BRASIL: COBRE E ÁGUA-MARINHA – Lezir Ishigawa

Do que trata o documentário Fevereiros (2017)?

Quando começamos a assistir ao trabalho dirigido por Marcio Debellian, surge uma certeza: o protagonismo pertence à Maria Bethânia e às suas raízes religiosas fincadas em Santo Amaro da Purificação, cidade do recôncavo baiano.

À medida que o documentário avança, contudo, nos damos conta de que, embora a primeira impressão seja válida, a obra vai mais longe em significados e se torna complexa: o protagonismo pertence também ao mês de fevereiro (daí o título), quando ocorrem duas festas importantes em um Brasil que certas forças políticas anseiam desmontar e estão conseguindo fazê-lo paulatinamente: a procissão de Nossa Senhora da Purificação, na cidade em que Maria Bethânia nasceu, e o Carnaval.

A primeira festa, evidentemente religiosa, ao mesmo tempo em que é circunscrita a um pedaço interior do país, carrega em si uma invocação nacional: nossa religiosidade sincrética; a segunda, o profano capturado pelo Cristianismo, cujas imagens são transmitidas para todo o mundo e que traz em si uma das faces da expressão da negritude brasileira.

Há, entretanto, um terceiro protagonismo: a escola de samba Mangueira, elemento que é a costura do documentário, e realiza os dois anteriores como partes de um belo enredo.

Fazendo aqui uma alegoria, entendo a Estação Primeira, a exemplo de toda grande escola de samba carioca, como uma espécie de religião brasileira da alegria profana do deus mitológico Pã. Nesse sentido, é oportuno o caminho trilhado pelo documentário ao mostrar uma Bethânia profundamente religiosa e profana, devota de Nossa Senhora e Oxum, do catolicismo e do candomblé, essa religião em que as expressões musical e corporal são essenciais. Como acontece no samba. Tudo muito coerente, portanto. E aqui se encaixa bem uma frase dita por Maria Bethânia com sua “voz com tons de cobre e de água-marinha”, nas palavras de Caetano Veloso: “a música é a língua materna de Deus”.

Simbolicamente próximo à ideia de sincretismo que perpassa o documentário, Caetano Veloso, em seu depoimento, diz que o escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) afirmara certa vez que ele, Caetano, e Maria Bethânia, sua irmã, eram a mesma pessoa em corpos diferentes, ideia compartilhada por Mãe Menininha do Gantois (1894-1986), uma das ialorixás mais respeitadas do Brasil.

Metáfora para um, esoterismo para outra, essa passagem mostra o quanto o óbvio não tem muito espaço nos 73 minutos da obra, da qual participam, além da própria protagonista e seu irmão, a poeta Mabel Veloso, o carnavalesco Leandro Vieira, o historiador Luiz Antônio Simas, imagens e áudio de arquivo do compositor João da Baiana (1887-1974), Chico Buarque, dentre outros.

Maria Bethânia, cujas falas sempre parecem bastante sinceras, sem aquela construção de personagem comum em algumas entrevistas de artistas e intelectuais por aí, a cantora diz que se identifica pessoalmente muito mais com Nossa Senhora do que com Deus, pois a figura patriarcal e vingativa Dele sempre lhe assustou, ao contrário da mãe de Jesus, em sua opinião uma personagem muito mais humana. Isso nos faz perguntar se não estaria aí a raiz (ou pelo menos uma delas) da grande devoção que Nossa Senhora, em suas muitas versões, causa na alma brasileira. Não seria muito forte em nosso povo, esse ao qual pertencemos, o princípio feminino? E não seria essa uma das forças que hoje pretendem apequenar?

Falando nisso, Luiz Antonio Simas, historiador e um dos entrevistados, diz algo que reforça as perguntas acima: segundo ele, as baianas das escolas de samba, um dos marcos mais visíveis de que carnaval, no Brasil, está ligado à religiosidade afro-brasileira, é a representação de um arranjo matriarcal de sociedade trazido pelos negros de África, que pode ser traduzido originalmente por uma rede de proteção social. Não é gratuito, portanto, que os primeiros ritmistas da Mangueira tenham sido ogãs do candomblé. Guardando as proporções devidas, e usando um termo impróprio, porque vago e pejorativo, apesar de muito enraizado no imaginário popular, é como se o carnaval fosse uma enorme “macumba”, com toda a energia que ela possui e transfere à assistência.

Na tentativa de responder à pergunta do primeiro parágrafo, o documentário Fevereiros, ao abordar Maria Bethânia, duas festas importantes que acontecem no segundo mês do ano e a Mangueira, está falando de nós os outros. Os brasileiros. Ou melhor, de certa brasilidade, da qual todos esses elementos são ícones.

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