O ROSTO QUE NOS OLHA – Fil Felix

É uma espécie de consenso popular presumir a arte contemporânea, de maneira geral, como um bicho de sete cabeças: confusa, estranha, elitista, desnecessária, não-arte, dentre inúmeros adjetivos. Não raramente, as frases são seguidas por elogios às “artes de verdade”, citando autores modernos como Van Gogh e seus girassóis e noites estreladas, ou Monet e suas paisagens.

Poucos sabem que, em suas épocas, esses mesmos artistas foram rotulados de estranhos, tanto quanto os da arte contemporânea. O novo e o diferente, seja em que época forem, sempre assustam. Entretanto, por mais que romantizemos os artistas do passado, sejam os pintores, diretores de cinema, músicos ou escritores, nós vivemos o hoje. E o hoje possui inúmeros artistas excelentes. Uma boa maneira de aproveitarmos a arte da nossa época, dos nossos contemporâneos, é repensarmos o modo como nos relacionamos com ela: é olharmos para a forma e nos depararmos com um rosto que também nos olha, criando um diálogo.

Nicolas Bourriaud é um importante crítico francês de arte que publicou em 1998 seu livro Estética relacional, cuja publicação no Brasil se deu em 2009 pela Martins Fontes, como uma maneira de analisar o que estava sendo produzido nas décadas de 1990 e 1980. É quando surge o termo “forma relacional”, o que faz Bourriaud acreditar que as novas formas de engenho artístico não visam apenas à interação entre espectador e obra, mas sim a seguinte experiência: transformar o espectador em parte integrante da obra. Para ilustrar sua tese, ele se refere ao crítico de cinema Serge Daney, também francês, que define a forma como “um rosto que nos olha”: a representação do desejo numa imagem; e produzir uma forma é criar o ambiente para um espaço de troca, e convidar o outro para o diálogo (2009, p.32).

Para Bourriaud, a boa obra de arte é aquela que se abre ao diálogo e ao debate, que não apenas exista em seu espaço. Ao contrário da arte moderna, onde víamos modelos utópicos de mundo, como a partir do Surrealismo e do Futurismo, uma das principais intenções dos artistas contemporâneos é entregar um modelo de mundo capaz de ser experimentado na realidade. Caminhando lado a lado com a Globalização, das exposições em grandes museus aos artistas regionais, o que vemos são maneiras de aproximar a obra ao espectador. Não o contrário, como muitos pensam. Seja oferecendo um campo interativo, seja uma performance coletiva (obra que atua com várias sensações), são manifestações que dialogam com o cenário político atual, com as crises econômicas e sociais ou com os temas que em voga. A maioria busca por essa proximidade. Por isso a importância de nos abrirmos ao diálogo com a forma. Sem neuras ou tabus.

Na 33ª. Bienal de Arte de São Pàulo, realizada em 2018, uma obra idealizada pelo artista espanhol Antonio Bellester Moreno chamou a atenção: seis mil cogumelos espalhados no chão, em círculo, feitos de argila e queimados em tons diferentes, criados por cerca de 550 alunos de escolas públicas. Além de aproximar os estudantes (todos entre cinco e 14 anos) ao mundo da cerâmica, também foi uma forma de quebrar o paradigma da arte elitista, de democratizar o acesso à cultura. Na fala de Moreno, que entende a arte mais como processo que produto final, ele prioriza a criatividade e se desapega da arte consagrada, aproximando-se da arte popular. E nada mais simbólico que realizar isso com argila, o mesmo barro tão presente em nosso imaginário popular, como as figuras de Mestre Vitalino.

A rede de cogumelos, além de retratar esse fungo cuja base sob o solo pode crescer por quilômetros, com algumas espécies consideradas os maiores organismos vivos da Terra, paralelamente estabelece uma criação que conversa com a infância, a coletividade, o crescimento e proliferação das ideias das crianças.

Sem querer, Moreno e seus cogumelos brincam com a maior das falas (e críticas) em torno da arte contemporânea, a famosa “até meu filho faz”. Moreno comprova que sim, caro leitor, até seu filho pode fazer. E isso é ótimo.

Ao observarmos essas formas que nos tiram da zona de conforto, ao encará-las nos olhos como um rosto que nos olha, estabelecendo um diálogo, que nunca será o mesmo para duas pessoas, já que um diálogo depende da história e bagagem que cada pessoa traz, tiramos a arte e o artista de seu pedestal sagrado, aproximando-nos um dos outros.

Bibliografia:

BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. 1ª. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

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