prisão de Pedro Bala, diz o vespertino, que na verdade também é um personagem do romance: “O diretor do Reformatório Baiano de Menores Abandonados e Delinquentes é um velho amigo do ‘Jornal da Tarde’. Certa vez, uma reportagem nossa desfez um círculo de calúnias jogadas contra aquele estabelecimento de educação e seu diretor” (p. 171). Fica sugerida, no texto ficcional, a relação promíscua entre imprensa e instituições oficiais que ocorre na vida real, o que, sem dúvida, altera o modo como ela enxerga os fatos que envolvem esses estabelecimentos.

Outro aspecto destacável no discurso da imprensa no romance é a sua necessidade de idealizar e rotular os sujeitos que destoam da normatividade estética da qual ela funciona como arauto. Por esse recurso, tenta-se eliminar os significados desconfortáveis que eles possam assumir, e conduzir as interpretações da opinião pública quanto à inserção desses sujeitos numa narrativa social em que eles não são bem-vindos. Dois bons exemplos disso acontecem com Pedro Bala e Dora, depois de presos: ela é mostrada como “[…] a romântica inspiradora dos furtos […]” (p. 169) quando ela, na verdade, não é nem uma coisa nem outra; ele, que tem uma relação afetiva com a menina, é o “romântico noivo-bandido” (p. 170). Por esses dois qualificativos (“inspiradora dos furtos” e “noivo-bandido”), ligados a clichês do Romantismo mais aguado, as duas crianças abandonadas, e tudo o que essa condição representa, se tornam mais palatáveis à episteme elitista.

É a linguagem organizada da maneira como expus um dos trunfos que faz de Capitães da areia um clássico da literatura brasileira e, como tal, precisa sempre ser visitado e revisitado. Até para, pela dimensão ficcional, não nos esquecermos do abandono de nossa infância pobre; até para arregaçarmos a manga e resolver de uma vez por todas esse grande mal que assola as grandes cidades desde a “libertação” dos escravos.

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