O ELOGIO A ESSA LOUCURA? – Eduardo Selga

Todo período histórico que adquire força gravitacional bastante de modo a arrebatar o imaginário das pessoas (e isso não significa que a sociedade inteira seja atingida com igual intensidade), todo período histórico com semelhante característica, por inevitável, engendra versões no campo artístico, da ideologia que dá o tom dessa época. Não apenas, entretanto: também do pensamento que funciona como oposição a esse domínio.

É no sentido da reverberação do momento histórico no âmbito da arte que, por exemplo, o Realismo Mágico representou a necessidade que a América Latina possuía de ressaltar sua subjetividade de modo independente dos grandes irradiadores mundiais de cultura, pop (Estados Unidos) ou erudita (Europa).

Há que se ressaltar: essa necessidade ainda existe. Porém, não com a mesma veemência dos anos 60 e 70 do século XX, época do florescimento do Realismo Mágico, em função de outras forças que atuam como sufocadoras desse grito identitário continental. Aqui no Brasil elas me parecem muito evidentes.

Outro exemplo da relação entre sociedade e literatura é o Romantismo brasileiro (séc. XIX), que serviu à necessidade ideológica de estimular no cidadão um sentimento de patriotismo, até então quase inexistente. Gonçalves Dias, suas palmeiras e sabiás, a despeito da qualidade literária, ideologicamente se encaixam com perfeição em seu momento histórico. 

Durante a ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1985, em vários campos da arte surgiu uma estética de protesto. Por ser arte, não manifesto estritamente político, e também por causa da censura, não eram críticas diretas. Os oblíquos do discurso artístico direcionavam-se à defesa da liberdade, dos valores democráticos, à denúncia do autoritarismo e de todo o seu mecanismo subjetivo. Revelavam o falso moralismo inerente àqueles anos. São exemplos disso, na literatura, dentre outros, os romances A hora dos ruminantes (1966), de José J. Veiga, Zero (1974), de Ignácio de Loyola Brandão e A festa (1976), de Ivan Ângelo.

Assestemos nossos binóculos no Brasil de hoje: as entrelinhas do discurso social que ascendeu o poder abrigam tentativa de forjar uma metamorfose na cultura brasileira. Esse movimento não é produto de geração espontânea: está atrelada a interesses ideológicos. Sua visibilidade eclodiu agora, mas é resultante de um processo que veio ganhando corpo em nossa sociedade há tempos.

Acredito que não esteja demasiado implícito, mas ainda assim é bom que se reafirme, de modo a evitar ruídos à boa compreensão deste artigo: utilizo o conceito “cultura” não no sentido de resultado da escolaridade, e sim como um povo interpreta o mundo e existe nele.

Embora já seja possível enxergar alguns desenhos nas nuvens do horizonte, por enquanto não sabemos no que resultará, no campo artístico, semelhante movimento, pois ele não está formado o bastante. Especificamente em nossa literatura uma pergunta se manifesta e me interessa muito de perto: como ela traduzirá o atual momento histórico brasileiro?

Excluindo boa parte dos autores os quais, acredito, optará por nem mesmo arranhar os temas que se aproximem de nossa tragédia, numa neutralidade que é mais receio da polêmica do que qualquer outra coisa, imagino que na prosa, não demora, veremos por um lado textos cujas tramas e personagens farão o elogio a essa loucura, louvando a barbárie sociopolítica, com maior ou menor grau de explicitude; por outro, a contraposição a tudo isso, com mais ou menos sombras.

Se o Brasil político de hoje fosse a exata cópia dos Anos de Chumbo, o que evidentemente não é possível, a despeito de ser fruto da mesma árvore genealógica, e se o desenho social fosse idêntico (outra impossibilidade), a resposta seria fácil. Entretanto, além dessas variáveis, há outra, que me parece bem a propósito: ontem, a expressão escrita tinha somente o papel impresso como veículo; hoje, além do livro, da revista, do jornal, temos a facilidade da internet, e isso muda algumas coisas importantes.

A publicação seguia um protocolo de seleção a partir da qualidade textual (não necessariamente literária), potencialidade mercadológica, mas também a partir de critérios ideológicos, embora estes se comportassem sub-repticiamente. Hoje, como cada autor tem a condição de editar em seu site ou blogue a própria produção, sem o crivo do editor, a qualidade textual às vezes sofre prejuízos, mas o critério ideológico está sempre presente, ainda que oculto.

Enquanto veículo de mídia, a rede global de computadores tem uma linguagem toda particular, como acontece com o rádio e a TV. O que a destaca em relação a um e outro é que a agilidade do seu “modo de ser” reflete o espírito da contemporaneidade, em especial da juventude, que tradicionalmente tinha pouco espaço real de manifestação em nossa sociedade. Assim, desde seu surgimento, a internet sempre foi um território dominado pelos jovens num país cuja qualidade do ensino sofreu um processo de desmantelamento a partir da ditadura, situação que promete se agravar muito. Com isso, é grande na rede a quantidade de jovens despolitizados que, na maioria das vezes sem se darem conta, servem à ideologia contrária à felicidade do Homem e à vida em seu sentido pleno.

É nesse caldeirão que fermentam alguns autores na internet. Ainda que não usem o termo, muitos defendem o conceito “arte pela arte”, na suposição de que o fazer artístico que não seja “pela arte” é qualquer coisa, exceto arte. Um tanto contraditoriamente, a essa característica costuma juntar-se outra: a inobservância quanto à literariedade do texto. O importante para esse entendimento é, exclusivamente, que ele comunique e emocione. É uma visão utilitarista do texto, que o entende como se ele fosse um artifício publicitário ou mera explanação.

Acho razoável supor que o instante histórico pelo qual estamos atravessando (e que desconfio não se dissipará tão cedo) será traduzindo literariamente por duas vertentes: uma, abraçando os pressupostos que sustentam o caos e a barbárie institucionalizados (a violência como prazer e catarse é um dos seus temas possíveis); outra, repelindo-os. Agora, se uma eventual literatura de protesto conseguirá cativar a subjetividade do leitor, é questão de uma complexa dialética envolvendo o texto, o indivíduo diante dele e as forças sociais que atuam sobre cada um de nós.   

Já existem alguns embriões, numa vertente e noutra. A editora A. R. Publisher, por exemplo, em breve lançará a antologia de contos e poemas Resistências, cuja temática, como o título sugere, são os grupos sociais de algum modo discriminados, como os pobres, as mulheres, os LGBT’s, os negros, as religiões de matriz africana e tantos outros. Esse projeto editorial, felizmente, está na contramão da correnteza que assumiu o poder no Brasil.

Na outra ponta, o Banco Itaú, promotor de um concurso literário bastante disputado, ao abrir o edital desse ano incluiu um item que proibia texto que se posicionassem “contra a moral e os bons costumes”. Esse viés claramente identificado com o conservadorismo é algo inaudito em concursos literários no Brasil contemporâneo, inclusive nos do próprio Itaú. Com a repercussão negativa, o banco creditou a alínea a um engano, e disse que já foi retirada. De todo o modo, é o bastante para o autor pensar duas vezes antes de escrever coisas que possam ser consideradas inoportunas.

Vejamos como essas duas grandes nuvens vão se movimentar no céu carrancudo que se forma sobre nossas cabeças.        

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