CUIDADO! O REAL É FRÁGIL – Lezir Ishigawa

A ideia central da franquia Matrix é que a realidade, ordenada do modo como a concebemos, não passa de um gigantesco programa de computador a provocar nas pessoas não só o efeito de materialidade, como também a percepção de todos os afetos decorrentes do convívio social. Com esse desempenho, matrix, estrutura organizada por uma grande inteligência artificial autônoma em relação aos seres humanos e que atua contra a espécie, esconde metrópoles destruídas num planeta inabitável em sua superfície. As cidades inviabilizadas, na verdade, têm um papel: são grandes campos onde existem uma multiplicidade de incubadoras, nas quais seres humanos são “cultivados”, como se fossem vegetais.

Dos três filmes da série de ficção científica norte-americana, Matrix (1999), Matrix Reload (2003) e Matrix revolutions (2003), traçaremos uma análise a partir exclusivamente de alguns elementos do primeiro filme, seja pelo espaço restrito de que dispomos, seja porque é o tanto quanto basta para ligarmos a obra a aspectos de nossa realidade contemporânea.

Se 1984, romance de 1949 escrito por George Orwell, obra que chega aos dias de hoje influenciando autores e leitores, pode ser considerada uma antecipação alegórica da sociedade disciplinar teorizada por Foucault, pois a obra do filósofo francês veio a lume após o romance de Orwell, Matrix é a sociedade do controle, tese defendida por outro filósofo francês, Gilles Deleuze. Por esse conceito, a necessidade de punição diminui muito porque os corpos estão quase perfeitamente adestrados.

Em Matrix o servilismo ocorre não diretamente, e sim por projeção: as pessoas “de verdade” estão cultivadas em um vasto campo, no interior de cúpulas com líquidos amnióticos, e suas mentes, materializadas em bytes que refletem a forma física dessas pessoas, habitam a matrix, que é o espaço do nada artificialmente preenchido. Semelhante condição nos envia de imediato a outro filósofo, John Locke, segundo quem a mente humana, no recém-nascido, é esse nada, uma folha em branco. É a experiência durante a história da pessoa que povoa o espaço vazio, dando significado às coisas e fenômenos. Ou seja, as características dos objetos não existem em si: antes, são atribuídas pela mente. 

Na matrix, um mundo de consciências humanas alienadas, de sujeitos assujeitados, há a oposição de um grupo guerrilheiro (embora o termo não apareça em nenhum momento no filme) que habita a nave espacial Nabucodonosor, nome de um relevante monarca da Babilônia.

A liderança é exercida por Morpheus (Laurence Fishburne), e a escolha desse nome para o personagem tem uma função: na mitologia grega, Morfeu era considerado o deus do sonho, com engenho bastante para assumir qualquer imagem humana e penetrar no sonho das pessoas. O espaço da matrix, quando se sabe que todo ele é uma construção de I.A, parece um sonho. Um pesadelo, na verdade. Todo o grupo, ao invadir a matrix, são Morfeus.

A própria Nabucodonosor é um grande Morfeu, na medida em que consegue entrar na grande simulação que é a matrix, mesmo não fazendo parte dela, porque emite um sinal pirata, se finge pertencer à natureza falsa. O grupo, portanto, exercita a mentira dentro de outra, que é a matrix. Por isso igualam-se ambos os polos? De modo nenhum. Uma coisa é mundo sensível que não permite o que convencionamos denominar verdade, ou seja, a matriz; outra é a estratégia para adentrar esse universo de simulacro.

A penetração do grupo no interior da matrix, sobretudo a presença de quem pode se tornar um grande futuro líder guerrilheiro, Neo (sufixo de origem grega que designa “novo”) ou Anderson (interpretado por Keanu Reeves), é duramente combatida por três agentes a serviço da ordem mundial cibernética. A maneira como se vestem é muito similar à dos agentes oficiais de outro filme, MIB – Homens de Preto (1997). Curiosamente, o mais feroz deles, Smith (Hugo Weaving), ao ter Morpheus em suas mãos, confessa que não suporta a condição de estar na matrix e mal vê a hora de sair dela, e ao fazê-lo evidencia racismo (Morpheus é negro). Mas, sendo a agente resultado de uma mente cultivada, portanto supostamente alheia, o que ele pretende ao dizer isso? Será que a mentira dói, incomoda a ponto de ele querer voltar à incubadora ou viver a realidade humana como ela de fato é? E aqui cabe uma das muitas frases filosóficas do personagem Morpheus: “O que é a realidade?”.

Essa pergunta está na base do mito da caverna, de Platão. O real é o que eu penso ser ou a realidade é maior que a minha cidadela e eu não tenho consciência disso?

Além da filosofia que nos conecta diretamente ao mundo contemporâneo, Matrix é uma colcha de intertextualidades com outras obras artísticas, muito bem utilizadas por ambas as diretoras (Lilly e Lana Wachowski), de modo que nada soa gratuito ou mero artifício para valorizar o filme.

Uma das referências mais evidentes é Alice no país das maravilhas, quando Morpheus oferece a Neo, como na obra de Lewis Carroll, a escolha entre duas pílulas, uma azul e outra vermelha, sendo esta a permanência no espaço do absurdo (matrix e o País das Maravilhas) e aquela a volta à suposta normalidade.

Na sequência em que Morpheus ensina a Neo a prática de lutas marciais, a concepção visual é similar aos antigos filmes de kung fu, com Bruce Lee e, mais recentemente, Jackie Chan. Ao mesmo tempo, essa e outras cenas de luta sem armas de fogo se inserem na estética de videogame, como em Street Fighter, jogo lançado em 1987.

Outra referência bem nítida ocorre em relação ao filme A dama de vermelho, produção norte-americana de 1984. Um dos programadores da Nabucodonosor, em meio a uma multidão de anônimos vestindo preto e branco (o sistema binário da computação), cria uma loira sensual vestida com um longo vermelho.

Todos os que gostam do faroeste sabem: é um clichê cenas nas quais certas plantas rolam ao vento, os amarantos-do-deserto, que, para o telespectador, funcionam como indício de cidade abandonada ou de tiroteio em breve. Pois em Matrix temos uma recorrência disso, quando o agente Smith fica a alguns metros de Neo, na clássica postura do duelo ao pôr do sol: folhas de jornal voam próximas aos personagens.

Nos minutos finais do filme, o corpo físico de Neo, a bordo da nave, está exaurido em função dos ferimentos que seu corpo mental sofre na matrix, na luta contra os agentes. Estes chegam mesmo a confirmar sua morte, pela ausência de pulsação na artéria do pescoço. Porém, numa espécie de A bela adormecida em que os papéis estão invertidos, a personagem interpretada pela atriz Carrie-Anne Moss, Trinity (aliás nome de um famoso ícone dos filmes western spaghetti), apaixonada, ao beijar a boca do amado ressuscita o corpo mental falecido na luta.

Do lado de cá das câmeras, há quem acredite que já vivemos em uma matrix. Obviamente não sou o oráculo do filme, uma dona de casa (Gloria Foster) que faz biscoitinhos e prediz o destino, mas a frase “matrix pegou você”, que surge no computador de Neo logo no início do filme, faz algum sentido. Observemos os fenômenos políticos e sociológicos em nosso entorno. O que é verdade e o que não é? Como diz o Morpheus, “o destino, ao que parece, não existe sem uma dose de ironia”.

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