SEXO, POLVOS E FETICHES NA ARTE SHUNGA – Fil Felix

A nudez nas artes é algo bastante comum. Das primeiras esculturas aos quadros renascentistas, o corpo nu sempre esteve presente. Com o decorrer dos anos, porém, o nu passou a ser um tabu cada vez maior. E mesmo com o nu plástico das obras sendo mais aceito socialmente, o nu real continua censurado. O sexo, então, nem se fala: pornografia. E é curioso pensar que um país como o Japão, que pende entre o tradicionalismo e a vanguarda, produziu durante o período Edo (1603-1867) um tipo de arte que chamamos de shunga, com motivos sexualmente explícitos.

Shunga (“imagens da primavera” em português, sendo “primavera” um eufemismo comum para sexo), era o nome dado a milhares de gravuras e livros ilustrados, concebidos por artistas da popular escola de arte Ukiyo-e (“retratos do mundo flutuante” em português), dentre eles o renomado Katsushika Hokusai (1760-1949). Uma das obras mais icônicas desse período, e produzida por Hokusai, é a xilogravura Kinoe no Komatsu,de 1814, popularmente conhecida por O Sonho da mulher do pescador: uma mulher, deitada sobre duas rochas, é estimulada sexualmente pelos tentáculos de um polvo enquanto é “beijada” por um polvo menor.

Em seu contexto, a arte shunga servia tanto para estimular seus leitores quanto para educá-los sexualmente e, apesar de sofrer algumas censuras por parte do governo, permaneceu ativa durante todo o período Edo, e promoveu uma grande liberdade sexual ou, como o British Museum coloca, tornou o ato “acessível a todos os participantes”: as cenas ilustradas da arte shunga vão desde o sexo tradicional (homem e mulher) até o grupal, masturbação e uso de consolos; sexo entre homens e entre mulheres, com animais e com figuras fantásticas. Também diversificados nos gêneros, há inclusive livros que explicam como transar durante a gravidez (e o que pode acontecer ao bebê). As figuras humanas estão em descompasso com a anatomia, mostrando órgãos sexuais quase sempre desproporcionais para dar destaque ao ato sexual em si.

Foi somente nos fim do século XIX, coincidindo com a Revolução Meiji e com a descoberta do Japão pelo Ocidente, quando o país se abria para o mundo, que a arte shunga entrou em decadência, e não demorou a ser banida.

Não tem como negar certo caráter fetichista nas figuras da arte shunga. Além disso, retomando O sonho da mulher do pescador, em que ela recebe sexo oral de um polvo, mais do que a sensação de ser possuída, é um ato de zoofilia.

Freud, em sua Carta 55 (1987), diz que “as perversões normalmente levam àzoofiliae têm uma característica animal”. Esmiuçando, ele coloca o olfato como principal órgão de sentido dos animais, apequenado na raça humana. Assim, tudo o que se associa ao olfato ou paladar é altamente sexual, podendo levar à anestesia histérica. Para o British Museum, que realizou a primeira mostra ocidental de shunga em 2013, essas gravuras também representavam o desencadear de um desejo, outro fato que nos aproxima dos conceitos de Freud, que dizia que os sonhos, geralmente distorcidos (e por coincidência fantásticos demais) devido a uma autocensura interna, eram a realização de um desejo.

A gravura de Hokusai nos faz refletir se de fato estamos diante do sonho da mulher, ou seja, se observamos seus desejos. E como qualquer boa obra de arte, ela também nos convida ao diálogo, em questionar nossa moralidade, nossos instintos e fetiches.

Outro ponto interessante de se pensar o sexo e a nudez, pegando a arte shunga como exemplo, é observar o incômodo que gera em muitas pessoas. Umberto Eco em A História da feiura diz que “o sexo causa mal-estar” (2007, p. 131) e cita o ensaio O Mal-estar na civilização, de Freud (1930), para dizer que “os órgãos genitais em si mesmos, cuja visão ésempre excitante, nunca são, todavia, considerados belos”. Está aí uma explicação para os gregos, por exemplo, nunca retratarem seus heróis com o pênis ereto, por ser associado ao descontrole e selvageria.

Por ser uma arte ainda pouco estudada e difundida, a arte shunga carece de exposições e até mesmo de materiais, pois há muitas obras perdidas. Em Português, há pouquíssimos textos. Mas é possível ter um vislumbre e imaginar como o povo japonês lidava com o sexo há 400 anos, as semelhanças e diferenças em relação a como lidamos hoje. Freud dizia que é o desejo (e quase sempre sexual) que move a humanidade. Seria possível, então, ver refletido na arte shunga aquilo que permeia todo o ser humano?

Bibliografia:

ECO, Umberto. História da Feiura. Rio de Janeiro: Record, 2007.

FREUD, Sigmund. Obras Completas de Sigmund Freud. Shandon Press, 2016. Edição Digital Kindle.

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